OLHOS VERDES – Um amor explícito, mas jamais declarado

Estar no palco antes de qualquer coisa é uma aventura. Você aprende que não há rede de proteção, não há amarras. É você vivo no espaço cênico e sem medo de se perder.

Essa semana começou a oportunidade de estar vivo mais uma vez no Viga Espaço Cênico sob a direção ímpar de André Grecco e jogando com um cara que se dispôs a embarcar comigo nessas camadas rarefeitas de amor e poesia que perfazem o universo de OLHOS VERDES, meu parceiro de cena: William Avelar. É com ele que conto essa história. Damos vida a esses dois jovens atores que têm seus destinos cruzados numa sala de ensaio em que falar de amor, acontece sem que seja preciso pronunciar seus nomes. 

Ator 1 e Ator 2 acabam de se conhecer e com o ritmo dos ensaios e as cenas que vão se apresentando, vêem uma relação a princípio impessoal ganhar cores que levam  a cumplicidade e a um jogo de equilíbrios que nem sempre é capaz de deixar os copos não transbordarem. A água viva dos destinos faz com que o toque, a pele, a ruptura das palavras não ditas e os rompantes dos vinte e poucos anos façam com que se revezem entre caça e caçador a um só tempo.

Falar de amor sempre é delicado e sempre há o medo de não querer parecer clichê. Nós conseguimos? Está aí um desafio, já que o amor em sua essência é piegas e avassalador. Numa narrativa fragmentada, OLHOS VERDES não tem a preocupação de querer parecer isso ou aquilo. Nosso compromisso é transpirar sensações: sem receios do olhar, da dor, da alegria em estar em estado enamorado.

“Eu estou vivo, é isso que importa agora”

(Ator1)Imagem

E que bom é poder jogar! 

OLHOS VERDES – Um amor explícito

David Felipe

 – No Viga Espaço Cênico às 4as e 5as às 21h – Rua Capote Valente, 1323 – próximo ao Metrô Sumaré

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Ciao

Você saiu do lugar comum porque ele nunca foi seu. Foi sempre só um lugar entre a vontade de jogar a água de volta na pia ou beber o líquido inteiro do copo de uma vez. Antes isso que devorar uma caixa inteira de chocolates em poucos minutos e ainda dizer que é força do hábito, que foi uma maneira de quebrar a promessa anual de não comer algo que gostasse muito por algum tipo de pedido carregado de fé, como se fé houvesse na hora de respirar fundo e dizer nunca mais antes de passar a mão no telefone pra só dizer “oi”.

Então, você cruza os braços sobre eles mesmos, apóia o telefone no queixo e repete: “oi”, numa entonação mais alta já que o primeiro foi dito pra dentro e só você ouviu. As palavras saem um pouco sem nexo, como de costume e você se lembra que não havia um assunto pronto para o bate-papo casual marcado para acontecer assim que você saísse do banho, vestisse uma roupa que fosse própria para ir do shopping ao teatro municipal e parecesse que escolhera a primeira do armário em caso de um “sim”.

E no caso de um “sim”, você ganhou o dia. Não faltará mais nada entre a vontade de jogar a água de volta na pia ou beber o líquido inteiro do copo de uma vez – você lavará o rosto com vigor na água fria e se verá no espelho do banheiro com o sorriso bem aberto e talvez você diga “oi” para si mesmo antes de passar a mão na chave do carro, descer as escadas quase que em marcha para não se amassar e botar o rádio em volume médio, cantando baixinho as músicas do pen drive e às vezes alto, para abrir mais o sorriso do “sim”.

E no caso de um “não”, você ainda não sabe o que será do resto do dia. Sobrará tempo para que se decida por jogar a água na pia, beber o líquido todo do copo ou arremessá-lo de contra a parede. E então, talvez você ria por uns cinco minutos seguidos, ponha a melhor roupa do armário para ir até o teatro municipal ou para que fique bem diante do espelho lhe vendo com a vodka em uma das mãos, o pote de pistaches na outra e você com os olhos um pouco frios, pensando nas novas possibilidades da promessa de não comer chocolate, de devorar uma nova caixa toda em segundos ou de ligar de novo e dizer: “Ciao”.

David Felipe

Fritem-se!!!

E então você decide por viver, seja com óleo quente e água fria escorrendo ao mesmo tempo sobre sua pele. Queima? Não, frita mesmo. Mas não tem problema. É o voo que você mesmo escolheu diante das opções que enxergou.

Daí você não dá a minima sobre quem ou o que te julgou. Sim, alguéns são como máquinas e daí não dá pra adjetivar como humano. Isso é um julgamento, mesmo. E daí? Nós não somos perfeitos mesmo e tudo bem.

Já ouviu falar de que não acabou se ainda não acabou bem? É mais ou menos por aí. É o que a gente acredita para seguir em frente. E isso é mesmo poético e patético ao mesmo tempo. Sem crises, que se dane o mundo, que se dane tudo! A corda já arrebentou mesmo, Deixa ruir.

Triste? Não, não, é só uma constatação. Verossímil sim, real, de verdade. Totalmente redundante. Temos as nossas reservas para aprender a caminhar de novo. Não, mas não vou apagar. Temos as nossas reservas por instinto de sobrevivência. Só que é gostoso chutar o balde algumas vezes na semana ou no dia. Depois pode ser que você procure se afogar no álcool, numa droga mais pesada, numa poesia. Isso, numa poesia. Isso é risível e chato. Como é chato ser considerado assim: chato.

Só que é bom lembrar que quem procura, acha e se frita. Sem o gostinho bom do pastel de carne da feira e da garapa geladinha.

Fritem-se!!!! A casquinha depois sai e pele nova chega.

David Felipe

Traduzindo em palavras

Eu sigo querendo traduzir-te em palavras, assim como tantas vezes eu faço comigo mesmo, mas nem sempre consigo. Com você eu nunca consigo, sempre falta verbo, crase, aliteração perfeita ou qualquer figura de linguagem que te compare, te esclareça.

E a vida segue e eu acabo de usar mais uma frase batida que não te bate. É assim, com a vontade de dizer-te vários impropérios e encher-te de xingamentos que só rebatem dentro de mim, como de costume. 

Eu não sei te traduzir, senão já o teria feito, assim como com um livro escolar de aula de inglês. Ser patético é um pouco dessa sina. Rindo, rindo, rindo de mim mesmo, enquanto eu queria um sorriso só meu, desses que estalam com um pouquinho de saliva brilhante no canto dos dentes bem perto do ouvido e às vezes são seguidos de uma mordidinha de leve no canto dos lábios.

Só me falta dizer que queria um número exato de nuvens no céu e flores de determinadas cores como cenário. Não, não chega a tanto. Mas mal não seria (agora rindo por dentro).

E pode ser mentira e pode ser verdade e me preocupar. Pode ser tudo e eu não vou saber. Pode ser nada.

E se for um tudo bonito, eu me regozijo. E se for um tudo de chateação, torço para que passe logo. E se for nada, que se dane! Tenho o mesmo tipo de sangue que corre nas veias de todo e qualquer ser humano.

Eu escancaro portas, quebro janelas, me corto, te sangro e isso é só um tipo de tradução. Não se espante. Eu canto em lugar de gritar. Eu apoio a cabeça na parede e sei que é frio como não te sentir.

Eu sou estúpido novamente tentando te traduzir. Eu canso de saudades, eu invento cavalos brancos que sabem o caminho certo e quebro a redoma que construí.

Eu durmo (com um dos olhos abertos). Eu não sou ignorante o bastante para não ligar pontos, mesmo que errados, nem tampouco inteligente para mandar a redoma de volta ao Paraguai de onde não deveria ter saído. 

Eu gozo sem ser fisiológico, te lambo.

Sensatez

Sensatez

Sensatez é coisa que falta quando nos deixamos levar pelas paixões. A verdade é que quando é só uma paixão, passa. Já teria passado. Vou ser honesto, talvez seja amor. Não, para ser mais claro, é amor e não há o que se fazer contra. Curioso só é que agora eu consigo escrever por aqui sem os olhos cheios d’água, o que seria o mais comum.

Deve ser por que hoje eu já chorei. E não é vergonha nenhuma dizer isso. Machuca de verdade saber que você está do outro lado e que nem se incomode com qualquer coisa que eu faça. Provável que se eu te mandasse para qualquer lugar que fosse um palavrão que aqui não precisa ser dito ou juntasse todos eles e dissesse pra você, e você nem moveria uma única linha de expressão no seu rosto.

Eu sei que o vai daqui pra aí, não vem daí pra cá. E já era tempo de eu simplesmente sossegar ou agitar me jogando nos prazeres todos da vida. Não que eu não deva fazer isso. Penso que sim, apesar de não parecer tão fácil. Impossível amoldar sentimentos, sensações. Eles vêm mesmo que não se queira, é sempre assim. O fato, porém é que ninguém quer se acostumar a sentir dor e conviver com a própria sombra. Duas sombras ficam tão mais bonitas quando projetadas. Sim, eu idiotamente sou romântico. Está bem que para alguns não seja um erro. Enfim, faltam algumas palavras e sobram outras.

Meu ombro está doendo e só pode ser resultado de tencioná-lo por vezes sem nem saber.

Sua beleza é tão grande – foi o que me ocorreu agora. Seus olhos nunca sorriram pra mim, eu acho. Mas já os vi com o brilho mais bonito deste mundo pra outro alguém. E nessa parte é impossível dizer que quanto a isso tudo bem. Eu queria que olhasse igual pra mim. E é penoso parecer ter pena de si mesmo. Isso nunca ajuda.

Estou numa tentativa blasé para parecer blasé ou continuar blasé. Raiva me dá sim quando te imagino tendo prazeres que não quis que eu te desse. Parece-me que você não sentiria prazer em mim. Como eu disse antes, seu olhar nunca brilhou tão bonito pra mim. E não há o que fazer.

Meus olhos estão pesando, porém por cansaço. Ficaria eu horas divagando por você, o que não devo.

É preciso desabafar para não se conter por inteiro e virar um comprimido inanimado. Há de haver sempre música e voz para tentar cantar. Há de haver sempre você com ou sem música e tentarei passar como quem passa por uma vitrine e nem se lembra do nome da marca depois.

Eu cantaria agora pra você dormir. Todavia me atina que você não durma tão cedo por hoje e não quero pensar no por quê. Embora nesse instante, levemente eu tenha pensado e uma lágrima quase brotasse de meu olho esquerdo.

Quem disse que eu não te amo mais?

 David Felipe

TRÊS – V. João

V. João

Sim, este é o meu nome: João. E não Johnny. Sou comum assim como o Zé, a Maria, o Fred. Quer dizer, Fred é menos comum. Não sei se é por ordem de importância, mas o autor deu o terceiro post em primeira pessoa para mim. Talvez seja o último.

A real é que aconteceu e em segundos um universo particular já estava informado a respeito. O universo particular de Marcelo S. E eu deixei ele falando de fato, ou quase. Ele me localizou na rede fácil – sempre há amigos em comum no mundo virtual – e disse algo como pedir desculpas e eu disse que não havia por que. Afinal, em uma noite e um beijo, eu fiquei conhecido por umas sessenta mil pessoas – seus seguidores do Twitter, e isso pode não querer dizer nada, mas mal não fez.

Não que eu seja ainda o nerd dos tempos de colégio, apesar do curso de História e os amigos meio hippies no estilo. Porém, um empurrão em popularidade não faz mal a ninguém. Quanto ao beijo, foi surpresa sim. O cara pode ser sub, mas carrega o sufixo “celebridade”. Se já acontecera antes? Talvez, quem sabe?

O Marcelo ainda me chama de Johnny. Eu ganhei vários convites VIP para baladas e a Amanda me encheu de perguntas – sim, ela descobriu meu perfil na rede também. Ela não teve tantas respostas assim, pois nada de grandioso aconteceu (do meu ponto de vista, pelo menos).

Marcelo S. fez outro comercial de sorvetes. Verdade. Eu até fui a uma das festas de promoção da marca. E a Amanda também. Na foto de número sessenta mil do perfil do Marcelo, lá estão ele, Amanda e eu – os três nessa ordem. O Douglas que tirou a foto um pouco a contragosto e depois apareceu na foto de número sessenta mil e um. Até porque é preciso realimentar o sistema de rostos novos, sorrisos incríveis e alta disposição. As alegrias em recortes sempre vendem bem!

– Três!

Amanda ficou com a bochecha toda vermelha e logo saiu dando um “curtir” instantâneo via smartphone.

 

David Felipe

TRÊS – IV. Pipocas

IV. Pipocas

AMANDA

– “Quem deixa Marcelo S. falando?” Olha a legenda dessa foto, Paty. Ou melhor, olha a foto!

– O que tem demais, Amanda?

Ela parecia não entender o que eu estava dizendo ou estava cega. Só podia ser. Ah, embora eu seja a menos importante da história, eu acho, recebi o segundo post em primeira pessoa.

– Paty, é o Marcelo beijando outro garoto!

– Como assim? Beijando outro garoto?

A Paty gaguejou, mas depois riu de mim e da situação.

– Ele é seu namorado, por acaso? Deixa ele ser feliz, Mandinha. E você já vai ter um dia todo com ele.

– Paty, agora todo mundo já viu. Está no Twitter de uma das maiores haters do Marcelo.

– Nossa! Se ele não quisesse exposição assim que não beijasse o cara. Oras!

– Mas isso quer dizer…

– Quer dizer que ele curtiu o momento, só isso.

– Mas…

– E se quiser dizer mais alguma coisa, você deixa de ser fã?

Não respondi nos cinco segundos seguintes e depois disse:

– Não!

– Pipocas!

Pipocas. Para a Paty, toda e qualquer crise minha se resolvia com pipocas de micro-ondas e sorvete. Ela acertava em noventa e nove por cento das vezes. Tenho de confessar. E tenho de confessar que também não era tão fácil ver a foto e que não seria também para ele no dia seguinte. Sim, a foto foi postada em tempo real praticamente. Viva os smartphones. Ou Não!

– Ele vai ficar até mais popular. Você vai ver!

Eu ainda tinha esperança de qualquer coisa com ele. Ainda tenho para falar a verdade. O que pode ter demais um beijo?

– Nada.

– Está lendo meu pensamento, Paty?

– Só às vezes – e riu-se.

– Pipocas!

A foto ganhou milhares de “likes” em pouco tempo e o perfil do Twitter da hater do Marcelo se popularizou aquela noite. Eu tinha certeza de que ele só veria no dia seguinte, bem tarde, quando acordasse do pós-balada. Por que eu sabia? Eu não sei, só imagino.

– Ciúmes eu posso ter!

– Não, não pode Ele é só, é só…o que ele é mesmo?

– Um cara lindo!

– Falei que era melhor se dedicar a colecionar coisas do Bieber, Amanda! – e riu-se de novo.

E acabei rindo junto. Não tem como me aborrecer com minha melhor amiga.

Fase 2: Sorvete, muito sorvete antes de dormir.

(Continua)

David Felipe