REDENÇÃO – 12. Milonga

REDENÇÃO

12 – MILONGA

            Certa vez ouvi dizerem que a noite é dos poetas, do spleen dos românticos, daqueles que encontram na noite o berço perfeito para deitar suas lamentações. E é à noite que me reservo para deitar essas milongas que insistem em sair desse coração descompassado, tentando fazer música sem violão e poesia sem métrica.

            Já faz meses que a Europa te levou embora e sem notícias para que eu adormeça mais tranqüilo. Ajudaria muito saber que está tudo bem dito por ti, assim simplesmente. Dizer que voltei à completa rotina não posso ainda, pois as noites são sempre tuas. É o momento em que queria que aqui estivesses para dar lugar a mais uma de minhas declarações exageradas com a desculpa de que apenas tiro das noites o que qualquer outro poeta faria em fase de boas inspirações. E que melhor inspiração poderia encontrar?

            Paro alguns momentos a questionar por que partiste agora que está tudo bem. Meu humor está em equilíbrio e eu não deixaria meu “recall” de lado se vejo que é desse jeito que posso pensar num jeito de ainda te ver feliz ao meu lado.

            Um copo d’água, uma bolacha de cereja, escovar os dentes e adormeço.

(…)

            O celular tocando insistentemente e eu sem vontade alguma de levantar da cama, num sábado sem nenhuma programação além do término da leitura do livro que comecei há tempos e uma espiada num ou noutro filme na TV. Filmes sem companhia têm me feito adormecer antes do primeiro quarto de hora.

            O celular insistindo, insistindo:

            – Mudou meu toque especial ou não quis mesmo me atender?

            – Europa?

            – Aeroporto.

            A mesma cena de dois anos atrás, o sorriso percebido na voz. O melhor sorriso de todos os tempos.

            – Tudo bem?

            -… Tudo. Quer dizer, tudo bem. Cinco minutos.

            – Calma.

            – Não mais que isso.

(…)

            Aeroporto.

            Todas as cenas de filmes vistos juntos rodando em minha mente, deixando-me ansioso a cada passo, a cada quase tropeço entre meus próprios pés. Sinto minhas mãos frias e sei que meu rosto a essa hora já perdeu a cor.

            Um esbarrão desajeitado, como nas cenas de quaisquer romances.

            – Calma. Respira.

            O indicador coçando meu nariz de leve, o sorriso, meus dedos delicadamente emoldurando teu rosto, como quem toca a mais rara obra de arte. Respiro mais uma vez, sinto seu hálito quente e dou-te o beijo mais esperado dos últimos meses.

            O recado frio escrito com maquiagem, o adeus, os dias sem sol, a água fria, o caldo de lamento: são versos deixados pelo chão. Nossas histórias se unem nos versos de uma nova canção e vejo que tuas demonstrações de amor também mudaram. Seguro tuas mãos entre as minhas e vejo nossas iniciais tatuadas próximas a seu pulso direito, assim como as que estão próximas a meu tornozelo esquerdo: B e R.

            Bernardo e Rafaela, sem necessidade de um refrão.

            “Por que você insiste em dizer que ainda existe vida sem você?”

 

FIM

 

Agradecimentos:

Todos os títulos dos capítulos e versos das aspas finais de cada texto creditados a Lucas Silveira e Rodrigo Tavares (Fresno), compositores das músicas que inspiraram essa história.

Agradeço especialmente a todos os que aqui acompanharam esse processo e que puderam compartilhar comigo de mais essa história.

Você se redimiria?

#REDENÇÃO# por David Felipe.

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REDENÇÃO – 11. Polo

REDENÇÃO

11 – POLO

            O mundo pode ter poder para muito, diante das forças ocultas que tantos citam por aí. Só não pode haver força maior do que um querer de verdade, de se entregar sem medo ao processo. É isso o que venho tentando fazer desde o dia em que a Europa interrompeu meu momento de felicidade.

            Após alguns dias sem a luz do sol, consegui tomar um banho quente, servir-me de cereja e chocolate num mesmo café da manhã e ainda assim, não ter os olhos pesados. Se eu te dissesse que foi fácil, estaria com uma fácil mentira no ar. Não seria o mais honesto, nem se pareceria comigo. Tenho certeza de que voltaria a embriaguez onírica de pouco tempo atrás.

            Posso dizer que o processo de redenção continua e que aos poucos consigo olhar no espelho e encontrar um meio sorriso em meus lábios. Voltei ao contato com o mundo lá fora e sei que ele é tão real quanto os meus devaneios adentrando a madrugada ou lembranças de seu último adeus, no momento em que ainda estava entre o sonho e a realidade. Acordar todos os dias e recuperar as aulas perdidas na faculdade, atualizar meus e-mails e voltar ao trabalho de revisão de alguns textos e elaboração de resenhas de filmes para atualização do conteúdo online para periódicos da rede são o compêndio de coisas que tem me mantido estável.

(…)

            Ainda penso, às vezes, se isso é o mais indicado, se é a atitude certa redimir-me, encarar a vida com outros olhos. Não, não é nada causado pelas alterações de humor. Isso já está medicamente controlado. É o pensamento que de tão livre, chega a me confundir. Não tenho certeza se o que sei é amar, pois se assim o fosse a situação teria nos levado a outros rumos, não sei. Se eu tivesse mais coragem em falar que em escrever e novamente me declarar? Assim, provavelmente eu o saberia, isso que chamamos amar.

            Ah, sonhos que vão longe. E tu não estás.

            Redenção, enfim?

            “Eu devo desistir para um dia ser feliz?

            Ou devo resistir? Ou devo insistir?

            Não, não. Eu não vou desistir assim!”

(Continua)

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David Felipe.

REDENÇÃO – 10. Você perdeu de novo

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10 – VOCÊ PERDEU DE NOVO

            Seus lábios ainda tocando os meus longamente, enquanto eu ainda ressonava e segurava seu queixo entre o polegar e o indicador, enquanto soltavas minha outra mão vagarosamente:

            -Fique bem.

            Beijei-te de novo e adormeci.

(…)

            Temporada na Europa. Não pude recuar de meu sonho outra vez. Não sintas, porque não me perdeu. Fique bem.

            Fique bem? Não foi assim que me senti ao olhar o seu lado da cama e não te ver. Não foi assim que depois de uma noite de felicidade, eu pude simplesmente pisar o chão frio e não lembrar-me do calor de nosso momento. Poderia eu aceitar com tranqüilidade um recado frio colado na porta do refrigerador, escrito a lápis de maquiagem, preso pelo ímã de propaganda da pizzaria dos fins de semana em que deixávamos a pipoca de lado? Não.

            Eu não quero acreditar que esses últimos anos foram ditados por regras com as quais eu nunca soube lidar. Isso não estava nos meus planos, que um dia já pensei nossos. E talvez aí meu viés egoísta de caráter. Se querias partir, que fosse por uma temporada, que eu soubesse te dividir com o mundo, com o mundo das artes tão somente. Mas não. Faltou-me equilíbrio, e quase sobra amor se não é a melancolia a completar essa trilha ainda inacabada. E penso ser bom sinal ainda não haver ponto final. Será um passo de minha redenção?

            Eu de novo trajando jeans, com os pés descalços e com nossas iniciais tatuadas pouco a mostra próximas ao tornozelo esquerdo, na melancolia desse quarto que provavelmente não verá luz pelos próximos dias. Tentar me reerguer está custando caro depois de uma noite de esvaziamento de embriaguez onírica e o mergulho em ti, tão real, de carne e osso, nos tornando um só. E não tenho mais medo de ser piegas, pois é isso que ainda me mantém. E não buscarei mais culpados. Tentarei de fato, compreender em sentido amplo.

            Eu me vejo pensando que se esse jogo ainda tem um perdedor, contemplo a ti com tal posição. Não me tomes por maldoso, és o melhor posto diante de alguém nesse estado que me consome. É sinal claro de que, definitivamente, não acato a essas regras de sofrimento, mentiras brancas e abandonos. Você perder é dizer que eu ainda vou encontrar-te como outro alguém capaz de ainda querer jogar esse jogo.

            “Tentando ser alguém pra você se orgulhar.

              Você não sabe o que é viver no meu lugar!”

 

(Continua)

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David Felipe.

REDENÇÃO – 9. Europa

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9 – EUROPA

            A água fria do chuveiro caindo sobre a minha cabeça, meus ombros, escorrendo pelo cabelo, encharcando minha calça jeans e gelando meus pés descalços, sem eu ligar a mínima. A única coisa que fiz de impulso após levantar da cama, depois de mais dois dias sem remédio e alguns outros sem você. Essa sensação de vazio, esse não querer sair e ao mesmo tempo correr de mim mesmo. Não consegui sustentar o corpo em pé e sentei debaixo da água do chuveiro, aberto rapidamente para sentir que ainda há vida por aqui a cada tremor de meus lábios e pelo pranto derramado em silêncio. Como viver sozinho, sem saber o momento em que me permitiu te perder? Eu não sei.

              Algum barulho parece vir da sala de estar, talvez algum objeto da mesa derrubado pelo vento vindo da janela que esqueci aberta na noite anterior.

(…)

            – Por que fazer isso com você? – uma voz parando o meu próprio tempo particular, parando o meu mundo, mas sem segurar meus tremores.

            Levanto os olhos e ali estás, a imagem mais linda eternizada em minha lembrança e materializada a minha frente. Tu soltas o que tens nas mãos e indagas:

            – Por que faz isso comigo? Levante, por favor.

            – Não posso, eu não consigo mais sem você.

            – Deixe disso.

            A água fria cessando, calda de lamento brotando de meus olhos e você me sustentando num abraço, já em pé, num fôlego único.

            – Fique comigo. Só ho-je, por fa-vor – digo entre os tremores de uma palavra e outra.

            É como se o seu beijo me dissesse SIM nesse instante, e seu corpo levasse qualquer tempo ruim para bem longe daqui. Envolvo-te nos braços e não dizemos mais nada. Estão de volta os meus afagos, os seus carinhos, nós dois e nosso tempo particular. É só contigo que me faltam as palavras, ainda que elas não sejam necessárias. Eu desenho cada contorno de seu rosto com as mãos mais cuidadosas que posso para não te ferir e num mesmo instante esses dedos gélidos se fazem suaves. Saudades desses momentos que não me lembrava, de te beijar sem hora para acabar. Sentir-te em mim é a sensação mais bonita que tenho e não posso descrever.

(…)

            Uma pausa em minhas saudades e me bronqueais com cuidado. A despensa já está reabastecida, é o que me avisas e que eu não deixe mais de alimentar por preguiça e que respeite meu recall diário, o modo ameno de me dizer: “Tome o seu remédio”.

            Não era a primeira vez que ela me barbeava com cuidado, enxugando o meu rosto e rindo das minhas caretas sem fundamento. Era como levar para longe o peso que não gostaste de ver em meu semblante. Estás ao meu lado e torço para que chova para que te descreva os desenhos nas sombras do teto do quarto. Fosse em qualquer lugar do mundo, serias meu desenho perfeito de felicidade.

            – Eu te amo. – seguro tua mão e adormeço.

            “Eu vou aonde você for, e a sua mão não vou soltar.”

 

           (Continua)

REDENÇÃO – 8. Goodbye

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8 – GOODBYE

            Uma caixa de papelão grande com meus livros. Foi isso que vi logo que abri a porta do apartamento. O porteiro acabara de me avisar pelo interfone que havia uma encomenda para mim. Foi o tempo de levantar da cama e abrir a porta. Só a caixa por lá, sem nenhuma etiqueta com destinatário, o que me fez ter a certeza de que não fora uma postagem de correio Ela havia estado lá, e por que não me ligar? Não surgiu qualquer explicação ou razão própria em meu pensamento. Só soube que aquilo não deveria ser exatamente um bom sinal.

            Essa história já começou com um “adeus” e deveria terminar com outro. Devolver meus livros marcando o primeiro sinal. Eu me lembro de comentar sempre dos clássicos e ela me chamar de ultrapassado, afirmando que clássicos deveriam ficar de lado depois do vestibular. Eu, num discurso apaixonado, defendia algumas obras como se minhas fossem e acabei a convencendo de reler alguns deles depois de expor minhas razões.

              Coincidência ou destino, o primeiro livro que vi ao abrir a caixa foi Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Final trágico para uma história de amor, e nem por isso deixando de ser original. E eu sem mais nada a perder. Até meus livros voltando para mim, reafirmando seu adeus. Eu nunca os pedi de volta. Eles contigo, era eu mesmo mais perto de ti. Dedicatórias não são feitas para se devolver. Meus livros já eram teus.

            E eu ainda aqui, fugindo não sei de quê, com total segurança a cada minuto que ninguém vai seguir esses passos tortos rumo a um vazio que só atrapalha esse processo que tive a ousadia de propor a mim mesmo. Pensei que o processo não fosse tão difícil. Jogar o jogo e não passar de fase está perdendo a graça. Pena é saber que não estarás lá caso eu chegue ao final.

            “E vai ser sempre assim, pois já faz parte de mim.

              O meu destino é sempre procurar.

              Goodbye.”

(Continua)

REDENÇÃO – 7. Passado

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7 – PASSADO

            A mão leve me tocando o rosto de um jeito que eu nunca deixarei de reconhecer.

            -Bom dia.

            -Já? Bom dia?

            -Para nós sim, afinal eu não me lembro do final do filme. E já estão passando os créditos. Você viu?

            -É… Não – digo entre risos.

            -Eu falo para não comer pipoca doce. Sempre te dá sono.

            -E por que veio? Pensei que…

            -Você pensa demais, querido.

            Seguro seu dedo antes que toque meu nariz e a calo num longo beijo.

            -Estou gostando de pipoca doce… Só por agora – abrindo um sorriso que só ela sabe dar.

            -Feliz demais por estar aqui.

            -Eu também.

            Um ruído chato, ao longe, insistindo em atrapalhar minha breve…

            -… Fe-li-ci-da-de – digo a mim mesmo. Estico o braço e desligo o celular.

            “Não se esqueça de tomar seu remédio”.  Tenho certeza de que essa seria a frase seguinte que me dirias. Poderia ter acordado com a sensação do beijo, mas não.

            Uma cena recortada do passado, sem previsão de volta. Não que eu queira parar o tempo e ficar como aquele que só diz ter sido boa a época em que viveu sua juventude. Isso me soa tão antigo e não é o que espero para a trilha que eu continuar a seguir, daqui por diante.

            A questão é a dificuldade em ter tido um sonho nas mãos e o ter deixado partir. Dói saber que o laço que me une a ti se esgarce como estopa no caminho. E não saber se é assim só para mim é o que aumenta ainda mais a necessidade de ataduras. Memórias demoram a se perder nos arquivos dessa mente um tanto confusa e não é fácil deixar tudo para trás e tentar te esquecer. Definitivamente, não é fácil querer deixar de sonhar. Eu queria que estivesses aqui e eu pudesse dizer que não vou mais te deixar.

Redenção – processo que a cada dia se complica.

            “Ter, amar.

              Botar tudo a perder

              E não saber por quê.”

 (Continua)

REDENÇÃO – 6. Alguém que te faz sorrir

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6 – ALGUÉM QUE TE FAZ SORRIR

            Já se passaram dias daquele torpe dia que não quero lembrar e insiste em vir à tona. O quarto não está mais tão escuro. Agora eu deixo que os raios de sol venham, ainda que pela fresta da janela, virem para sua visita diária à pele ainda um pouco pálida e a minha fotofobia momentânea.

(…)

            Eu queria acreditar que ficaria feliz por saber que estás bem, ainda que com outro alguém. E no máximo de meu altruísmo, conseguir confortar-me com alguém mais te fazendo sorrir, fazendo dos seus dias mais que declarações piegas de amor. E que isso não soe demasiado pleonástico. Se eu me lembrasse de como executar os poucos acordes que ressoam em minha memória, te faria música. E talvez isso fosse me reabilitar, ou um início desse processo a que me proponho.

            E como confiar que alguém mais vai saber lhe tampar os ouvidos no momento certo que anteceda os trovões nos dias de tempestade e que vai transmitir a confiança necessária para que depois de dois ou três trovões vistos, mas não ouvidos, conseguirás dormir na seqüencia de um leve suspiro? Não estou sendo poético demais, é a realidade que conheci e soube admirar e saber ser fobia leve perto de meu humor em descompasso e de minha quase pieguice nos curtos “até logos” pelas manhãs.

            É certo que pipocas de microondas, sessões de cinema em casa e ter receio de eu não tomar meu controlador de temperamento não seria um presságio de uma vida tranqüila. Seria cobrar demais que agüentasse mais algum tempo e não fosse ser feliz por completo. Confiei demais em meus breves espaços de felicidade, sem dar a atenção necessária… Melhor, sem me esforçar para que meu mundo estivesse mais brando para parecer normal. E era tudo o que me dizias,”Você é normal”, a cada vez que eu insistia em dizer o contrário. “Seu organismo só precisa de um recall como qualquer máquina”. Achava gracioso o seu modo de simplificar as coisas. E eu acreditei em ti antes de cada adeus, antes desse último que soou tão definitivo.

            Eu que não posso mais te impedir de ser feliz. Só não me peças para me esquecer, pois sei que não deixaria que agisses assim. Porque eu queria passar por esse processo, e ser esse alguém que vai te abraçar nos dias de chuva e vai falar baixinho em seu ouvido que não tenhas medo.

            “Segundos antes de dormir de mim você vai lembrar.”

 

 (Continua)