Com gelo e limão – 16. “20 e Poucos Anos”

COM GELO E LIMÃO

16. “20 e Poucos Anos”

 

            E vou vivendo, entre faculdade, home office, academia, minha linda e todas as minhas pequenas irresponsabilidades que faço questão de não deixar de lado. Vinte anos não durarão para sempre, minha vida pede mais, contudo não tenho receio em desacelerar de vez em quando e simplesmente deitar no tapete macio da sala de estar, enxergar um pé direito alto que não deixa mais a casa tão grande, pois o espaço é preenchido além dos móveis, meu carro na garagem ou as frutas entre as prateleiras da geladeira, a esperar por meus preparos vitamínicos de cada dia. A casa é preenchida com a singela pieguice de minha linda, meus beijos roubados e das seqüências de cafés da manha light depois de madrugadas em claro por bons motivos.

            Minhas canções preferidas tiram o vazio quando Marina não está a me chamar de vegan dum jeito carinhoso que já nem me importo se um dia fora ironia de minha relutância em manter hábitos saudáveis.

            Mathias como irmão da vida é o exemplo de atitude como profissional e com o seu jeito tranqüilo de ver a vida com seu temperamento centrado, que ainda assim não deixa de lado as piadas fáceis que me tiram o mau humor das manhãs em que acordo cedo para discutir os novos rumos do portal de investimentos, o qual mantém seu êxito na web.

            Vou vivendo e sem parar de querer ser feliz, a cada dia. E se alguma preocupação me aflige, sempre haverá um copo de refrigerante, gelo e limão.

            – Um brinde!

            – Brindando a que, Victinho? – Mathias me soca o ombro, amistosamente.

            – A que, vegan? Fim de semana inspirado? – Marina me beija o rosto, delicadamente.

            – Aos nossos vinte anos, que sejam leves, difíceis talvez… Intensos e inesquecíveis. E quando precisar, com gelo e limão.

            E de encontro à juventude eterna das canções, música de Fábio Júnior, em versão rock’n’roll é background music: “20 e Poucos Anos”.

“Você já sabe me conhece muito bem,
eu sou capaz de ir vou muito mais além
Do que você imagina
Eu não desisto assim tão fácil meu amor,
das coisas que eu quero fazer
e ainda não fiz
Na vida tudo tem seu preço seu valor
e eu só quero dessa vida é ser feliz”

Fim

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Com gelo e limão – 15. Beijo do vegan

COM GELO E LIMÃO

15. Beijo do vegan

 

            “Eu acho que eu te amo toda vez que me honra com um beijo” – a primeira frase traduzida da música de Jamie Cullum. Mas de pronto, resolvo adaptar, em minha declaração de amor via email, meio atropelada e com saudades. Faz duas semanas que não vejo Marina por conta do congresso de Economia em que eu e Mathias participamos no sul do país para apresentar os resultados de nosso portal de investimentos. Depois de quase um ano, o sucesso do projeto que de início não quis depositar tanta confiança, é inegável, e é muito bom fazer parte de tudo isso. Bem, voltando à frase traduzida do jazz moderno que me despertou o que ficara por um tempo calado, reaviva a minha mente todo o trajeto da vodka à cabine de taxi, beijo apressado no rosto, beijo roubado e os próximos vindos como presente e grande excitação. Continuo o meu email, ou melhor, recomeço:

            Eu tenho certeza que te amo toda vez que me honra com um beijo seu (ajeito a frase). Estar longe só me faz pensar no tempo desperdiçado em que não posso estar ao seu lado, assim sem pensar em nada. Aposto que o tapete macio do chão da sala de estar lá de casa está morrendo de saudades de seus habituais visitantes das noites de pizza e filme na TV ou dos cafés da manhã light recém dispostos na mesa de centro (e me acho o cara mais fanfarrão neste instante).

            As palestras são boas e até me sinto tão empreendedor quanto Mathias quando falamos de nosso portal. E não precisa mais bronquear porque já agradeci ao Mathias algumas vezes mais do que me recomendou antes de virmos para cá. Estar representando a equipe toda realmente enche-nos de orgulho. A verdade é que algumas ligações e SMS’s depois, eu sei que já deve estar um pouco cansada de mim (aproveito para a checagem usual dos que se deixam ainda arrebatar pelos “males” da paixão, que já compreendo ser controles do orgulho próprio).

            Mantendo a coesão e não decepcionando minha estudante de Letras preferida, fecho minha mensagem num terceiro parágrafo conclusivo (acrescento alguns símbolos felizes com os recursos do ponto e vírgula e parênteses). O congresso daqui a dois dias termina e prometo acordar a Cinderela nas primeiras horas da manhã.

Beijo do vegan,

Victor.

[Mensagem Enviada]

 

            – Desse jeito, a guria sufoca.

            – Hei! Leu toda a mensagem?

            – Não. Quer dizer, mais o final, com o “beijo do vegan” – Mathias ri, sem reservas.

            – Valeu, hein? Mas e tu, ligaste para algumas da tua lista?

            – Nova estratégia. Agora, deixo que elas sintam a minha falta e façam contato… Opa!

            Celular tocando.

            – Já está dando resultado… Alô. Oi, linda…

            Recoloco os fones de ouvido e volto a minha pieguice, brindado pelo meu copo de refrigerante, gelo e limão.

Com gelo e limão – 14. Mais

COM GELO E LIMÃO

14. Mais

 

            Primeira vez que saio do condomínio com meu hatch, já habilitado, contudo não totalmente seguro. O que me anima é saber que daqui a pouco verei minha guria pronta para começar a balada sem se preocupar em ligar para o rádio-táxi para garantir a volta para casa. E aquele lance de independência? Então, não é isso que me inspira mais, e sim a breve sensação de poder até o carro morrer na porta da casa de sua amada, assim do nada, e perceber que o ser atrás do volante ainda necessita de muito prática:

            – Tudo bem?

            – Oi, linda. Fora…

            – Já disse que não iria reparar. Nem dirijo ainda, não é mesmo? Não tenho nível de equiparação.

            – E o incrível…? – eu precisava lembrar do infeliz agora?

            – Que incrível?

            A velha e providencial dissimulação feminina.

            – O incrível Mathias com seus conselhos todos. Você me viu tomando aulas com ele lá em casa. – eu, tentando disfarçar sem muito êxito.

            – Verdade. Prefiro quando ele leva alguns açaís de cortesia – ri-se Marina, e me beija a bochecha, pronto que eu lhe roubo um beijo, de verdade.

            – Sem mais delongas, vamos. Viu, pegando na primeira?

            – Nenhum carro novo iria falhar logo na partida. – ela me afaga com carinho e solto um riso leve.

            Marina ao meu lado, carro indo bem, balada, som na graduação perfeita para uma noite de muita curtição, e refrigerante…Com gelo e limão, para confirmar que tudo continua andando bem.

            – Vegan, sabe que eu gosto de você assim mesmo. – diz-me ela ao pé do ouvido.

            – Sério. E eu de você, com uma vodka mais, a menos, de qualquer jeito.

            Ela me belisca como quem retruca um malfeito e em seguida já estamos no ritmo dos casais apaixonados. Não poderia pensar assim se fossem noutros tempos. Adolescer aos vinte no campo do amor só tem me feito bem. Juntando um tanto de responsabilidade pelas horas sérias do trabalho e me deixando levar pelo resto do itinerário entre minhas outras responsabilidades diárias.

            Saldo da primeira saída ao volante. Duas vezes o carro falhou por uma ou outra pisada errada na embreagem, balada sem reservas com Marina ao lado e sem preocupação nenhuma com exibicionismo, ostentação.

            – Conquista mia, te amo. Pode soar bobo, mas te amo.

            – Para meu amigo, andas muito romântico.

            – Eu sou mais que um amigo já faz algum tempo.

            – Essa conversa não vai te levar a um café da manhã em minha companhia.

            – Não? – questiono, tentando adquirir uma dissimulação que não consigo.

            – Estudar pelo resto do fim de semana. Deveria fazer o mesmo.

            – Vamos falar mais de nós e menos dos outros para fechar bem a noite. Os economistas de renome e os melhores literatos não podem desfrutar desse momentos por agora. Aquecem-se entre as páginas e páginas de nossos livros, mas só.

            – Isso não foi uma tentativa de poesia, certo?

            – Jamais. Faço-me de retórico para conseguir mais que poesia de você.

            E depois de tantas vezes utilizar a palavra “mais” em meu texto falado, me calo para uma nova rotina de afagos, carinhos…

            – Boa noite, Victinho.

            – Eu te amo – e fecho o vidro do carro, em partida.

(…)

            Tapete macio da sala de estar, novamente como pouso de minha madrugada, repassando as minhas fotos com Marina nas pastas de arquivo do celular. Mal acostumado a querer “mais”, sempre.

 

“Mal acostumado
Você me deixou
Mal acostumado
Com o seu amor
Então volta
Traz de volta o meu sorriso…”

 

            Do jazz, passando pelo rock, pop e sublinhando trechos de Ara Ketu. Ecletismo musical brindando meus momentos.

(Continua)

Com gelo e limão – 13. Chasing cars?

COM GELO E LIMÃO

13. Chasing cars?

 

            Nunca pensei que salada de frutas seria a melhor pedida do café da manhã, claro, acompanhado de minha conquista, é assim que Marina odeia me ouvir dizer, e eu provoco, só para poder ter motivo para fazer as pazes. E eu confesso que parecer mais adolescente que quase adulto, é a armadilha certa do amor. Vitaminas para as tardes depois de atualizar meus tópicos no portal de investimentos. Pelas manhãs com Marina, salada de frutas:

            – Não canso de sua especialidade light – provoco, em tom de deboche.

            – Vida saudável, vegan. Só estou colaborando, Victinho – retruca Marina, e me toma a tigela da mão.

            – Não. Preciso de um café da manhã para me recompor, ainda que…

            – Ainda que…

            – Ainda que… light. Sem problemas.

(…)

            Assim, entre as aulas da faculdade, o trabalho com o portal e “uma conquista” perfeita, eu vou vivendo sem pestanejar, sem deixar uma série por fazer na academia ou uma aula prática de volante em aberto.

            – Talvez não seja tão seguro.

            – Você não vai me ajudar, Mathias? E depois, é só aqui dentro do condomínio, sem alta velocidade e sem regra de trânsito a cumprir.

            – De boa vizinhança, pelo menos. Não acha que deva respeitar?

            Apesar do tom professoral, Mathias convenceu-se a liberar sua pick-up para minhas informais aulas extras de volante. E após algumas voltas pelo condomínio, o semblante de desaprovação de meu melhor amigo e uma puxada rápida de freio de mão.

            – Sabe aquela sua idéia de aulas extras comigo duas vezes por semana?

            – Então, aprovado?

            – Penso que não. Definitivamente, não.

            – Por quê?

            – Eu paro o carro pra você não atropelar o cachorro da dona Lídia, no freio de mão… E você ainda pergunta por quê.

             Pausa quase dramática de Mathias.

            – Como eu sou bacana e tu sabes que eu sou, de repente eu até te ajudo. Mas, não no meu carro.

            – E como eu fico?

            Buzinas invadindo o meu ouvido, de supetão.

            – Surpresa!

            E um belo hatch aparecendo em minha frente.

            A tarde de sábado acabando com “o presente” de meus pais. Minha pouca habilidade supervisionada por Mathias como condicionante para minhas aventuras ao volante. Coisa de pais de filho único, o presente vindo antes da habilitação, definitivamente bem-vindo e bem recebido. Contudo, com a supervisão do amigo “mais responsável”. Minha especialidade, ligando para o disque-pizza para o jantar com meus pais e minha guria. Dispensados a boa recepção repleta de alguns exageros de meus pais que já conheciam Marina da época do colégio e de cinco em cinco minutos me fazendo ruborizar com um ou outro comentário, tal qual: “Já não era sem tempo de se entenderem, crianças”, saldo positivo para fechar o dia.

            Alguns dias a mais de táxi, até sair pelas ruas de Sampa com o símbolo da independência de qualquer jovem-adulto, como diriam meus pais. Próximo passo rumo à maturidade? Muitos outros passos – penso eu.

            Por enquanto, vou tomando da fonte de romantismo e inspiração que tomam meus dias nos últimos tempos. Deitado no tapete da sala, Marina ao meu lado e Snow Patrol como trilha sonora, para completar o ambiente de conforto:

 

“Let’s waste time

Chasing cars

Around our heads.

I need your grace

To remind me

To find my own.

If I lay here

If I just lay here,

Would you lay with me and just forget the world?”

(Continua)

Com gelo e limão – 12. Enquanto o dia não chega

COM GELO E LIMÃO

12. Enquanto o dia não chega

 

            O “ainda que…” vem me fazendo pensar de suas semanas para cá. Por mais que eu achasse um tanto difícil, já dura mais de duas semanas o que eu chamaria de meu caminhar nas nuvens se estivesse fazendo poesia. Contudo, não sou detentor dos melhores arranjos de rimas e encontros perfeitos de palavras. Marina é a afeita às letras da vez, a mim cabe-me a economia.

            – Tem certeza de que não quer ficar? – insisto logo depois do jantar.

            – Na verdade, não. Mas… Não, preciso ir. Alguns textos ainda a analisar para a aula de amanhã.

            – Nada que eu possa fazer. Quem sabe se eu arrumar uma lâmpada e de certo,um gênio mágico que me conceda três pedidos. Aí, então, primeiro iria te querer aqui todos os dias, substituiria o chá das cinco pela hora do suco de morango e …

            – Não tem jeito, vegan. Hoje não vai acontecer mais que meu último beijo de boa noite sabor pepperoni.

            – Não insisto porque sei que minha guria é muito estudiosa e que “ ainda que” não seja hoje, agora – e a olho firme nos olhos – nós temos todo tempo pela frente – e encerro meu discurso com um beijo longo.

            – O táxi chegou.

            – Boa noite.

            Um beijo final, um beijo soprado por detrás do retrovisor e eu fecho minha noite entre o pé direito alto da entrada e a mesa de telefone. O tapete da sala pareceu-me mais confortável que subir as escadas até o quarto. Um bocejo profundo e adormeço.

(…)

            – Bom dia!

            A inconfundível voz da intimidade de anos de amizade, morando na casa logo ali, no mesmo condomínio residencial.

            – E esqueceu a porta destrancada de novo? Nova modalidade para crescimento da massa muscular? Dormir no chão da sala está virando sua especialidade.

            – Bom dia – respondo eu, quase soletrando cada palavra – Sim, esqueci a porta. Não, não é uma nova modalidade. E se perguntou alguma outra coisa, já me esqueci.

            Mathias sempre solta sua gargalhada e não deixa que meu humor interfira em sua paz natural.

            – Não vai para a faculdade hoje?

            – Não estou grandinho pra você me oferecer uma merenda para o intervalo,não?

            – Engraçado, vegan.

            – Vegan é exclusivo da Marina. Só pra constar.

            – Foi mal, Victinho. Quebrando o gelo antes da pauta do dia.

            – Pauta do dia… Aceita? – estendo-lhe um copo de minha vitamina.

            Três minutos de conversa foram suficientes para bater meu leite e duas ou três frutas no liquidificador.

            – Vamos lá. Meu desjejum, em grande estilo.

            – Pauta do dia, desjejum… Qual a próxima?

            – Será que eu te arranjei um emprego?

            Começando o dia com uma adrenalina diferente no ar.

            – Tudo começou com um trabalho acadêmico e talvez possa virar realidade.

            – Que bonitinho. Acadêmicos sonhando…

            – A idéia é boa e você nem vai precisar mudar tanto a sua rotina. Já pensou num portal de investimentos?

(…)

            Passados alguns dias de reflexão, reuniões com mais dois colaboradores do futuro portal destinado a orientação de investidores jovens, o escopo do projeto ficou pronto. Com o empreendedorismo de Mathias, o suporte de boas idéias de Renan e Júlio, colegas de faculdade de meu melhor amigo, e o meu entusiasmo em começar um projeto de trabalho que corresponde a minha vida acadêmica, as coisas saem do papel.

            Comecei a acreditar que jovens acadêmicos podem sonhar de fato e realizar quando se tem bons patrocinadores. Mathias cuidou disso como o idealizador principal e daqui a poucos dias, o portal está no ar.

            – E hoje, você tem tempo pra mim?

            – Trabalho, Marina. Mas…

            – Pode ser que insistência seja a palavra do dia.

            – Pizza, refri, gelo e limão?

            – Beijos longos, morangos talvez.

            – Enquanto o dia não chega? – questiono com os olhos fixos nos seus.

            Beijos longos… “Ainda que” chegando ao seu fim.

            E eu acreditando no amor, enfim.

            Enquanto o dia não chega, há espaço para o amor, em sua forma mais tangível ou etérea. A noite em festa por nós.

(Continua)

Com gelo e limão – 11. Remember me

COM GELO E LIMÃO

11. Remember me

 

            Acordar cedo para ir à faculdade com um sorriso de orelha a orelha, como diria minha mãe. Assim começa o meu dia, empolgado para mais quatro horas, pelo menos, de economês. Certo que estudando por livre opção, mas lembrar-me do fim de semana entre sobriedade e embriaguez é o que faz o horizonte parecer mais bonito. Eu, com filosofia rasa e uma empolgação dos que têm momentos de grandes emoções, ainda que… Ainda que leve algum tempo para a fase seguinte dos enamorados. Um beijo longo de despedida foi o bastante para pensar no próximo break-point. Não, eu não vejo isso como uma simples disputa, até porque o pior concorrente anda fora de jogo.

            Economês talvez não seja a informação substancial do início de semana ou para o interesse geral. Dando um salto breve no tempo de aulas, passo a hora do almoço. Hoje, um almoço entre a discussão de um seminário sobre a política econômica brasileira do fim dos anos 80. Assunto não muito agradável sobre a inflação e os seus efeitos. Só que minha atenção logo se desvia com a mensagem no celular:

            Remember me

            Eu voltando aos tempos dos telefonemas, praticamente. Não me importo, por agora. Dessa vez, eu mesmo sou o assunto principal. E já que não discursaria sobre mim mesmo ou me colocaria em debate nos fins de tarde, aproveitei o fim de tarde para encontrar minha estudante de letras preferida.

Café do Mathias? Exato!

            – Poderia ter escolhido um lugar diferente – diz Marina, um tanto contrafeita.

            – Não, eu gosto daqui.

            – Sente-se um vencedor, não é mesmo?

            – Não por isso. Depois, o prejuízo já foi resolvido.

            – Não vou me ater a este assunto, até porque…

            – Até porque…

            – Até porque passou e hoje…

            – E hoje…

            Eu mesmo me sentindo um tolo, tentando completar suas frases e a olhando com um sorriso insistente em meus lábios.

            – Posso? – interrompe-me Marina.

            – Foi mal. Quer dizer, desculpe.

            – Continuando, hoje eu estou muito mais confortável. Sem sobressaltos.

            – Então só ganhei do incrível por conta da gentileza?

            – Você não ganhou nada. A vida ensina, vegan.

            – Estava bom demais pra ser verdade. Esse vocabulário não te cai bem.

            – Por que não? Só tentando levar tudo menos a sério.

            – A questão é que você pode qualquer coisa, hoje. Porque…

            – Porque eu sou demais – completa ela, minha frase.

            – Engraçada, você.

            – Trocando de frases, agora?

            – Acho que isso talvez seja um sinal de intimidade.

            E em meio ao momento mágico:

            – Saindo dois sucos de morango com pouco açúcar, por minha conta – Mathias nos serve, com um sorriso no mínimo irônico, com um soco de leve em meu ombro, em sinal de apoio.

            – Isso que é intimidade. Até do pouco açúcar já se sabe?

            – Bom lanche pra vocês.

            Abandonado pelo melhor amigo, numa hora dessas.

            – Bom o suco?

            – Ficou desconcertado?

            – Não, quer dizer, quase.

            – Não disse por mal. Acho que uma coisa ou outra sempre escapa para os amigos ou amigas.

            – Nem me lembro de ter dito algo.

            – Na verdade, isso não me preocupa por agora.

            – Talvez eu já tenha dito isso, hoje. Ou pensei, não me lembro. “Não me preocupa, por agora.”

            – Como eu disse mais cedo: Remember me.

            – Always – e eu caio na brincadeira de adolescente apaixonado.

 

“We’re hand in hand
Chest to chest
And now we’re face to face

I wanna take you away
Lets escape into the music
DJ let it play
I just can’t refuse it
Like the way you do this
Keep on rockin to it
Please don’t stop the
Please don’t stop the
Please don’t stop the music”

 

            Jamie Cullum voltando a ser background music de meus acontecimentos particulares. Que venham mais dias de bem e de beijos longos, sem medo da platéia.

(Continua)

Com gelo e limão – 10. Bom dia, Cinderela

COM GELO E LIMÃO

10. Bom dia, Cinderela

 

           – Bom dia, Cinderela!

            -Bom dia, vegan. Mas ainda prefiro Marina, ok?

            – Sem problemas, princesa Marina – rio leve, irônico.

            – É um gentleman mesmo. De qualquer forma, muito obrigada. Desculpe ter atrapalhado o seu sono.

            – Não foi um problema ficar te olhando.

            O rosto dela ruborizado e eu retomando a palavra para o fim da pausa dramática.

            – Passou a dor de cabeça?

            – Não foi para tanto. Estou bem, sério. Não se preocupe.

            – Não se preocupar? Você me agarrou no meio da balada.

            – Não foi bem assim, vegan. Seu…

             – Não fica bem para uma princesa falar desse jeito, ok?

             – Engraçado você.

              – Só um minuto.

               Minha surpresa para o início da manhã:

               – Um super café da manhã! – apóio a bandeja sobre a beira da cama.

               Certo, totalmente previsível, contudo cabendo bem na minha tentativa de romantismo.

                – Cereais, frutas, suco de morango, pouco açúcar.

                – Se inspirou bem nos comerciais de margarina.

                – Você não curte margarinas, acertei?

                – Acertou – assente Marina – E adoro suco de morango. Memória incrível.

                – Memória de elefante quando se fala em você – mais um galanteio. Galanteio, isso mesmo, antigo e de vez em quando, eficaz.

                 – Bobo – e me beija no rosto.

                 Sessão piquenique no quarto do Victor. Uma dose de imaturidade caindo perfeitamente à atmosfera ambiente. Marina sorrindo e eu olhando, de fato, como um bobo, assim como disse ela. Um domingo de céu e caminhos abertos. Feliz por estar sóbrio e poder cuidar de:

                – Obrigada, de novo. Você foi…

                – Incrível? – questiono retoricamente, sem qualquer modéstia.

                – Incrível, foi incrível e nada abominável – ela me abraça forte já à porta de casa.

                – Certeza de que não quer que eu te leve?

                – Não, já dei trabalho demais.

                – Nada.

                – Eu sei que dei. Depois, você tem que ter tempo para contar para o super Mathias sua noite inesquecível de… Bem, ainda que…

                – Eu nunca mentiria ou inventaria algo sobre você. E ainda que… Foi inesquecível.

                – Estamos evoluindo, Victor. Não que eu te dê esperanças, mas também não as tiro.

                “Não que eu te dê esperanças, mas também não as tiro.” – Poderia ter algo mais leve para concluir o assunto? Esperanças?

                 Baixo os olhos, pensativo…

                 Beijo longo, roubado e… Eu, sem palavras.

                 – Aprendendo com você, vegan. Nós nos falamos.

                  – Hummm, ok.

                   Para o almoço, vitamina de novo. Sem muita criatividade ou disposição para sair de casa para o almoço.

                   Celular interrompendo meu silêncio incomum:

                    – Almoçou, Victor?

                    – Uma vitamina.

                    – Vi quando a Marina partiu. Feliz?

                    – …

                    – Nem precisa responder.

                    – Mas não…

                    – Claro, ela não é…

                    – Ela é a Marina, simplesmente.

                    – Que bonitinho.

                     -Ah, vá Mathias… Curtir comigo, agora?

                    – Só brincando contigo. Muito feliz por você.

                    – Valeu. Agora me deixe com meus bons pensamentos.

                     – Filosofando? Bom sinal, ou não – riso leve.

                     – E o açaí master da cafeteria, trouxe algum pra casa?

                     – Deu sorte, Victinho. Pode vir pra filar a sobremesa.

                     Domingo de sol, vê-la dormindo, ter um beijo roubado… E açaí para recompor as energias. Nada mal.

 (Continua)