A lua

A lua

Eu vi essa lua de hoje e me lembrei de você. Talvez eu lembrasse também se fosse o sol de novo e não só o seu reflexo projetando a lua no céu.

Romântico isso. Talvez, Mas quem não é romântico admirando uma lua cheia. Pelo menos são assim os que tem um poeta na mente e na tradução das palavras tilintando pelo curso dos dedos no teclado.

Noites de lua cheia me enchem de alegria, como a inspiração dos grandes escritores e o brinde aos amantes. É o momento que a pieguice tem vez de novo para quem se diz cosmopolita e come pizza com refrigerante na Augusta e depois sai buscando um canto que tenha um copo de cerveja bem gelada pra coadunar ao frio da noite.

A pizza fica de lado, o refrigerante sai de cena e a cerveja nem chega a ter vez. Lua cheia combina mais com taças de vinho, um aconchego de colo e bochechas quentes de êxtase. Entra o filme romântico, a pele cálida e os beijos longos. Saem as divisões de sorrisos e as melodias tristes.

A lua brilha lá fora com o brilho que finge ser seu, A lua brilha lá fora porque está cheia de inspirações para compartilhar e dizer que São Paulo continua sendo meu lugar no mundo, às vezes patético, às vezes trépido, às vezes intenso e cheio de luz como a tal da lua enfeitando o céu. Talvez eu me lembrasse de você se fosse o sol de novo, mas reverencio agora a majestosa.

David Felipe

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Pedro Paulo – Capítulo 2

Pedro Paulo – Capítulo 2 – Prazer

Acabamos numa pizzaria bem à moda paulistana. Sem risco de correr riscos se é que se pode ser mais redundante. eu não saberia dizer exatamente os sabores que pedimos. Mas certamente a minha metade não teve queijo e a dele sim. Esses pequenos gostos que acabamos descobrindo no primeiro encontro, entre algumas frases perdidas e o desconforto inicial por passar mais tempo juntos.

De certo, acabei experimentando o lado com queijo. Não é que eu tenha implicância com queijo. Apenas acredito que ele não deva ser envolvido em tudo.

– Bobagem sua. Tudo vai bem com queijo. Macarrão com queijo, bife com queijo cremoso. Um hambúrguer não é um hambúrguer sem queijo – dizia Paulo em tom explicativo, atrás dos óculos e a postura sisuda.

Eu lembro apenas de ter rido e começado a falar de outra coisas, provavelmente de sobremesa. Embora aquele dia tenhamos parado na pizza.

– Não, eu não aguento comer mais nada. Deveras satisfeito.

E eu uso “deveras” como quem usa um “tipo” ou uma pausa curta, sem cerimônias. Talvez eu insista num vocabulário particular às vezes desnecessário. Agrego de uma forma que no cotidiano soa natural.

Nós nos olhamos o tempo todo. Não vejo contato pessoal antes de olhos nos olhos. É sincero e necessário em qualquer relação humana. Provável que tenhamos baixado um pouco os olhos entre um assunto e outro não tão agradável que tenha envolvido terceiros. Falávamos, contudo, como se fosse a história de outro alguém, sem drama ou culpa.

– E finalmente marcamos o jantar – concluí eu.

– Poderíamos ter marcado antes. Que bom que hoje foi possível.

– Também acho. Aliás, estou certo disso.

Ele riu e entortou a boca como eu observaria mais vezes à frente em outras situações. Achei gracioso, tanto que reparei e reparei de novo nas vezes seguintes.

Paramos  à porta do restaurante para que ele fumasse um cigarro, antes de partir. Um vento noturno gelava a pele de forma agradável e entrecortava os monólogos finais.

Sorrimos tanto um para o outro e sem cansar as bochechas. Não vi o meu, mas creio ter sido tão bonito quanto o que vislumbrava. Afinal, sorriamos um para o outro. Isso só poderia ser positivo.

Neste dia nos despedimos com um aperto de mão firme, entre olhos fixos e sorrisos abertos.

– Boa noite.

– Boa noite.

(Continua)

Pedro Paulo – Capítulo 1

Pedro Paulo – Capítulo 1 – O encontro Conheci Paulo no parque, numa pedalada matinal num sábado frio de junho em São Paulo. Olhamos um para o outro e ficamos com o meio sorriso quase aberto, mas ambos desviaram o olhar e seguiram, eu num sentido e ele em outro. No sábado seguinte, fui ao prque novamente, no mesmo horário e lá estava ele também com sua bike, em mais um dia frio de exercício matinal. Veio um sábado, outro e começamos as primeiras conversas, ainda que ficassem interminadas, entre um olá, o comentário sobre o tempo e a coincidência de horários no parque. Comentei sobre a banda em que cantava à noite, somente aos fins de semana e meses depois, ele apareceu, escondido atrás de seus óculos, o sorriso mais largo mas reticente e meus olhos brilharam e tenho certeza de ter ruborecido um tanto. Do palco, acenei para que me esperasse. Eu disse algo como “Hey” e ele respondeu que aguardaria na saída do bar. Foi o dia que mais rápido me despedi da banda e segui ao seu encontro. Nós nos demos as mãos e depois de ouvir um “Tudo bem, Pedro?”, praticamos monólogos paralelos, buscando o encontro, nas conversas que se iniciaram do bar ao restaurante.

(Continua)

David Felipe

Cartas para Daniel – Último

IV. Último

Caro Daniel,

Boa tarde, bom dia e boa noite.
Esta é a última carta que escreve para si mesmo e não há uma trilha sonora de fundo para o riscar da caneta no papel. Paremos de ser poéticos.
Hoje você parou para pensar um pouco e é possível que já tenha o bastante escrito em seus romances e seja tempo de um hiato sem data de volta. As palavras quando ficam soltas demais são sinais de que querem um pouco se desgarrar. Deixe-as descansar dentro de você ou ao longe.
Espero que plante uma árvore, escale uma montanha e dê muitos beijos sem café ou após escovar os dentes. Daniel, você é hermético. Liberte-se.
Nada pairará ao seu bel prazer e não terá sua razão reconhecida em tudo.
Ande pelo mundo e se aproprie dele. Você é parte dele. Não chore. E não tenha medo. As ondas do mar são bonitas demais para serem vistas de tão perto. Às vezes, a beleza dói.
Afaste-se, tome impulso e suspenda seus pés do chão. Torne a pisar a terra de novo e esprema seus dedos no solo. Terra, voltar a terra, voltar ao chão, no melhor sentido.
As energias vão e voltam para o centro. Suspenda-se, volte ao chão, respire. Não chore.
Boa tarde, bom dia e boa noite.

Tome um suco de maçã.

Um beijo,
Daniel.

Cartas para Daniel – III. Pressa

III. Pressa

Caro Daniel,

Às vezes Deus chega tão depressa que você não acredita com o que se depara bem em sua frente. Sabe, você deveria parar de ter expectativas. As pessoas seguem sendo o que são, assim como você. Não importa nada além delas mesmas. Não importa.

O bom em Deus chegar depressa é que você para para pensar e lava tudo de uma vez, dos olhos às pontas dos pés.

Foi interessante o modo como você quebrou o espelho hoje. De vez em quando é bom quebrar algumas coisas para ver se remontam ou se apenas acabam. Quebrar o espelho e não ter nenhum corte nas mãos foi praticamente heróico. E pare de rir, eu vi quando colocou as luvas. É sinal de que você está se lembrando de usar sua inteligência a seu favor.

Um brinde aos seus cafés todos dos dias, das noites e das madrugadas! Eles têm reavivado sua memória e te feito muito bem. E um brinde ao gel dental que não lhe deixa de dentes amarelados. Sim, eu ri, sarcasticamente, olhando no outro espelho ainda inteiro.

Pressa só tenha para o próximo sorriso. Você deveria abrir sua caixa de emails, lembra? E… Não temos somente promoções dos spams. Boa! Ler as mensagens pessoais e viver um pouco mais para voltar a escrever alucinadamente.

Sim, tomar um café de novo e escalar uma montanha, ou plantar uma árvore, ou dar muitos beijos.

Até a próxima, Daniel.

Time to live.

Cartas para Daniel – II. Time to sleep

II. Time to sleep

Daniel, meu caro, você deveria estar dormindo e não escrevendo a essa hora, ainda mais para si mesmo. Esse seu hábito tem sido cruel para o descanso dos seus olhos e o revigorar da sua pele. Você já ouviu que uma noite mal dormida envelhece e não foi uma só vez.

Sabe, é estranho quando você para para refletir e quase não sai do lugar. Hoje eu percebi um meio sorriso nos seus lábios enquanto escovava os dentes pela manhã. Foi o momento mais terno do seu dia, você se mimou levando mais de cinco minutos no bochecho com enxaguante bucal. Juro não ter sido patético. E se colocar-se a rir agora, será bem oportuno para desopilar quaisquer coisas não boas que estejam a perfurar as entrelinhas da sua cabeça.

Às vezes é engraçado conviver contigo. Um número de movimentos repetidos para ajeitar os cabelos, os mesmos caminhos nas ruas e os caminhos perdidos dentro do shopping, ainda que compre sempre nas mesmas lojas. Não posso me esquecer do café em quatro goles e da água gaseificada deixada pela metade. Você não gosta da água gaseificada, mas toma. É regra, é etiqueta. Você toma.

As suas mãos deslizando pelo próprio rosto e o beijo de boa noite no espelho. Time to sleep. O apito no celular foi só o aviso de que a bateria está carregada, não se empolgue. Ninguém, ninguém ligou. Você já entregou o editorial da semana e já resenhou o próximo romance. A editora exigiu que se passasse no campo, então você adaptou a história. Dinheiro, mal não faz. Adaptou.

Daniel, é tempo de dormir, lembra. Pare de escrever alucinadamente.

Tome mais um café, repasse a escovação e durma.

Até a próxima, Daniel.

Time to sleep.

Cartas para Daniel

I. Caro Daniel,

Caro Daniel,

Passou mais um ano e você ainda não aprendeu a amar. Já passa de duas décadas que é assim e você ainda não aprendeu. Você decora músicas, faz letras – suas próprias versões – para alguns sucessos da parada americana e conta os poemas que encheram os cadernos. Mas aprender a amar, não.

Sua obra faz sucesso entre adolescentes tentando ganhar vocabulário. Fato que ser recomendado entre seis de dez escolas da rede privada, já o torna um escritor de sucesso.

Daniel, você comprou presentes da última vez e acolheu nos braços o choro por alguém que não era você. Isso não é amor. Isso é humanidade, pelo conceito geral.

Você respeitou os animais, mesmo não gostando tanto assim deles. E isso foi humanidade de novo. Você é um ser racional e sabe da necessidade do equilíbrio da natureza.

Uma vez mais, você acolheu nos braços, afagou e foi terno. Não amou.

Suas lágrimas foram produto da trilha sonora tocante do filme de ontem à noite. Não teve abraço, beijo, bom dia no dia seguinte. Você foi tocado por uma obra de arte e ela cumpriu seu papel, tocou um espectador. Você se inebriou, não amou.

Enquanto escreve essa carta para si mesmo, não está aprendendo. Não há risco. Há uma pretensa auto-piedade. Isso é crueldade, não é amor. Alguns provavelmente o chamem de patético, ridículo. Mas como o amor é ridículo, e você ainda não sabe o que é o amor, deverá ser apenas tolo.

Até a próxima, Daniel.

Tome seu café.