Pedro Paulo – Capítulo 2

Pedro Paulo – Capítulo 2 – Prazer

Acabamos numa pizzaria bem à moda paulistana. Sem risco de correr riscos se é que se pode ser mais redundante. eu não saberia dizer exatamente os sabores que pedimos. Mas certamente a minha metade não teve queijo e a dele sim. Esses pequenos gostos que acabamos descobrindo no primeiro encontro, entre algumas frases perdidas e o desconforto inicial por passar mais tempo juntos.

De certo, acabei experimentando o lado com queijo. Não é que eu tenha implicância com queijo. Apenas acredito que ele não deva ser envolvido em tudo.

– Bobagem sua. Tudo vai bem com queijo. Macarrão com queijo, bife com queijo cremoso. Um hambúrguer não é um hambúrguer sem queijo – dizia Paulo em tom explicativo, atrás dos óculos e a postura sisuda.

Eu lembro apenas de ter rido e começado a falar de outra coisas, provavelmente de sobremesa. Embora aquele dia tenhamos parado na pizza.

– Não, eu não aguento comer mais nada. Deveras satisfeito.

E eu uso “deveras” como quem usa um “tipo” ou uma pausa curta, sem cerimônias. Talvez eu insista num vocabulário particular às vezes desnecessário. Agrego de uma forma que no cotidiano soa natural.

Nós nos olhamos o tempo todo. Não vejo contato pessoal antes de olhos nos olhos. É sincero e necessário em qualquer relação humana. Provável que tenhamos baixado um pouco os olhos entre um assunto e outro não tão agradável que tenha envolvido terceiros. Falávamos, contudo, como se fosse a história de outro alguém, sem drama ou culpa.

– E finalmente marcamos o jantar – concluí eu.

– Poderíamos ter marcado antes. Que bom que hoje foi possível.

– Também acho. Aliás, estou certo disso.

Ele riu e entortou a boca como eu observaria mais vezes à frente em outras situações. Achei gracioso, tanto que reparei e reparei de novo nas vezes seguintes.

Paramos  à porta do restaurante para que ele fumasse um cigarro, antes de partir. Um vento noturno gelava a pele de forma agradável e entrecortava os monólogos finais.

Sorrimos tanto um para o outro e sem cansar as bochechas. Não vi o meu, mas creio ter sido tão bonito quanto o que vislumbrava. Afinal, sorriamos um para o outro. Isso só poderia ser positivo.

Neste dia nos despedimos com um aperto de mão firme, entre olhos fixos e sorrisos abertos.

– Boa noite.

– Boa noite.

(Continua)

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