Cartas para Daniel – II. Time to sleep

II. Time to sleep

Daniel, meu caro, você deveria estar dormindo e não escrevendo a essa hora, ainda mais para si mesmo. Esse seu hábito tem sido cruel para o descanso dos seus olhos e o revigorar da sua pele. Você já ouviu que uma noite mal dormida envelhece e não foi uma só vez.

Sabe, é estranho quando você para para refletir e quase não sai do lugar. Hoje eu percebi um meio sorriso nos seus lábios enquanto escovava os dentes pela manhã. Foi o momento mais terno do seu dia, você se mimou levando mais de cinco minutos no bochecho com enxaguante bucal. Juro não ter sido patético. E se colocar-se a rir agora, será bem oportuno para desopilar quaisquer coisas não boas que estejam a perfurar as entrelinhas da sua cabeça.

Às vezes é engraçado conviver contigo. Um número de movimentos repetidos para ajeitar os cabelos, os mesmos caminhos nas ruas e os caminhos perdidos dentro do shopping, ainda que compre sempre nas mesmas lojas. Não posso me esquecer do café em quatro goles e da água gaseificada deixada pela metade. Você não gosta da água gaseificada, mas toma. É regra, é etiqueta. Você toma.

As suas mãos deslizando pelo próprio rosto e o beijo de boa noite no espelho. Time to sleep. O apito no celular foi só o aviso de que a bateria está carregada, não se empolgue. Ninguém, ninguém ligou. Você já entregou o editorial da semana e já resenhou o próximo romance. A editora exigiu que se passasse no campo, então você adaptou a história. Dinheiro, mal não faz. Adaptou.

Daniel, é tempo de dormir, lembra. Pare de escrever alucinadamente.

Tome mais um café, repasse a escovação e durma.

Até a próxima, Daniel.

Time to sleep.

Cartas para Daniel

I. Caro Daniel,

Caro Daniel,

Passou mais um ano e você ainda não aprendeu a amar. Já passa de duas décadas que é assim e você ainda não aprendeu. Você decora músicas, faz letras – suas próprias versões – para alguns sucessos da parada americana e conta os poemas que encheram os cadernos. Mas aprender a amar, não.

Sua obra faz sucesso entre adolescentes tentando ganhar vocabulário. Fato que ser recomendado entre seis de dez escolas da rede privada, já o torna um escritor de sucesso.

Daniel, você comprou presentes da última vez e acolheu nos braços o choro por alguém que não era você. Isso não é amor. Isso é humanidade, pelo conceito geral.

Você respeitou os animais, mesmo não gostando tanto assim deles. E isso foi humanidade de novo. Você é um ser racional e sabe da necessidade do equilíbrio da natureza.

Uma vez mais, você acolheu nos braços, afagou e foi terno. Não amou.

Suas lágrimas foram produto da trilha sonora tocante do filme de ontem à noite. Não teve abraço, beijo, bom dia no dia seguinte. Você foi tocado por uma obra de arte e ela cumpriu seu papel, tocou um espectador. Você se inebriou, não amou.

Enquanto escreve essa carta para si mesmo, não está aprendendo. Não há risco. Há uma pretensa auto-piedade. Isso é crueldade, não é amor. Alguns provavelmente o chamem de patético, ridículo. Mas como o amor é ridículo, e você ainda não sabe o que é o amor, deverá ser apenas tolo.

Até a próxima, Daniel.

Tome seu café.