Traduzindo em palavras

Eu sigo querendo traduzir-te em palavras, assim como tantas vezes eu faço comigo mesmo, mas nem sempre consigo. Com você eu nunca consigo, sempre falta verbo, crase, aliteração perfeita ou qualquer figura de linguagem que te compare, te esclareça.

E a vida segue e eu acabo de usar mais uma frase batida que não te bate. É assim, com a vontade de dizer-te vários impropérios e encher-te de xingamentos que só rebatem dentro de mim, como de costume. 

Eu não sei te traduzir, senão já o teria feito, assim como com um livro escolar de aula de inglês. Ser patético é um pouco dessa sina. Rindo, rindo, rindo de mim mesmo, enquanto eu queria um sorriso só meu, desses que estalam com um pouquinho de saliva brilhante no canto dos dentes bem perto do ouvido e às vezes são seguidos de uma mordidinha de leve no canto dos lábios.

Só me falta dizer que queria um número exato de nuvens no céu e flores de determinadas cores como cenário. Não, não chega a tanto. Mas mal não seria (agora rindo por dentro).

E pode ser mentira e pode ser verdade e me preocupar. Pode ser tudo e eu não vou saber. Pode ser nada.

E se for um tudo bonito, eu me regozijo. E se for um tudo de chateação, torço para que passe logo. E se for nada, que se dane! Tenho o mesmo tipo de sangue que corre nas veias de todo e qualquer ser humano.

Eu escancaro portas, quebro janelas, me corto, te sangro e isso é só um tipo de tradução. Não se espante. Eu canto em lugar de gritar. Eu apoio a cabeça na parede e sei que é frio como não te sentir.

Eu sou estúpido novamente tentando te traduzir. Eu canso de saudades, eu invento cavalos brancos que sabem o caminho certo e quebro a redoma que construí.

Eu durmo (com um dos olhos abertos). Eu não sou ignorante o bastante para não ligar pontos, mesmo que errados, nem tampouco inteligente para mandar a redoma de volta ao Paraguai de onde não deveria ter saído. 

Eu gozo sem ser fisiológico, te lambo.

Sensatez

Sensatez

Sensatez é coisa que falta quando nos deixamos levar pelas paixões. A verdade é que quando é só uma paixão, passa. Já teria passado. Vou ser honesto, talvez seja amor. Não, para ser mais claro, é amor e não há o que se fazer contra. Curioso só é que agora eu consigo escrever por aqui sem os olhos cheios d’água, o que seria o mais comum.

Deve ser por que hoje eu já chorei. E não é vergonha nenhuma dizer isso. Machuca de verdade saber que você está do outro lado e que nem se incomode com qualquer coisa que eu faça. Provável que se eu te mandasse para qualquer lugar que fosse um palavrão que aqui não precisa ser dito ou juntasse todos eles e dissesse pra você, e você nem moveria uma única linha de expressão no seu rosto.

Eu sei que o vai daqui pra aí, não vem daí pra cá. E já era tempo de eu simplesmente sossegar ou agitar me jogando nos prazeres todos da vida. Não que eu não deva fazer isso. Penso que sim, apesar de não parecer tão fácil. Impossível amoldar sentimentos, sensações. Eles vêm mesmo que não se queira, é sempre assim. O fato, porém é que ninguém quer se acostumar a sentir dor e conviver com a própria sombra. Duas sombras ficam tão mais bonitas quando projetadas. Sim, eu idiotamente sou romântico. Está bem que para alguns não seja um erro. Enfim, faltam algumas palavras e sobram outras.

Meu ombro está doendo e só pode ser resultado de tencioná-lo por vezes sem nem saber.

Sua beleza é tão grande – foi o que me ocorreu agora. Seus olhos nunca sorriram pra mim, eu acho. Mas já os vi com o brilho mais bonito deste mundo pra outro alguém. E nessa parte é impossível dizer que quanto a isso tudo bem. Eu queria que olhasse igual pra mim. E é penoso parecer ter pena de si mesmo. Isso nunca ajuda.

Estou numa tentativa blasé para parecer blasé ou continuar blasé. Raiva me dá sim quando te imagino tendo prazeres que não quis que eu te desse. Parece-me que você não sentiria prazer em mim. Como eu disse antes, seu olhar nunca brilhou tão bonito pra mim. E não há o que fazer.

Meus olhos estão pesando, porém por cansaço. Ficaria eu horas divagando por você, o que não devo.

É preciso desabafar para não se conter por inteiro e virar um comprimido inanimado. Há de haver sempre música e voz para tentar cantar. Há de haver sempre você com ou sem música e tentarei passar como quem passa por uma vitrine e nem se lembra do nome da marca depois.

Eu cantaria agora pra você dormir. Todavia me atina que você não durma tão cedo por hoje e não quero pensar no por quê. Embora nesse instante, levemente eu tenha pensado e uma lágrima quase brotasse de meu olho esquerdo.

Quem disse que eu não te amo mais?

 David Felipe