TRÊS

TRÊS

I

MARCELO tem mais de sessenta mil seguidores no Twitter, estuda teatro, aguarda ansiosamente pelos seus vinte anos e às sessenta mil fotos postadas no seu principal perfil da rede. A jogada maior será descobrir mais quinhentas poses novas para não se repetir e parecer cada vez mais antenado a tendências que se orgulha de propagar nos fins de semana datados nas festas mais badaladas que finalmente seus contatos podem lhe garantir presença. Antes que perca a descrição: seus olhos são castanhos claros, os cabelos chegam à altura dos ombros quase e são semiparafinados. Mas ele não se arrisca no long board. Prefere ver os surfistas da margem e postar alguma análise no blog. Isso, ele tem também um blog sobre esportes. Dezenove anos, seis meses, onze dias e faltam agora apenas quatrocentos e noventa e nove poses. Acabou de ter uma ideia para a nova postagem. Cinquenta e cinco mil quinhentos e uma fotos. E contando.

AMANDA acaba de ver a última postagem do Marcelo e deu um “curtir”. Adorou a ideia das balas de goma deixando somente seus olhos e a boca aparentes. Diferente dele, Amanda acaba de completar os dezenove anos, só fez o perfil no Twitter para segui-lo e não tem mais que sessenta seguidores, sendo cinquenta e nove deles fãs do Marcelo que compartilham de sua paixão pelo garoto. Ela estuda Letras pela manhã, comprou um pen drive exclusivo para o backup das fotos do Marcelo e costuma ter as maçãs do rosto vermelhas quando fala dele com as amigas. Ela não conseguiu ir ao último encontro de fãs e por isso acabou roendo as unhas, coisa que não fazia há dois meses, quando soube que o ídolo gostava de unhas compridas e coloridas em suas paqueras. A unha artificial lhe deu alergia e ela resolveu tirá-las. Mais uma semana e elas voltam ao tamanho normal. Aguardando.

JOÃO. O João tem o nome mais comum do planeta luso-brasileiro e na escola era chamado de Fuzil. Não, ele não tem um temperamento violento. Fuzil foi a maneira carinhosa que arrumaram para lhe chamar após o incidente com as pistolas de água durante a festa junina do primeiro ano, quando foi atacado por um grupo de cinco alunos da terceira série do fundamental que não gostaram que ele demorasse a entregar os prêmios na pescaria. Naquele ano os alunos que ajudassem seriam dispensados de algumas aulas e foi o que ele fez para ter mais tempo a estudar para as provas pré-vestibulares. Ele garantiu uma bolsa num cursinho e acabou entrando para faculdade pública. Orgulho? Talvez dos pais. No círculo novo de amigos todos afirmavam ser fácil o êxito, afinal, todos já estavam dentro. Ah, o João tem rede social também, só que ainda não conhece o Marcelo nem a Amanda. Ele está contando os meses para a primeira viagem de avião. O curso que ele faz? História. Pelo ranking, realmente não é dos mais concorridos em faculdades públicas. Por que ele insistiria em ter tanto orgulho assim? Ele pensava desse modo, mas animava-se pelo fato de o dinheiro ter-lhe garantido uma primeira viagem interessante, de avião. Dezenove anos, seis meses, onze dias e faltando algumas dezenas deles para o grande dia. E contando.

Em algum momento, a história dos três se cruza, claro. Nos próximos capítulos de TRÊS.

David Felipe

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