Covarde

Covarde

Eu sou um covarde

porque prefiro explodir

a gritar para o mundo inteiro

que não importa mais nada

porque eu te amo e pronto

Eu sou um covarde

quando tomo remédio pra dormir

em lugar de sair correndo pra você

sem me importar se me recebe ou não

Eu sou um covarde

por não lutar por isso que isso que sinto

assim como por qualquer outra coisa

que quis nessa vida

e você é mais, bem mais que qualquer coisa

Falta você aqui, agora

E eu tenho medo que não passe

Eu já implorei pra Deus

por que não consigo mais

e duvidei, por ele não escutar

Eu tive raiva, eu tenho raiva

de quem possa te tocar

Até quando?

Até quando?

Ah, eu queria secar de vez

ou ter seu cheiro de novo,

só que por períodos maiores

quem sabe pra sempre

um pra sempre de uma noite inteira

para eu ter um tanto mais que recordar.

(David Felipe)

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FÔLEGO – 15. Ave de prata

Ave de prata

“É muito mais do que muito

Muito mais do que tantos anos piorei

É muito mais do que mato

Muito mais do que morrem

todos pela planta do pé

É muito mais do que terra

Mais do que bicho se quiser procriar

Uma espécie, sementes de água

mistérios da luz”

(Zé Ramalho)

Não, não houve sexo àquela noite. Ele deitou-se sozinho sobre a cama de solteiro, num respirar leve e seguro. A memória parecia trazer-lhe à tona o cheiro daquela pele, como se estivesse de vez misturada a sua, como se fosse real, como se aquele cheiro beirasse de verdade sob as suas narinas. E já não pertenciam mais um ao outro, e já não podia dizer que era uma sensação revista da noite anterior. Adormeceu ele, nu, sobre os lençóis, com os olhos secos, longe dali, longe de tudo que palpasse ao mundo real, mas a pele, aquela pele parecia tocar-lhe até o momento em que fechou os olhos.

Os pés massageados com calma e cautela, tendo desenhado cada carpo, sua própria pele sublinhada entre cada ligamento de suas artérias. Despertou.

Ela não deixou que ele dissesse nada, e bastou que olhasse, sem dizer. Não, não se beijaram nos lábios como de costume. Ela não lhe prestava subserviência como poderiam pensar numa leitura fria, tampouco ele quando puxou a perna com calma para que parasse de tocá-lo. Ele juntou os joelhos e sentou-se sobre os ísquios em cima da cama e ela seguiu seus passos e fez o mesmo, em espelho a seu corpo.

Por quase uma hora inteira não se olharam, não disseram uma palavra. Ficaram assim, com as costas apoiadas, respirando, sentindo o outro sem ver. Mentira seria se não contasse que algum pranto passou por ali entre ambos e que por vezes intentaram levantar-se, porém comedidos por si mesmos, não o fizeram. Até que a resistência não permitiu e viraram-se num mesmo impulso de frente ao outro e olharam-se, ainda sem dizer.

Os lábios se aproximaram de novo sem um beijo. Os cheiros de pele confundiram-se. Mãos receosas desenharam o rosto do outro mutuamente. Deitaram-se num longo abraço, aninhados um ao outro, sem querer ter fim.

Adormeceram. Despertaram. Tomaram fôlego.

Guardou-se o cheiro, a pele, o quase-beijo e a vida seguiu.

David Felipe