FÔLEGO – 14. Dia Perfeito

Dia Perfeito

“E me disse esquisitices

E que também vai se guardar

Para quando o carnaval chegar”

(Marcelo Gross)

Dia perfeito, não soube ainda para quem? Sim, para outrem. A hora que se cruzaram na esquina, não foi como de costume. Os rostos tocaram-se de leve como se não pudessem mais, como se fora proibido. E por que, por quem?

Sem meias verdades, abriu-se um sorriso lindo como todos os outros que ela já soubera dar, e ele quase conseguiu sorrir de volta, mas baixou os olhos, resistiu.

Ela dançava com graciosidade debaixo das saias brancas que seguiam leves até o meio dos joelhos e brincava com as mãos enquanto a música lhe invadia os sentidos todos. Bonita como sempre estivera, menos talvez por não estar entre seus braços, foi o que ele pensou ao mesmo tempo em que deu uns três passos a mais para trás, acenou para alguns amigos que estavam próximos a mesa do bar e seguiu até o carro em poucos minutos.

Ele remontava algumas lembranças na mente e ela sambava de olhos fechados tentando esquecer. O momento que qualquer um chamaria de sublime senão doloroso. O rímel nos olhos borrou com a única lágrima que escorreu e desmanchou-se antes de cair por seu semblante.

O volante do carro recebeu algumas pancadas e as marchas arranharam até que ele chegasse em casa, retirasse cada peça de roupa e fosse para debaixo do chuveiro. Ela definitivamente tem algo que nunca sai de moda na cabeça de quem se deixou cativar. É aquilo tudo que envolve boca, olhos, ouvidos, uma voz sensacional, o melhor tom encaixado para cada frase banal que fica perfeita.

Seus diálogos não faziam mais tanto sentido. As frases que trocavam não levavam a um lugar comum. Ou levavam, todavia negava-se a qualquer preço para que nenhum resquício pudesse sobrar debaixo de suas peles. Era o que ele tentava fazer debaixo do chuveiro, esfregando-se até descamar, lavando o cheiro que não sairia de suas entranhas e que não sabia dizer que combinação de notas continha, porém que era percebido na primeira leve inspiração. E era como se não tivesse mais o ar e não podia guardar isso num pote e provar de madrugada a colheradas.

Flutuando, como uma nuvem.

Sim, o carnaval está perto. Quem marcará a marchinha da moça?

David Felipe

(Continua)

FÔLEGO – 13. Rima rica / Frase feita

Rima rica / Frase feita

“Muito obrigado por tudo

Pelo teu suor, pelos teus gemidos

E espero que a minha estupidez

Cicatrize teus sentimentos feridos”

(Nei Lisboa)

Dois é sempre bom, dormir juntinhos. Corpinho bom é junto de outro. É quando o que se fazia brincadeira é absorvido a melhor maneira do jeito que o entendimento não precisa mais de palavras. Basta respirar de novo, tomar fôlego e seguir.

E retiro forças de onde achei que não existia, redescobrindo os passos mais lentos e as vontades de correr e ter somente o travesseiro como afago. Ah, como é duro não ter mais o rubro de teus lábios sobre os meus e sentir teu hálito tão de perto, como nos dias que nunca tiveram um fim.

Olhos nos olhos, queixo a queixo, respirando, sentindo. Era isso o que ele desejava e seguia em seu diálogo de si para si mesmo.

Retirando energia dos copos de bar, das músicas repetidas à exaustão do som ao lado da cama. Com as mãos para o alto e os dedos inventando nas sombras do teto mais uma vez os contornos todos de seu rosto, os limites de um lábio a outro. A beleza da memória não guarda a emoção do que está perto. E o que verte dos meus olhos de uma hora para outra acaba e deseja ver-te sorrindo.

A tua carne crua não toca a minha nesta noite em que invariavelmente pensei poder te sentir. Eu adivinho o sabor da pele, eu reinvento teu perfume no ar, eu sorrio e sorris de volta dentro de mim. Só que parece pouco, parece nada. E perco as rimas que nunca soube construir, e vejo que as frases reunidas de outros nem sempre traduzem o que quero dizer, nem sempre me afagam, nem sempre machucam.

Sim, você está em todos os lugares porque está em mim. E eu gostaria que você estivesse aqui, agora. Para beijar de verdade, para sentir o real perfume no ar, para afagar-te de novo.

E ele fechou os olhos, tomou fôlego.

(David Felipe)

FÔLEGO – 12. Roupa do corpo

Roupa do corpo

“Quando a noite chegou

Subi no bonde correndo

Cantando e batendo com os dedos

Um samba na palma da mão

Eu não olho pra trás, não

Não, não me arrependo!

Vou com a roupa do corpo

Não sei bem pra onde

Mas não paro, não”

(Filipe Catto)

Sapateando sem sair do lugar. A expressão é repetida talvez, mas ainda cabe. Seria essa a ação esperada por ele se pudesse conceber o grau de desprendimento da moça, toda lépida, fagueira e cheia de confiança caminhando pela noite que protege os estranhos e guarda quem acha que faz algo de errado sem saber. Uma noite mais de balada, de batom retocado e bochechas rosadas sobre a pele limpa e delicada. Ah, a pele reluz na noite sob a luz fria dos refletores e se faz tão macia ao toque que inebria em poucos segundos.

Se pudesse, ele teria adormecido para sempre ao toque daquela pele e não importaria a febre, o calor consumindo por dentro, as estranhas doendo pelo quase que não se concretiza. A pele na ponta dos dedos, a pele ao alcance das mãos, a pele sob o roçar dos lábios, recebendo o ar de seus suspiros. Redesenhar o seu rosto como quem faz das mãos um pincel expressionista, deglutindo sua insensatez a flor da pele, deglutindo sua jovem segurança anteposta a seu semblante. E redescobrir na cor de seus olhos que o mundo continua lindo e girando e que está vivo de novo, e que continua vivo para de modo ou outro ter o tal do quase que não se concretiza. E na delicadeza de seus lábios e linhas do rosto delicado, refaria qualquer arte perdida. Refaria ali o sentido da arte.

Mas sambavam em terrenos diversos a esta hora, sambavam sem saber um do outro e ela já conseguia sorrir e ela já conseguia remexer as cadeiras com os olhos brilhando. A luz de uma vida plena, a luz de um desejo que não cessa.

E ele desejando estar ali, sem saber que lugar seria este.

O desejo vestido, o desejo sapateado, o desejo sambado até as últimas horas da madrugada. E a saudade da pele que persistia.

David Felipe

(Continua)

FÔLEGO – 11. Crime Passional

Crime Passional

“Na madrugada tem perfume e vela

Pra atrair alguém que vem e traz

Alguma coisa que em ti me falta

Uma atenção singela

Pra deixar a noite em paz”

(Filipe Catto)

Ela estava nua sobre a cama, perdida entre os lençóis com o semblante mais leve e bonito que ele não pôde deixar de admirar com uma raiva contida. Enquanto ela dormia, ele preferiu não fazer barulho, tirou o relógio devagar e sentou-se sobre os ísquios, esquecendo-se por ali por uns trinta minutos, o tempo que levou para que ela despertasse com o olhar ainda repleto de luz. E ela se cobriu como nunca fizera antes, como se fosse vergonha estar ali tão…:

– Quem fez isso com você?

– Isso o que? – e ela seguiu com os olhos ao redor.

– Pelo visto ele já foi embora. Pelo visto, ele cansou de você.

Ele avançou sobre ela e prendeu a mão entre seus cabelos pela nuca, abraçando-a com força:

– Por que fazer isso comigo? – e desceu a mão sobre o seu sexo.

– Pára.

– Eu não posso?

– Não, você não pode limitar minhas felicidades.

– Limitar suas felicidades? – e a abraçou mais forte – Eu não sou o bastante?

– Pelo menos eu sei quando eles vão embora. Eu sei que por vezes só valem pela hora e pronto. Eu sei que vale só pelo gozo!

Um corpo nu sobre a cama e duas mãos em seu pescoço. E lágrimas pingando sobre os seus seios, sem parar.

– E quantas vezes só nos valemos pelo gozo?! E quantas vezes? Você não pode dizer isso. Sou eu quem te faz vivo e é você que me faz assim. É a mim que você está matando, corroendo.

– Eu não suporto mais me viver em você.

– Isso é mentira. Mentira!

Ele soltou seu pescoço e a beijou como numa última vez. Beijo roubado, corpo solto.

As febres que adoecem sem saber.

 David Felipe

(Continua)