FÔLEGO – 10. Garçon

Garçon

“Garçom, no bar todo mundo é igual

Meu caso é mais um, é banal

Mas preste atenção, por favor”

(Reginaldo Rossi)

 

Ele pegou a primeira rodovia saindo da marginal e seguiu com o carro. Sim, parou no primeiro bar, levantou a mão e pediu sua água com limão. Não, ele não bebeu cerveja, não se embriagou nem sequer jogou bilhar. Não havia amigos por perto, não havia clima, não havia nem sequer uma inspiração. Eram sete e meia da manhã aproximadamente e o cenário não colaborava para que se tivesse um esboço, quiçá um ideal da típica atmosfera das dores de cotovelo. Mas o senhor com o queixo apoiado sobre a vassoura, a idade avançada e o não ter clientes mais para atender, deixou-se ser ouvidos e ouviu:

– Eu acho que nem te dei bom dia. De qualquer forma, bom dia. O senhor acredita que eu disse “Eu te amo” e ela respondeu “Eu não quero mais”? Eu não entendo mais nada. Está certo que eu saí, mas eu precisava de um tempo pra saber se era isso mesmo que eu queria dessa vida, se eu queria meu coração acelerando do nada e se queria tocar aquela pele de novo, no momento seguinte a ter desgrudado meus lábios de… O senhor já deve ter me entendido.

E o senhor assentiu com a cabeça que sim e fez menção de falar alguma coisa.

– Não, o senhor não precisa ficar preocupado. Longe de mim tomar qualquer outra droga. Não, não que ela seja uma droga. Mas causa o mesmo efeito, uma dependência, um nem sei dizer o que é que me faz voltar e voltar de novo e dizer seu nome quando ela está longe só pra ouvir alguma coisa bonita e que me faça resistir o resto das horas que faltam para nos vermos. Eu percebi que eu não posso mais viver sem e eu tenho certeza que ela também não. Só que é um pouco com se nos matássemos um pouquinho a cada dia, acredita? A sua água com limão é maravilhosa. Até me dói menos o estômago, mas ainda está vazio por aqui.

Um copo vazio arremessado contra a parede.

– Eu pago, não chame a polícia, não chame ninguém. Por favor, eu pago. Eu recolho os cacos, só não sei se vai adiantar. Eu pago, desculpe. Eu pago.

E ele repetiu “Eu pago, eu pago, eu pago. Eu recolho os cacos, só não sei se vai adiantar”.

E o senhor pediu que se acalmasse e que ele não voltasse mais. Não voltou. Ele deixou uma soma de dinheiro à mesa que pagava umas dez águas com limão e uma caixa de copos. Partiu.

David Felipe

(Continua)

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