FÔLEGO – 6. 2 Perdidos

2 Perdidos

“Tá fazendo frio nesse lugar

Onde eu já não caibo mais

Onde eu já não caibo mais

Onde eu já não caibo mais

E já não caibo em mim”

(Dadi, Arnaldo Antunes)

Ele estava lá, mas ela não viu. As janelas da sala abertas com a cortina escapando com o vento e raspando na parede, sem qualquer romantismo. Casa vazia. A casa estava vazia sem a pele pálida que se coadunava à sua em cada noite de mais carinhos.

E por que ele fora embora? Nem ele sabia dizer, ou explicar. Talvez aquela vontade louca dos que tem o amor por perto e o testam só para saber que não podem viver sem e só. Pena que o “e só” custasse tanto e parecesse arrancar pedaço.

E como uma criança ávida por ter sua vontade atendida, ele não deixou de olhar nem debaixo da cama e atrás das cortinas que já haviam parado de voar, assim que ele virou a chave no trinco e tratou de fechar as janelas.

O vento lá fora era pouco diante da falta de notas quentes deslizando por seus sentidos.

Apareça, eu imploro, apareça! E repetiu por duas vezes mais, até ser interrompido por gargalhadas que romperam a porta de entrada. E seguidas de um suspiro e um olhar que não terminou, estacaram os dois, surpreendidos por si mesmos. Ela tinha os sapatos de salto alto seguros por uma das mãos, enquanto a outra ajeitava uma mecha de cabelo saída do lugar. Ele tivera deixado os sapatos à beirada do tapete como de costume e  vinha também com os pés descalços, martirizando-se com os braços abertos em cruz. Não demorou para que os sapatos viessem ao chão e que os braços pendessem juntos em direção ao corpo.

– Eu…

– Eu…

E por longos minutos ficaram olhando-se, e olhando-se, e olhando-se até que as pernas sustentaram em si um passo antes do abraço que não aconteceu.

– Não.

– Vazio, não posso mais.

– Vazio? Você foi ruim.

– Eu fui feliz.

Ele forçou um beijo pudico perto do que aqueles corpos sentiam em noites de amor. Foi somente um roçar de lábios suficiente para que as lágrimas fluíssem de vez de ambos. Testas coladas, as mãos unindo-se como se fosse a primeira vez, reconhecendo cada articulação fria que tentava traduzir uma saudade.

David Felipe

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