FÔLEGO – 4. Redoma

Redoma

“Hoje não importa nem teu nome

Insisto em te afirmar

Que essa espera é só uma gota

Que só se faz transbordar”

(Filipe Catto)

 

Como se eu pudesse continuar a esperar com menos desejo e mais resignação. Não, não posso. Eram as palavras que vinham a sua mente, entre um copo e outro e uma lágrima que ninguém lambeu.

E aprendera ela que viver é esperar e não gostava do tom de fábula torpe a que a história se encaminhava, mas continuava a viver. Que fosse o prelúdio de um novo melhor, de um clímax para um final feliz. Sim, sucumbia de novo a um clichê. E por que não?

Não pensava em cortar os pulsos, não tinha técnica ou coragem. Havia vida que lhe empurrava para frente. Assim como se a paixão se mantivesse viva e fizesse o sangue continuar a circular por suas veias, com todos os glóbulos agitados e em festa, dizendo: Viva! Viva! Que não lambam suas lágrimas e você possa senti-las secar antes de caírem pelo queixo e molharem o colchão. Ah, o colchão e suas marcas de um reino conhecido de regozijo.

Queria ela saber cortar os pulsos e acabar logo com aquilo que comparava a sobrevida dos terminais abandonados a si mesmos em hospitais públicos. E não gostava da imagem mórbida se formando em seus pensamentos. As notas já haviam sido tão alegres por ali.

Por que o rei se foi sem ser deposto? Por que o rei não volta? Deixa-me cantar, deixa-me cantar… E a voz sumia, de novo.

E a vodca não dava mais conta e os nomes da lista não lhe dariam o mesmo prazer de novo e de novo, assim como ele.

E fora por tantas vezes sua proteção e fora por tantas vezes seu enredo de romance água com açúcar, apimentado com cubos de gelo entre a boca e a espalda. Por que não o prendeu? Por que não passou chave e jogou fora?

Se tivesse poderes, o faria. Se tivesses algo que não lhe fizesse livre, o faria. Mas não. A liberdade era seu consumo imediato e futuro e durante as alegrias de serem únicos.

A dor seguindo em vez de prazer. Sem poderes para deixá-lo intacto, em particular, confortável e controversa redoma.

 David Felipe

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