FÔLEGO – 5. Juro por Deus

Juro por Deus

“Foi quando o samba chorou outra vez

E o nó pesado esquecido no peito desfez

E eu me banhei, eu me perfumei

E então decidi

Vestir o decote mais abusado que existir”

(Filipe Catto)

Ela já havia separado todas as garrafas com teor alcoólico que encontrara pela frente e deixara todas dispostas lado a lado na mesa de centro da sala de estar. Se fosse para fazer o óbvio que fosse combinado com algum caráter de poesia. Sim, ela pensou nisso e quando pensou, ainda uma vez mais se tratando com obviedade, compreendeu ser melhor existir diferente.

Após já ter desligado a energia no quadro de luz central da casa e ter acendido algumas velas nos cantos todos da casa, ter acendido um incenso e aberto alguns dos poucos vidros de remédio homeopáticos que ainda estavam no armário sob a pia do banheiro, esquivou-se do que parecia o quadro certo de infelicidade e degradação. Com o corpo nu, tocou-se uma vez mais, redesenhando os detalhes que ele já tocara com tanto cuidado e carinho e ainda pôde sorrir e lembrar-se de apertar os olhos, antes de mais uma respiração entrecortada.

Fato foi que os comprimidos de baixa concentração voltaram para o armário, as garrafas só ficaram sobre a mesa de centro e ela dirigiu-se ao quadro de luz para religar a energia, com um sorriso de ponto a ponta de orelha e adiantou-se em caminhar em frente ao maior espelho da casa, observando a pele pálida mas com vida.

Não havia trilha sonora real que reavivasse mais sua energia que seus próprios impulsos internos. Assim como as combinações das fórmulas tantas vezes estudadas e tantas vezes esquecidas, o corpo parecia simplesmente religar tudo sem um resultado final que se dissesse totalmente satisfatório. Se não recebia um dez de si mesma, pelo menos passava, assim como nas provas finais de Física dos tempos deixados para trás.

E marota como ainda lembrava-se de ser, piscou para si mesma diante do espelho de mão que ajustava para retocar o batom. E o corpo nu ganhou o pano mais bonito que viu no dormitório.

– Ah! Por favor!

O rubro na noite. O rubro bom da lascívia honesta e das atenções que atraem algum prazer. A noite que a abraçasse e ela, que abraçasse essa noite.

  David Felipe

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FÔLEGO – 4. Redoma

Redoma

“Hoje não importa nem teu nome

Insisto em te afirmar

Que essa espera é só uma gota

Que só se faz transbordar”

(Filipe Catto)

 

Como se eu pudesse continuar a esperar com menos desejo e mais resignação. Não, não posso. Eram as palavras que vinham a sua mente, entre um copo e outro e uma lágrima que ninguém lambeu.

E aprendera ela que viver é esperar e não gostava do tom de fábula torpe a que a história se encaminhava, mas continuava a viver. Que fosse o prelúdio de um novo melhor, de um clímax para um final feliz. Sim, sucumbia de novo a um clichê. E por que não?

Não pensava em cortar os pulsos, não tinha técnica ou coragem. Havia vida que lhe empurrava para frente. Assim como se a paixão se mantivesse viva e fizesse o sangue continuar a circular por suas veias, com todos os glóbulos agitados e em festa, dizendo: Viva! Viva! Que não lambam suas lágrimas e você possa senti-las secar antes de caírem pelo queixo e molharem o colchão. Ah, o colchão e suas marcas de um reino conhecido de regozijo.

Queria ela saber cortar os pulsos e acabar logo com aquilo que comparava a sobrevida dos terminais abandonados a si mesmos em hospitais públicos. E não gostava da imagem mórbida se formando em seus pensamentos. As notas já haviam sido tão alegres por ali.

Por que o rei se foi sem ser deposto? Por que o rei não volta? Deixa-me cantar, deixa-me cantar… E a voz sumia, de novo.

E a vodca não dava mais conta e os nomes da lista não lhe dariam o mesmo prazer de novo e de novo, assim como ele.

E fora por tantas vezes sua proteção e fora por tantas vezes seu enredo de romance água com açúcar, apimentado com cubos de gelo entre a boca e a espalda. Por que não o prendeu? Por que não passou chave e jogou fora?

Se tivesse poderes, o faria. Se tivesses algo que não lhe fizesse livre, o faria. Mas não. A liberdade era seu consumo imediato e futuro e durante as alegrias de serem únicos.

A dor seguindo em vez de prazer. Sem poderes para deixá-lo intacto, em particular, confortável e controversa redoma.

 David Felipe

FÔLEGO – 3. Johnny, Jack & Jameson

Johnny, Jack & Jameson

“Made myself so nasty

With their taste on me

Made my head go high, my mouth go dry

Though I have my chest ripped out

They come to me

Johnny, Jack & Jameson

can’t get out of my mind”

(Filipe Catto)

 

E quando se faz do amor uma arte ou um jogo bom de se jogar, o que fazer quando ele parece ter saído pela porta dos fundos, de súbito? Um dia, dois e três completos, e a paixão parecera ter desaparecido daquele lugar. A flor não mais como adorno em seus cabelos e o corpo todo coberto, sem calor e sem moldura. E só o silêncio, e a falta de por quem chamar o nome ou correr pela casa entre risos altos e alguns haustos. Sua boca não tinha mais a cor dos dias de luz em que bebia e se deixava beber do tal néctar dos bem validos da sorte em ser correspondido. Ah, as histórias que parecem não ter fim e caminham sem que tenhamos controle sobre elas.

Ele não estava mais e a casa não poderia perder seu viço original. Ela leu um romance desses longos e de capa dura, deveras formatado para preencher as linhas vazias das moças tristonhas de madrugadas sem som e pouca fúria. Não demorou e adormeceu.

No lugar do cenário perfeito e florido dos campos, entraram as doses de vodca, a pouca luz, a semi – paranoia e o quase prazer. Tudo muito e sem cálculo prévio. E se sobrava alguma tristeza nisso, antes vinham os lábios rubros, a carne quente, o coração descompassado e a embriaguez gostosa dos sentidos. E como era bom rir de novo e passar os dias.

Não havia nomes ou classificação. Bastavam às sensações, os presentes dos dias em que deixava o sol entrar e arder ao pé de seus ouvidos. Assim como voltar a respirar e a fazer sentido. Se é que nisso tudo havia sentido. E lembrava-se ela que buscar sentido às coisas nunca havia sido prática comum de seus dias, bem como a verborragia e a busca por expressões idiomáticas que lhe fizessem mais erudita e deixassem menos à mostra as vezes em que sangrava e não tinha medo de sujar os cantos da casa.

Por que não retomar as alegrias e buscar quaisquer dos nomes que já tivessem estado em suas listas e que causassem um triz de regozijo?

David Felipe

FÔLEGO – 2. Gardênia Branca

Gardênia Branca

“E o povo pode até falar do nosso caso

Mas eu não ligo, pois a conheço bem

Essa nega de noite quando deita na cama

Dorme tranquila, pois não deve a ninguém”

(Filipe Catto)

 

E que os outros falassem o que quisessem. Não havia interesse no mundo lá fora quando havia um mundo ali, independentemente de seus sentidos. E que os corpos falassem e não tivessem medo do proibido, do ser feio ou coisa assim. Que os outros dessem conta de suas vidas.

O mundo particular pegava fogo sim e se deixava queimar da febre de tanta paixão, sem receio de beirar a patologia. Era nesse momento que existiam e ele podia rir sem censura. Ela tem histórias tão encantadoras quanto as de Sherazade a encantar seu sultão. Jamais cairiam num clichê. Pelo menos até ali.

Achavam pouco e vil o que ela seguia fazendo – esperá-lo todos os dias. Mas não. Fazia para sentir-se igualmente viva, até a última gota de suor que viesse do regozijo ou da lágrima que secasse antes de cair, fosse de gozo ou momentâneo sofrimento.

Dava a hora de chegar e ela lá, com as mãos prontas para os afagos infinitos, dizendo seu nome alto e o coração palpitando para seguir um único ritmo. E não, não achavam que isso fosse um clichê.

A flor enfeitando o cabelo da moça é mais um presente a brindar os fechamentos de dia, adornando a beleza jovem de menina. Ela não é como a carne de consumir e descartar em qualquer canto. Ela vai além disso, e sabe. Estar com ela é perder o medo de qualquer mentira que cheire a resina e irrite as narinas. Ali, não há jogos, há amor bom de adornar os becos dentro dos corações.

E a poesia e as boas notas musicais só vêm a colaborar com a experiência de estar de volta ao êxtase trazido do aroma das flores puras, embora malditas por parte de uma população torpe presa ao valores que escapam ao tempo dos avós, em que se fabricavam bebês sem o prazer de brincar.

O branco é o êxtase dos que se permitem. O branco é vida em pé de igualdade a algum sentido que vem a se dar a essa experiência. Ela traz a linda flor branca dentro do seu coração.

David Felipe