FÔLEGO – 1. Adoração

FÔLEGO

Adoração

“Me perder na linha

Me encontrar no fundo dos teus olhos

Pele que é pouca e não se aguenta

Morre de vontade, dispensa ladainha

Meu corpo seja palco

Vertido e tomado em pelo à tua poesia”

(Filipe Catto)

 

Não, não houve sexo àquela noite. Ficaram os dois juntos o tempo todo, sem dizer nada, só insistindo num respirar às vezes descompassado, por vezes nem ouvido. Para que dizer que pertenciam um ao outro, quando isso já era sabido e já havia sido sentido tantas e tantas vezes antes de mais uma noite?

As paredes brancas coadunando com seus corpos pálidos, mas sadios. Retiraram cada peça de roupa empoeirada com as cinzas da cidade tão rebatidas nas crônicas de qualquer escritor advindo de grande metrópole consumida pelo barulho, fumaça, falações e silêncios irrompidos pela coreografia ambulante de passantes alucinados entre as estações de trem e o pedido de pare disparado pelas cores confusas da cidade. Mas nada disso importava, quando eram um e o outro.

Aguardou ele que os pés fossem massageados com calma e cautela, desenhando-lhe cada carpo, sublinhando sua pele e cada caminho entre cada ligamento de suas artérias. Numa descrição não tão assertiva talvez, pela ignorância de tantos termos de anatomia deixados para trás desde há algum tempo no vestibular e nos estudos de grupo de outra época, calçados à biologia dos manuais.

E os vinte e poucos anos não lhe pesavam a tal da “época”. E se respiravam sem dizer, insisto. E seus pés tornaram-se únicos e as mãos uniram-se ternamente entrecortadas por haustos e a seguinte aliteração ainda esbarrou na energia se consumindo quando se esvai a poesia e entra a carne. E que pudico… Não. Pudico não. E que nobre, olharam-se, de súbito e entreabriram os lábios para redescobrir o próprio gosto.

Olhos nos olhos, queixo a queixo, respirando, sentindo. Um único gosto. Nem de longe comparados a quaisquer santos, contudo em pé de igualdade aos devotos, entregues e piedosos de seus próprios intentos. Sem necessidade de palavras, frases, efeitos ou psicodelia. A pele corando, os sentidos ganhando mais sentido e renovando-se a cada instante de perturbador e incondicional estado de mútua adoração.

 David Felipe

Olá!

Hoje começa por aqui, FÔLEGO – minha nova ficção, livremente inspirada no álbum de Filipe Catto.

Os capítulos levarão os nomes de cada música.

Será uma alegria, tê-los como espectadores de mais uma de minhas histórias.

Confiram as atualizações semanais.

No post seguinte: Adoração.

 

Abraço,

David Felipe.

FÔLEGO