Quase-doce

Quase-doce

Se estar apaixonado é admirar sem perder a medida e querer bem sem precisar que me faça bem, então pode-se dizer que este é o estado passional bom de se viver. E aí sim, podes julgar-me assim.

Eu nunca disse queria o supra-sumo do bagaço do resumo de qualquer ser humano elevado e constante que sabe seguir todas as regras sociais e ser convencional, ainda que não faça feio no uso dos talheres ou dizendo impropérios sem medida. Mas longe de ser perfeito, permito-me às ironias do mundo, ao frio na barriga de não dizer ou esmorecer depois do já dito.

Eu não gosto de lamber o pouco do doce que sobrou na ponta dos dedos e isso não pode ser lido como tão convencional. E se disparo palavrões é para que pareçam medidos e isso é tão cartesiano e cartesiano soa à tão acadêmico que diante de minha figura de estatura nem sequer mediana, torna-se talvez inverossímil e patético. Só que é o jeito de sentir que o mundo ainda existe em mim.

Não, eu não vou mandar calar a boca que eu queria por aqui, perto demais de sentir meu hálito, até porque não sou de todo louco. Só que ainda não sei usar o “venha a mim” dos desprendidos e audaciosos sem medida. Talvez eu respeite demais as leis da física, ainda que no mundo real nem sempre os opostos se atraiam ou os iguais se repilam. Ai, que tenho vontade de sangrar sem precisar cortar qualquer epiderme para não doer.

A compreensão da recorrente bipolaridade do tal mundo que habitamos é tão dilacerante e doce ao mesmo tempo que é difícil manter o sorriso por mais que segundos ou deixar que as lágrimas durem mais que minutos. É sempre o tempo passando e gente carente de ter esperanças, que difícil é saber quem não conheça o desespero.

Eu quero um colo, um berço, um braço quente – da poesia que decorei e que ficou em mim – uma música que deixe essas lágrimas partirem de vez prum infinito particular que suporte lidar com o espaço vazio destas horas.

E me faz feliz ver os pequenos anseios de felicidade atingidos por outrem e me faz feliz saber que ainda pode-se ser confuso, mesquinho, torpe e ao mesmo passo, tão piegas e quase doce.

David Felipe

Anúncios