Se se morre de amor – Capítulo X


Capítulo X

 

Cemitério nunca foi um dos lugares mais agradáveis do mundo e não será por algum tempo, ao menos, para mim. Não é fácil acostumar com essa idéia de que encontramos o fim, de certo ponto de vista.

 

– Chegamos… – disse eu, reticente.

 

– Ok, Fê. Vocês não precisam descer.

 

– Não, Lucas. Vamos lá. Estamos aqui juntos.

 

– Isso mesmo. Sem crises – completou Gab.

 

Caminhamos um pouco até a sepultura de Amanda. Um daqueles cemitérios que se assemelham a um jardim, todavia sem a boa energia de vida. Confesso que minhas lágrimas começaram a escorre pelo rosto já no meio do trajeto e não consegui chegar à lápide para um momento de oração para depois deixar Lucas com suas memórias e a ultrapassagem de seus medos, por assim dizer. Estanquei o passo a poucos metros, assim como Gab, que me repreendeu com um olhar pesado para que eu contivesse meu pranto. Tentei, mas as lágrimas vinham naturalmente. Lucas me abraçou como se eu tivesse um histórico semelhante a seu naquela história e caminhou até a sepultura. Eu e Gab ficamos de longe, observando.

 

Lucas carregava um ramalhete de rosas brancas às mãos e não ligou para quem ouvisse, retirou um papel do bolso, depositou as flores próximas à lápide e seguiu:

 

Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores,murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

 

Lucas continuou, após a poesia:

 

– É Gonçalves Dias, e é o que eu sinto. Mas eu vou seguir. Eu vou seguir, compreendem?

 

E o “compreendem” já disse Lucas, olhando para mim e Gab. Afastamo-nos da lápide, enxugamos nossas lágrimas e partimos para o açaí dos velhos amigos.

 

Os VIPs de balada de Malu serviriam bem às noites de alegria e celebrações.

 

– VIP, Malu? Três, por favor. Hoje, celebraremos a vida!

 

FIM

David Felipe

 

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