Se se morre de amor – Capítulo IX

Capítulo IX

– Sim, eu discuti com a Amanda no dia da festa. Eu não queria os dois juntos. Não, eu não queria. Mas isso não me faz ser o culpado. Ela sempre bebia um pouco além.

– Não pedi explicação, Gab. Só queria entender. Você e o Lucas agem diferente. Você, pelo menos, superou. Tenta superar – corrigi-me, rápido.

– Então, não vai adiantar nada ele ficar preso naquele quarto pra sempre. Esse fantasma da Amanda tem que ir embora de vez.

– Pareceu uma daquelas frases de seriado, agora – ri-me.

– É, eu preferia o Lucas que se matava de fazer exercício, mas queria se sentir vivo, estar vivo.

– Todo mundo. Ele precisa aprender a lidar.

Mais uma das conversas dos meses que seguimos tentando inventar maneiras de fazer o que só Lucas poderia fazer por si mesmo.

– O Lucas saiu de casa, o quarto está vazio – disse a mãe de Lucas ao celular.

Na casa dos vinte não seria preocupação instantânea alguém ter saído de casa, mas não no estado de Lucas. E que não aconteça nada, e que não aconteça nada, repetia para mim mesmo. Partimos eu e Gab para os lugares mais óbvios procurando algum vestígio. Nas imediações de casa seus pais já haviam verificado e resolveram ficar e esperar que voltasse.

Fomos até a academia, na lanchonete em que íamos algumas vezes para tomar açaí nos fins de semana, chegamos a ir para a faculdade e para a academia de novo, para a porta da casa de Amanda e voltamos ao apartamento.

– Eu esperava por vocês.

Lucas, de pijama, com o cabelo despenteado, descalço e com o rosto todo sujo.

– Eu andei muito pra chegar. Eu andei e continuei andando e eu sabia que vocês podiam me ajudar.

– Claro – disse logo e corri abrir a porta do apartamento.

– Seu João me deixou subir, o porteiro. Ele sabe que não estou aqui há uns tempos, mas deixou. Subi.

Apontei o telefone para que Gab já avisasse aos tios que encontráramos Lucas, enquanto ele seguia falando, falando:

– Pode parecer que não, mas eu estou bem. De verdade. Não fiquem preocupados. Agora, eu estou começando a entender. Eu não posso continuar assim, louco – e ria de si mesmo.

– Você, louco? – interferiu Gab.

– Quem aqui toma remédio pra dormir?

– Oras, temporário – continuou Gab – Normal.

– Pode ser, por enquanto – e riu-se de novo – Posso lavar o rosto? Vi ali no reflexo da estante que está sujo, não é mesmo? Louco e sujo não vai dar certo.

– Vai lá, a casa é sua, Lucas. Tranqüilo.

– Deixaram algum remédio bom por perto… Brincadeira, relaxa. Vou só lavar o rosto mesmo. Até deixo a porta aberta.

Lucas falou mais e mais, até desabarmos os três no sofá da sala, já a altas horas, pela madrugada

Não, não houve milagre. Nosso amigo continuou com os remédios, convencendo os pais de que ficaria bem e voltou a dividir o apartamento conosco. Academia, açaí no fim de semana. Aos poucos, as dosagens de remédio diminuindo e Lucas propôs a nós colaborar em seu desafio pessoal de superação:

– Vamos ao cemitério? Não precisa chegar perto dela, quer dizer,enfim. Eu só quero me testar. É isso. Vocês vão comigo e eu passo uns minutos, só para testar – e Lucas quebrou as sílabas das últimas palavras.

– Sem problemas – e olhei para Gab para que assentisse.

– Nenhum. Sem problemas. Bora lá!

(Continua)

David Felipe

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