Se se morre de amor – Capítulo VII

Capítulo VII

Sonhei com Amanda morta circundando as imediações do prédio em que moramos eu e os camaradas. Camaradas, isso. Gíria antiga, da qual às vezes me aproprio. Então, Amanda não diz nada, leva os olhos até onde é nossa sacada e parte. O sonho se repetiu algumas vezes durante a madrugada e acordei um pouco sem chão. Resolvi não contar nada para Lucas ou Gab para não pensarem que eu me impressionara por conta da missa.

– Bom dia, Fê.

– Bom dia, Lucas. O Gab já saiu?

– Nada, ele resolveu ir à padaria comprar nosso café.

– Novidade! – eu ri.

– Novidade ele se dispor a sair comprar – completou Lucas, e seguiu – Mas você está pálido. Sono ruim?

– É cansaço mesmo – disfarcei.

Gab entrou meio que atropelando as palavras:

– Vocês não vão acreditar. Senti o cheiro do perfume da Amanda no elevador, agora.

– O perfume de quem? – Lucas engasgou-se com o iogurte.

– Danou-se – pensei alto.

– Era o cheiro dela, não tinha o que tirar.

– Alguém com perfume parecido. Normal.

– Não era, Fê. Se o Lucas sentisse, poderia confirmar.

– Espera, não vamos começar o dia falando disso – exaltou-se Lucas.

– Desculpe, Lucas. Só que foi muito real.

Levantei-me para apanhar alguns pratos para o lanche na cozinha.

– Não brinque, Fernando. Tira a mão da minha nuca.

E como se ninguém tocasse Lucas, uma lágrima escorreu do canto de seu olho direito.

– Não, por favor.

Um murro de Lucas na mesa e um copo de iogurte quebrado no chão depois, fui da cozinha à sala em segundos.

– Está vendo, Fê. Eu sabia. Ela está…

– Não, ela se foi – Lucas esfregou os olhos e se pôs a recolher os cacos do chão.

– Você vai se…

– Pronto, me cortei.

– Eu sonhei com ela esta noite – disparei em única respiração – Vamos cuidar desse corte.

– Por isso estava estranho – disse Lucas.

– E então, o perfume.

– A mão na minha nuca como ela… Droga! Eu não posso…

– Menos, Lucas. Pode ser uma nóia conjunta. Isso, surtamos e pronto. Esquece isso – Gab insistiu numa tese vazia.

– Vem com essa, Gabriel! Nem você acredita nisso – advertiu Lucas – Está doendo essa…

– Vai lavar isso logo – insisti eu.

Mais um curativo, correr para a faculdade e ficar o dia todo com questionamentos entre o que era ou não realidade. Talvez impressionados pela data de um ano de falecimento, talvez em contato com outra dimensão. Muito novos para surtar, muito novos para ter pensamentos mais claros sobre a vida. Era o que pensávamos até ali.

Acabamos os três indo juntos para a academia após as aulas da faculdade e voltamos para o apartamento mais tarde sem dizer quaisquer palavras sobre as conexões que indicavam a presença da guria. Decidimos tirar a champanhe que sobrara da última reunião com um pessoal da faculdade da geladeira e tomamos até o fim.

Um brinde à…um brinde aos vivos!

David Felipe

(Continua)

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