Se se morre de amor – Capítulo VI

Capítulo VI

 – Ainda que não tivesse acabado, não seria a mesma coisa. Eu ainda vou me lembrar de cada palavra, do “namorado lindo” pronunciado com alegria, do champanhe e do carro novo destruído no muro. Eu vou me lembrar do sangue e dela vestida de branco dentro do caixão. Eu vou me lembrar…

Lucas falava e as lágrimas também escorriam de meus olhos, naturalmente. Gab seguia com a cabeça apoiada na parede:

– Eu não vou nessa missa. Celebrar a morte um ano depois? – indagava Gab, retoricamente.

Mas respondi.

– Não celebram a morte, Gab. É só uma maneira de…

– Sem essa, Fê. É uma maneira de reunir todo mundo para tentar encontrar culpados.

– Eu não ressinto mais por vocês – disse Lucas, tentando enxugar o rosto com as mãos.

– Pois devia. Não devia nem mais me respeitar. – contrapôs Gab.

– O que mudaria? Nenhum de nós dois pode ter de volta a…

– Amanda. E não tenha medo de dizer o nome dela. Ninguém tem culpa por…

– Por ter um coração – completei.

– Não, sem romantismo, Fernando. Ela está morta.

– Sim, mas…

– Certo, tem razão. Você tem razão. Mas eu, eu não tenho que agüentar tudo isso. Não vou a essa missa.

– Vamos todos. Não precisamos falar com os tios ou com a Marcinha, a Lú. É uma maneira de nos confortar também.

– Não sou católico – interveio Gab.

– Nem eu santista. É só uma questão de respeito.

– Ok, Fê. Você venceu. E Lucas, lava esse rosto e deixa a chave do carro aí. Pare de pressionar essa chave no queixo. Vamos com o meu carro.

A igreja ficava a poucas quadras do prédio. Passamos sim por Marcinha, Lú, pelos tios. Nossos pais foram também e conseguiram fazer algo que não pudemos, isto é, dar mais palavras de conforto aos pais de Amanda. Eles nos abraçaram ao nos verem e tentaram conter as lágrimas que convulsionaram grande parte dos presentes. Eu nunca quis tanto que algo assim não tivesse acontecido.

A chuva lá fora me pareceu sinal de presença de boa energia. Amanda tivera seus defeitos sim, e era tão bonita. Não à toa, Gab e Lucas encantaram-se por ela. Tentei pensar desse modo, como se ela fizesse parte da chuva e levasse nossas lágrimas para bem longe.

Deixamos a igreja em silêncio, talvez mais leves que no início.

Amanhã acordo cedo, visto qualquer roupa que me abrigue do frio e saio. Vou andar um pouco por aí, vou tentar compreender o que não se vê.

David Felipe

(Continua)

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