Se se morre de amor – Capítulo III

Capítulo III

Assim como se nada tivesse acontecido, Gab e Lucas seguiram se respeitando nas semanas que seguiram e me deixaram ainda mais encafifado com tudo. Certo de que eu só poderia estar louco ou minha capacidade de resignação fosse bem menor do que eu pensava.

Amanda e Gab em Londres, sem ninguém saber. Melhor, sem ninguém interessado sabendo, neste caso, o Lucas. Depois voltas às boas, Amanda parte e ficamos com o caos sob difícil controle.

– Mais uma vez indo para a academia, Lucas?

– Me distrai, e eu preciso. Para chegar no meu objetivo, uma vez não é mais suficiente. Melhor que seu sedentarismo.

– Não vou concorrer a Mister Muscle como você.

– Boa piada. Olha como estou indo…Bem, parti. E não mexa na comida que deixei separada na geladeira.

– Pôs etiqueta?

– Sabe que não é a idéia mais estúpida. Mas o Mister Certinho não curte comida saudável.

– Quando vai tirar essa munhequeira do braço?

– Assim que a cicatriz suavizar mais.

Eu não falei de propósito, todavia a atmosfera pesou.

– Descul…

Lucas não me deixou terminar.

– Vai fazer suas resenhas, vai. E me esquece. Fui!

– Eu…

– Amolando o Lucas de novo, Fernando?

– Calma aí, eu só quero entender, ajudar.

– Será mesmo? Você está sendo cruel, velho. Respeite a nossa dor.

– Quem se atracou na sala há dias atrás por causa da…?

– Nem pronuncie o nome dela se não diz nada a você.

– Hei, calma!

– Relaxe, não bateria em você, agora.

– Valeu,Gabriel. Tremi de medo.

– E nós é que somos crianças pra você.

– Eu quero meus velhos amigos de volta, sem mistérios, sem essa sombra de morte – disse, numa respiração única.

– Essa sombra de morte, desse jeito dramático de que falou, nunca nos deixará ser os mesmos. Não sei se pode compreender.

– Eu também gostava da Amanda, como amiga, claro. E nem venha com olhar de desconfiança.

– Sem essa. Só que você era isso, só um amigo. Não sente igual, de jeito nenhum. E não tem mistério não, tem vida.

E me calei. Eu buscando explicações e ganhei uma reflexão para o resto da noite. Li mais uma meia dúzia de textos para completar meu trabalho de linguagem e desabei na cama, repleto de novas interrogações.

Gab passara o resto da noite no violão. Lucas chegou da academia, jantou seu prato saudável e seguiu numa longa série de abdominais no chão da sala até o cansaço físico levar-lhe ao sono e a noite passou.

– Tem vida. Tem vida. Tem vida – acordei.

(Continua)

 

David Felipe

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s