Se se morre de amor – Capítulo V

Capítulo V

Marcinha e Lú com os olhos pesados. Fácil, as lágrimas caíram assim que nos viram já no cumprimento de entrada. Gab não escapou por estar ocupado com a louça. Martinha levou-o a sala, pelo braço, sem cerimônias, como a velha amiga.

– Ai gente. Eu não consigo ficar sem falar – começou Martinha, já aos prantos.

– Se vieram pra isso, melhor ir agora. Chega de ais por aqui.

– Grosso – advertiu Luciana.

– Vocês não precisam fazer cena – contrapus.

– Eu não agüento. Eu não agüento… Eu não agüento! – Lucas explodiu na última respiração e jogou controle remoto da TV contra a parede atrás do sofá em que estavam as garotas.

– Está louco, Lucas! – as lágrimas de Martinha secaram na hora.

– Saiam, agora! Vão! – continuou ele, já em pé.

Eu e Gab já ao lado de Lucas, segurando-o pelo braço, evitando qualquer novo sobressalto. Ele respirando cada vez mais fundo, entrecortando suas palavras com a dificuldade da passagem do ar.

– Por favor, vão! – repetiu Lucas.

Martinha e Luciana não acenaram nem nada. Num ímpeto, levantaram as duas e partiram. Não esperamos que o elevador chegasse junto ao hall. Simplesmente sentamo-nos ao sofá, os três.

– Eu não acredito que o dinheiro do sanduba light da tarde vai se perder num controle remoto – tentei descontrair.

– Eu vou comer hambúrguer por uma semana inteira – disse Lucas entrecortando ainda, as palavras e sem nenhum esboço de felicidade no rosto.

– Uma rodada mais de sorvete? – insisti no bom humor.

– Sem bolo o meu – assentiu Gab.

– Se tiver leite condensado na geladeira, complete depois do bolo, por favor.

– Saindo!

Levantei e não errei nos pedidos ao voltar da cozinha.

Ao passar do dia, absorvemo-nos cada qual com as atividades da faculdade e o passatempo de jogos no note. Chegamos a nos dar boa noite via mensagem de rede social e não falamos da visita das garotas, não exatamente desastrosa, mas sem qualquer êxito.

Tocou uma música no rádio, da qual guardei algumas palavras que ficaram se repetindo em minha cabeça por algum tempo:

“… Não é pra sempre. O pra sempre, sempre se vai. Nem tudo que acaba tem final.”

David Felipe

(Continua)

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Se se morre de amor – Capítulo IV

Capítulo IV

Açaí no meio da tarde de sábado. Nem era novidade para um grupo de estudantes tão saudáveis que nos tornávamos com os novos hábitos de Lucas.

– E desde quando açaí é só para quem é saudável, Fernando? Apaga esse post aí do seu perfil.

– Agora vai mandar no meu facebook. Brincou?

Lucas, Gabriel e eu conversando numa boa e dando risada como nos outros tempos, não tão velhos, afinal. Era como esquecer quaisquer problemas, se é que compreendemos a dimensão exata de problema.

– Pode parar aqui, Gab. Chegamos.

Bermuda folgada, camiseta e claro, ostentando os óculos escuros de dimensão não exatamente proporcional. Quem, eu? Não somente. Os três, e claro, com a visão periférica aguçada.

– Não, Fê. Aquela guria não te encararia, não.

– Ok, ok. Falou o expert.

– Nada, Fê. Você ainda está engatinhando na arte – completou Gab – Lucas está certo.

Açaí, morangos, risos e ainda consegui o telefone de uma garota, o que levou Gab e Lucas a momentos de espasmos na saída. Espasmos de risos.

– Aí, doutor Fernando. Está metendo a mala de Clark Kent sem nem ter se formado ainda… – Lucas chorava quase.

– E vocês nem me davam crédito.

– Eu ri e muito, agora – interferiu Gab.

– Ok, preste atenção no volante se… Nada.

Eu não precisava, mas falei. Fomos os três mudos até chegarmos ao apartamento. Atmosfera novamente pesada.

Subimos pelo elevador ainda emudecidos, até que a chave emperrando na porta quebrou o silêncio.

– Droga! – resmungou Gab.

– Eu abro, espere – forcei a maçaneta e consegui abrir – Pronto!

– Ainda vão querer sobremesa? Sobrou do bolo que minha mãe mandou na quarta, ainda. Querem?

– Tem sorvete? – questionou Lucas, já no corredor que leva aos quartos.

– Comprei ontem depois da faculdade – respondeu Gab – Só olhar no freezer.

– Isso! Bolo com sorvete.

– Valeu, tio Fê!

– Desculpe, Gab, pelo que quase falei no carro. Eu…

– Senta aí, eu preparo a sobremesa.

Calei-me. Sentei-me no sofá e esperei. Gab trouxe os pratos, o bolo, o sorvete e ficamos os três em silêncio, sorvendo o bolo com sorvete.

(…)

Interfone.

– Luciana e Marta? Ok, pode mandar subir – assenti.

– A Lú e a Martinha estão aí.

– Eu não agüento isso. Eu não agüento – Lucas levantou-se e começou com a sessão de abdominais.

– Eu passo – Gab recolheu os pratos e foi até a cozinha.

Gabriel lavando louça. Coisa que sempre ficava para nossa ajudante de serviços domésticos de algumas vezes por semana.

Respirei fundo, joguei-me no sofá e aguardei a campainha. Uma longa tarde vindo pela frente.

(Continua)

David Felipe

Se se morre de amor – Capítulo III

Capítulo III

Assim como se nada tivesse acontecido, Gab e Lucas seguiram se respeitando nas semanas que seguiram e me deixaram ainda mais encafifado com tudo. Certo de que eu só poderia estar louco ou minha capacidade de resignação fosse bem menor do que eu pensava.

Amanda e Gab em Londres, sem ninguém saber. Melhor, sem ninguém interessado sabendo, neste caso, o Lucas. Depois voltas às boas, Amanda parte e ficamos com o caos sob difícil controle.

– Mais uma vez indo para a academia, Lucas?

– Me distrai, e eu preciso. Para chegar no meu objetivo, uma vez não é mais suficiente. Melhor que seu sedentarismo.

– Não vou concorrer a Mister Muscle como você.

– Boa piada. Olha como estou indo…Bem, parti. E não mexa na comida que deixei separada na geladeira.

– Pôs etiqueta?

– Sabe que não é a idéia mais estúpida. Mas o Mister Certinho não curte comida saudável.

– Quando vai tirar essa munhequeira do braço?

– Assim que a cicatriz suavizar mais.

Eu não falei de propósito, todavia a atmosfera pesou.

– Descul…

Lucas não me deixou terminar.

– Vai fazer suas resenhas, vai. E me esquece. Fui!

– Eu…

– Amolando o Lucas de novo, Fernando?

– Calma aí, eu só quero entender, ajudar.

– Será mesmo? Você está sendo cruel, velho. Respeite a nossa dor.

– Quem se atracou na sala há dias atrás por causa da…?

– Nem pronuncie o nome dela se não diz nada a você.

– Hei, calma!

– Relaxe, não bateria em você, agora.

– Valeu,Gabriel. Tremi de medo.

– E nós é que somos crianças pra você.

– Eu quero meus velhos amigos de volta, sem mistérios, sem essa sombra de morte – disse, numa respiração única.

– Essa sombra de morte, desse jeito dramático de que falou, nunca nos deixará ser os mesmos. Não sei se pode compreender.

– Eu também gostava da Amanda, como amiga, claro. E nem venha com olhar de desconfiança.

– Sem essa. Só que você era isso, só um amigo. Não sente igual, de jeito nenhum. E não tem mistério não, tem vida.

E me calei. Eu buscando explicações e ganhei uma reflexão para o resto da noite. Li mais uma meia dúzia de textos para completar meu trabalho de linguagem e desabei na cama, repleto de novas interrogações.

Gab passara o resto da noite no violão. Lucas chegou da academia, jantou seu prato saudável e seguiu numa longa série de abdominais no chão da sala até o cansaço físico levar-lhe ao sono e a noite passou.

– Tem vida. Tem vida. Tem vida – acordei.

(Continua)

 

David Felipe