Se se morre de amor – Capítulo I

Se se morre de amor

Capítulo I

– Um último brinde ao dia de hoje, ao namorado mais lindo do mundo. À festa que papai e mamãe me proporcionaram. Ah, e claro, obrigada a todos os meus amigos, Gab, Lú, Martinha, Fernando e claro, de novo, ao mais que meu amigo, Lucas, meu namorado lindo!

Todos ergueram suas taças de champanhe e vinte minutos mais tarde Amanda morreu. Um acidente bobo, um deslize fatal, uma coisa até agora sem explicação e que tirou o juízo de Lucas instantes seguintes após o ocorrido. Era só um teste do carro novo, presente do aniversário de dezenove anos. Até agora posso ouvir os gritos ensurdecedores de Lucas à porta da garagem e o modo como se feriu com as mãos, esfregando o rosto com força.

Lú, Martinha, eu, todos sem ter o que falar para confortar os tios e o nosso amigo. Os pais de Amanda recebiam a filha de volta após uma temporada de intercâmbio e Lucas recebia o sim ao pedido de namoro feito um ano antes. Era o cenário perfeito para o início de uma passageira que fosse, história de amor. Mas não.

– O que eu faço agora? Responde, por favor, Fê. Eu não vou conseguir, eu não vou conseguir, eu morro…

E Lucas desabando a chorar apoiado em meus braços e eu represando qualquer lamento que pudesse sair de meus olhos, forte por ele, pelas meninas que não conseguiam nem sequer consolar a si mesmas.

A pior cena que eu poderia presenciar na vida. E totalmente impotente perante o desconhecido. Para mim era também uma primeira experiência de morte. Eu não dizia “vai passar”, eu não tinha palavras. Eu tinha, simplesmente, meus ombros, meu desespero contido diante da amizade necessária.

Estudáramos todos durante pelo menos dez anos no mesmo colégio e um corte de cenas desse nunca esteve em nossos pensamentos mais cruéis. Amanda poderia ter testado o carro no dia seguinte, a chuva poderia ter parado de cair horas antes e ela poderia não ter bebido tanto. Se é que a bebida foi vilã da história. Ela mal saiu com o carro e deslizou para cima do muro. Não me faz bem lembrar.

Eu me lembro de muitas lágrimas, algum comentário infeliz sobre a vida de Amanda, pelas posses e status social. E tento me esquecer dos pais calados, ainda em choque, perante o adeus forçado e o estado físico em que Lucas ficou e os delírios que ainda conto aqui durante as noites em que ele ainda não consegue dormir sem observação.

Uma semana depois do fatídico dia e Lucas ainda repete o nome dela entre um sono e outro. Em outros tempos, eu mudaria de apartamento e pronto, e amaldiçoaria a hora em que quisemos ser adultos e dividir apartamento a custas da mesada gorda de nossos pais. Mas alguém tem de ser centrado, não é mesmo? Alguém tem de ser centrado. Gab parece ainda em choque também. E embora estejamos os três debaixo do mesmo teto, pareço o único a tentar buscar o equilíbrio. Gab chorou a morte de Amanda, sozinho. Saiu antes do final da fúnebre cerimônia e já falara duas vezes em voltar à casa dos pais.

– O Lucas precisa de ajuda. – eu insistia.

– Eu preciso de ajuda.

– Como assim?

– Amanda não vai cicatrizar de uma hora para outra em nenhum de nós.

Enigmas ou aquilo que eu enxergava bem em minha frente?

(Continua)

David Felipe

 

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