Se se morre de amor – Capítulo II

Capítulo II

– Eu preciso de ajuda, eu preciso de ajuda…

Lucas com a mão ensangüentada, pingando em cima de mim, com a respiração rápida e ofegante. A maneira mais tranqüila de acordar no meio da madrugada de sexta para sábado.

– O que você fez? Tem que estancar isso…

Sem muito que pensar, enrolei a mão de Lucas numa toalha de rosto, bati no quarto do Gab e corremos para o hospital. Essa hora agradecendo pelo convênio médico, a mesada gorda, o cartão de crédito adicional e a lembrança breve de alguns pontos das aulas de pronto-socorros da escola ou:

– Você está assistindo muito reprise de E.R., Fê. Está louco!

– Reprise de E.R.? Eu queria era estar vendo meu travesseiro bem de perto essa hora. O Lucas…

– Tem paciência. Você não sabe de nada…

– E ele, sabe?

– Você não sente igual. Certo, está sendo o melhor amigo do mundo, mas nunca vai sentir como ele, como…

– …como você?

– Esquece isso. Como será que ele está?

(…)

Questionado no hospital sobre o ocorrido, Lucas deu a seguinte explicação:

– Eu tentava alcançar um copo na pia, e a falta de luz me atrapalhou. Foi isso, sem mais.

– E você ainda quer que eu e o Gab fiquemos de boa com essa explicação? Todo mundo viu o canivete do lado da sua cama.

– Desconta essa, Fê. O Lucas está bem agora. Já está tudo certo, afinal. Uma semana cuidando bem do curativo… Pontos pequenos que vão cicatrizar logo esse talho que ele fez no pulso.

– Eu posso ficar na minha agora, tio Fernando? – retrucou-me Lucas.

– Pode, o tio Fernando ainda vai estar aqui se você resolver brincar com objetos cortantes de novo – fechei o cenho e me joguei no sofá para zapear os canais fechados. Duas horas de hospital, uma explicação estapafúrdia. Lucas foi para o quarto sem qualquer outra explicação, fungando alto como de costume, pela rinite e algum pranto ainda contido.

– Eu nunca tive tendências suicidas. Pode ficar tranqüilo quanto a mim, Fernando.

– E eu nunca achei que você fosse de humor negro em situações assim, Gab. Está aprendendo isso na engenharia?

– Não, engenharia não deixa espaços para nenhum humor no segundo ano.

– Isso está mais é parecendo papo de louco.

– Papo de louco? Normal, quem não estaria? Bem, de repente você que não…

– Eu não…

– Amanda era só uma amiga para você e as garotas, não é mesmo?

– Para você, não? … É isso! As ausências durante o ano passado. A viagem de última hora para Miami. E ainda acreditamos. Seu pai não te negaria uma passagem para Londres depois de ter topado seguir engenharia sem nem pestanejar, negaria? Um revival adolescente! Você foi ver a Amanda, foi isso?

Um silêncio positivo. Uma não resposta que dizia muito.

– Eu nunca disse que deixei de gostar e nem ela fez isso.

– Mas e a amizade? O companheirismo?

– Não muda nada. Você não entende. E por esses tempos já não rolava mais. Ela, o Lucas, era real. Só que isso não quer dizer que eu pudesse esquecer. Você não fala tanto em ser sensato? É o me jeito de ser sensato. Ficar na minha, tentar conviver sem sobressaltos. Fui até lá, ficamos e ela disse que eu fosse embora, que não rolaria mais depois daquele dia. E ao fim, aquela declaração de amor bêbada para o Lucas no fim da festa.

– Bêbada? Não era só um pouco de champanhe?

– E você acreditou?

– Eu acreditei em vocês.

– Estava aí, Lucas?

Pior que o lugar comum de qualquer novela, os dois se atracaram acabando com a mesa do telefone que meus pais haviam levado para o apartamento fazia dois meses. Salvei meu note, que fechei no susto, antes de saírem atropelando o sofá da sala.

– Parou!

Num momento de cansaço e distração dos dois, impedi-os de se atacarem novamente com os braços abertos no meio da sala e empurrando-os o peito.

– É criança agora. Vou ter que botar cada um dum lado para olhar a parede? Já aviso logo que se tiver reclamação, a multa do condomínio fica por conta de vocês.

Lucas, o mais ansioso, tentava driblar-me:

– Parou, louco. Não basta o pulso com curativo, não? Vai descansar essa cabeça no seu quarto. E Gabriel, melhor você…

– Eu vou sair para comer alguma coisa.

E ele ainda conseguia ter fome, depois de alguns roxos no rosto e a gola da camiseta desgrenhada.

– Você vai sair.

– Fica de boa, Fernando.

– Vocês…

– Eu preciso sair daqui, ficar na minha. Respeite.

Zapear os canais fechados, separar o telefone da moça da limpeza para fazer um extra na segunda-feira e tentar entender o coração dos outros. Não era bem isso que um pretenso jornalista investigativo poderia querer, mas o que tinha para o dia.

– Pode repassar meu VIP.  Fim de semana já está animado por aqui, Malu.

Aquilo que eu enxergava bem em minha frente não deixava atmosfera para qualquer diversão.

(Continua)

David Felipe

Se se morre de amor – Capítulo I

Se se morre de amor

Capítulo I

– Um último brinde ao dia de hoje, ao namorado mais lindo do mundo. À festa que papai e mamãe me proporcionaram. Ah, e claro, obrigada a todos os meus amigos, Gab, Lú, Martinha, Fernando e claro, de novo, ao mais que meu amigo, Lucas, meu namorado lindo!

Todos ergueram suas taças de champanhe e vinte minutos mais tarde Amanda morreu. Um acidente bobo, um deslize fatal, uma coisa até agora sem explicação e que tirou o juízo de Lucas instantes seguintes após o ocorrido. Era só um teste do carro novo, presente do aniversário de dezenove anos. Até agora posso ouvir os gritos ensurdecedores de Lucas à porta da garagem e o modo como se feriu com as mãos, esfregando o rosto com força.

Lú, Martinha, eu, todos sem ter o que falar para confortar os tios e o nosso amigo. Os pais de Amanda recebiam a filha de volta após uma temporada de intercâmbio e Lucas recebia o sim ao pedido de namoro feito um ano antes. Era o cenário perfeito para o início de uma passageira que fosse, história de amor. Mas não.

– O que eu faço agora? Responde, por favor, Fê. Eu não vou conseguir, eu não vou conseguir, eu morro…

E Lucas desabando a chorar apoiado em meus braços e eu represando qualquer lamento que pudesse sair de meus olhos, forte por ele, pelas meninas que não conseguiam nem sequer consolar a si mesmas.

A pior cena que eu poderia presenciar na vida. E totalmente impotente perante o desconhecido. Para mim era também uma primeira experiência de morte. Eu não dizia “vai passar”, eu não tinha palavras. Eu tinha, simplesmente, meus ombros, meu desespero contido diante da amizade necessária.

Estudáramos todos durante pelo menos dez anos no mesmo colégio e um corte de cenas desse nunca esteve em nossos pensamentos mais cruéis. Amanda poderia ter testado o carro no dia seguinte, a chuva poderia ter parado de cair horas antes e ela poderia não ter bebido tanto. Se é que a bebida foi vilã da história. Ela mal saiu com o carro e deslizou para cima do muro. Não me faz bem lembrar.

Eu me lembro de muitas lágrimas, algum comentário infeliz sobre a vida de Amanda, pelas posses e status social. E tento me esquecer dos pais calados, ainda em choque, perante o adeus forçado e o estado físico em que Lucas ficou e os delírios que ainda conto aqui durante as noites em que ele ainda não consegue dormir sem observação.

Uma semana depois do fatídico dia e Lucas ainda repete o nome dela entre um sono e outro. Em outros tempos, eu mudaria de apartamento e pronto, e amaldiçoaria a hora em que quisemos ser adultos e dividir apartamento a custas da mesada gorda de nossos pais. Mas alguém tem de ser centrado, não é mesmo? Alguém tem de ser centrado. Gab parece ainda em choque também. E embora estejamos os três debaixo do mesmo teto, pareço o único a tentar buscar o equilíbrio. Gab chorou a morte de Amanda, sozinho. Saiu antes do final da fúnebre cerimônia e já falara duas vezes em voltar à casa dos pais.

– O Lucas precisa de ajuda. – eu insistia.

– Eu preciso de ajuda.

– Como assim?

– Amanda não vai cicatrizar de uma hora para outra em nenhum de nós.

Enigmas ou aquilo que eu enxergava bem em minha frente?

(Continua)

David Felipe