REVANCHE – 7. Relato de um homem de bom coração

7- Relato de um homem de bom coração

Nem todos os dias eu poderia estar com virose, embora esse seja um mal comum nos famosos dias atuais de modernidades, amenidades e “bom-caratismo”. Então, as minhas baladas ficaram para as noites mais comportadas de sextas-feiras e os sábados tão bem apropriados para o lazer. Até eu rio de mim mesmo, ao pensar assim. Se bem que de caretice a boemia, seria um passo muito largo para pernas não tão longas.

Para quem sempre esperou por saídas criativas e expressões persuasivas de textos por horas estudados antes do ponto final de um projeto, a tia mais velha diria que estou saindo pior que a encomenda, e eu concordaria, com uma gargalhada leve. Talvez eu esteja cansando das repetidas sextas de bar, balada, quarto de hotel e fácil diversão. A bebida eu deixo de lado, porque a ressaca só atrapalha a lembrança do lazer e a lembrança de Tarsila colada à imagem do casal feliz à australiana. Certo de que me contradigo, me jogo na cama e me esqueço um pouco de mim, de nós, do que pensei sonhar e recuo do pagode vespertino do domingo:

– Não, Pedro, sem chances por hoje… Ressaca? Não sei o nome disso, não – e rio – Fica para a próxima sexta. Mas diga que ela não se esqueça de mim.

E realmente, sinto-me lisonjeado pela nova morena que guardou meu nome por mais de quinze dias. Isso pode ser uma vitória, por tempos em que tento evitar o transbordamento de relatos tristes. Eu tento, juro por minhas palavras certeiras das campanhas vitoriosas do último semestre, juro que tentarei novas mais festivas. Não juro pelas minhas poesias, pois essas parecem ter perdido seu valor na bolsa de valores do novo Vicente, que ainda não ressurgiu das cinzas. Pausa dramática, engulo o último mililitro de iogurte da embalagem e tiro a casquinha do canto do olho mal lavado há minutos atrás.

Custo alguns segundos a crer que recusei o pagode por ter me lembrado de vocês por hoje. Sim, lembro dela no plural, pois ela não é mais singular. E não pense que isso é um pleonasmo óbvio. Ainda que eu soubesse de “Tarsila-Andrew”, não acreditei até o dia do fatídico matrimônio.

Eu queria ser maia maduro e passar adiante, mas três meses depois do ocorrido, ainda sinto esse eco pesado em meus ouvidos. Eu queria soar tranqüilo e não ter palavras para dizer, eu queria não sentir, eu queria tanta coisa e a razão me diz que não.

Eu quero ter mais “sim” e talvez mais pecados a pagar. Porque quero aprender a errar sem peso na consciência e ter mazelas simples para consertos diários dum homem comum.

 

“Eu já perdi, eu já sofri demais

Eu parti, joguei tudo pra trás

Eu vou fugir pra bem longe daqui

Vou caminhar, e ninguém vai me seguir” (Lucas Silveira/Rodrigo Tavares)

 

Eu vou limpar os olhos e tentar voltar a ver as coisas como elas simplesmente são.

 (Continua)

David Felipe

 

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