REVANCHE- 6. Eu sei

6-Eu sei

Se o jogo fosse o contrário, eu ansiaria pelos dias riscados no calendário para poder te ver de novo. E é só mais uma divagação, dum mancebo tentando achar cores bonitas na falta de luz. E isso é tão melancólico e desnecessário, quando penso que os planos já foram concretizados e sem reservas que me bonifiquem.

De certo, tenho buscado o envolvimento em quase todas as etapas dos projetos no estúdio, desde a avaliação da proposição do cliente a finalização da arte de cada peça aprovada na reunião entre gerência e diretoria. Ainda que minha área se concentre apenas no desenvolvimento do conteúdo textual das campanhas.

Se não fosse meu excesso de juízo, teria gastado todo o salário recebido hoje com propostas de diversão fácil e com hora certa para acabar. Ok, todo não. Parte do salário, certamente, pois pelo menos não haveria o risco do envolvimento. Não me disponho em dedicar o que concebi como preciosos sentimentos a outra que venha a partir. E eu percebo novamente o caráter dúbio da situação, entre o melancólico e o desnecessário.

E se eu me permitir lançar-me ao que a noite oferece, sem preocupações e achismos filosóficos? Uma balada numa quinta-feira não faria mal a ninguém, quanto mais a mim. Mudando de valores ou conceitos? Não. Mudando as idéias para a noite. Retornar as chamadas perdidas do celular:

-Pedro?

-Fala, Vicente! Resolveu juntar-se aos bons?

-Mal não fará – e rio-me.

-Começando pelo centro e terminando para onde a noite levar. Tranqüilo?

-Fechado.        

Pedro era tido como o caminho certo para a diversão. Desde a faculdade, acostumei-me a consultá-lo para saber do bar certo para o sábado à noite ou para qualquer outro dia da semana que fosse. Eu só estranhava o porquê de ele mesmo não abrir sua própria casa na noite paulistana, com o dinheiro que já tinha pela herança de pai empresário do setor imobiliário e o alto know-how do negócio do entretenimento. E ele sempre respondia:

-Nada como variar!

E assim ele seguia, com sua própria agência publicitária e na companhia variada das mulheres da noite que cruzamos como moças de alta classe à luz do dia. Não vi até ali melhor opção para deixar o spleen de lado e optar pela diversão.

Quase meia-noite e eu na maior animação numa quinta-feira com reunião cedo no dia seguinte. Todavia, se vive hoje, não se reclama depois. Partindo para uma balada selecionada entre o Centro e os Jardins, pagando três dígitos de entrada e consumindo metade, para conhecer as novas descoladas da classe média junto aos amigos dos tempos de faculdade como o Pedro. O velho amigo, pela alta freqüência na noite da cidade, facilmente me enturmaria ao grupo mais endinheirado e me indicaria as moças de diversão fácil dentre as convivas, para esticar numa house party ou no velho apartamento do solteiro carente. Rindo de louco, ou de nervoso. E nessa noite, eu não me reservaria o direito de não beber.

-Mais uma dose de vodka, por favor.

Música eletrônica invadindo os ouvidos e liberando meus movimentos desordenados que compreendo como dança sem compromisso. Não chego a fazer vergonha, mas não impressiono. A questão, porém, era impressionar de outras maneiras. E se é amigo de Pedro A. (sim, ele nunca dizia seu sobrenome todo), sua noite pode ter suas bonificações.

Dois minutos depois de ter sido apresentado por Pedro, à morena que nunca imaginaria atenta a mim, sem muitas palavras, tenho o primeiro beijo da noite como uma introdução aos acontecimentos, aos quais não serei capaz de descrever em detalhes. Ainda mais para sóbrio, dentro de quase o meu juízo perfeito saio com a morena para a casa de Pedro, num comboio para a diversão. A house party de última hora seria na casa do velho amigo.

Estacionamos os carros nas redondezas do jardim e nos próximos momentos começa a fase do perder: os sapatos logo de cara para o mergulho na piscina junto aos novos já velhos camaradas, os botões da camisa nos instantes seguintes ao abraço empolgado à morena, logo mais a ligeira timidez e o juízo.

(…)

Acordo com os olhos arregalados. Não vejo, mas posso sentir. As embalagens rasgadas pelo chão mostram que ao menos, preocupei-me com prevenção. A morena me puxa de volta para um beijo a mais e eu corro para checar as horas ao celular. Certamente, não chegarei a tempo da reunião no trabalho:

-Quanto eu lhe de…

A morena não me deixa terminar:

-Não me ofenda, garoto.

Wow!

Decido por insistir no rompante juvenil, irresponsável e volto às sensações da noite, como quem chuta o balde sem qualquer arranhão posterior.

Enfim, no caminho de casa, mando um SMS à diretoria e alego uma virose. E de fato, acabo por ressentir-me com dor de cabeça, algum vômito e uma sensação de estômago vazio. Resultado de virose? Bem, resultado do álcool e da noite de diversão. Talvez três doses já tenham prejudicado este que nunca bebe.

-Fala, Vicente! Divertiu-se? – telefona Pedro para saber do saldo da noite.

Não posso dizer que não. Recuso o convite para a balada do dia, porém peço que não me esqueça nas próximas. Devo passar às próximas sem álcool, decido.

E quando fecho a chamada, o ícone de novas mensagens pisca na tela do aparelho. Uma foto do matrimônio de Andrew e Tarsila, diretamente da terra dos cangurus.

 

“Às vezes fico com saudades de momentos que eu ainda não vivi

Às vezes peco na vontade de sentimentos que eu ainda não senti” (Lucas Silveira)

 

Eu sei.

(Continua)

David Felipe

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