REVANCHE – 5. Nesse lugar

5-Nesse lugar

“E o que fazer?

Se o plano não funcionar?

Se a caminhada é em vão

Quem é que vai me guiar, andando na escuridão?

Não posso mais esperar…” (Lucas Silveira/Rodrigo Tavares)

 

Sabe qual a melhor parte de morar sozinho? Não ter medo de tentar pôr algum plano em prática. A pior? Pagar as contas. Sim, pagar as contas e não ter com quem dividir seus planos. Na verdade, nessa estupenda noite de sábado zapeando na TV e esquentando um lanche pronto no microondas, pensei que por algum tempo, indevidamente, meus planos sempre me levaram à você. Você que tem nome de artista famosa e está a quilômetros de distância. Tarsila, você até sabe que habitou meus sonhos e nem demonstrou, por eu já saber.

Eu, com certeza, deveria ter aceitado sair com o pessoal do estúdio, sem pestanejar. Contudo, preferi não ver nada que me remetesse a eles, o casal feliz, neste fim de semana. Para que?  Não adiantou. Porque eu deixei que os torpes e maus pensamentos tomassem o meu refúgio, por agora.

Eu tenho é que me esquecer em meu próprio mundo, onde você não se esquiva de meus beijos e a lua brilha no momento certo em que tilintamos nossas taças num brinde. Nesse lugar, eu tomo pró-seco sem a busca de abrandar as marcas de expressão pesadas duma carranca indesejável, mas em nome daquilo que chamo de amor. E sei que neste instante, uso a expressão do refrão de alguma música popular brasileira, e sem medo de ser feliz.

Por momentos que eu queria que fossem eternos, eu sei dançar todos os ritmos que você comenta gostar e te conduzo com tal leveza que parece voar entre meus braços. Embriagado, fazendo poesia com os pés no chão e sem frio. E é só abrir os olhos e deparar-me com meus olhos vis de alguma inveja e cobiça. “Atentando para o descumprimento de um dos principais mandamentos”, diria a tia mais carola ou encorajar-me-ia o amigo mais fiel e sem noção: “Corra atrás da guria”. E eu, sem ter planos de sucesso, fico sem um norte outra vez.

Eu acordo de minha divagação com o apito do microondas, o cheiro do queijo derretendo e uma pisada num dos cacos de vidro que ainda sobraram do peso de mesa. Coisas de morar sozinho e não ter tanta organização. Coisas de se querer o mundo e não poder se prender ao ideal de mundo em que construiu, acho que mal, um modelo de felicidade.

Se ela estivesse aqui, talvez qualquer constelação à vista fosse traduzida como as mais belas estrelas no céu.

(Continua)

David Felipe

 

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