REVANCHE – 8. Quando crescer

8-Quando crescer

O que você vai ser quando crescer?

E você responde: um médico, um advogado, um publicitário (como eu sou), um dentista… Mas você nunca diz: eu serei feliz e ponto. Certeza ninguém tem, contudo poderia ser este um planejamento interessante. Eu queria ter sabido da idéia de ser feliz ao teu lado, mas eu só queria, porque eu não posso mais.

Eu tenho vontade de socar as paredes toda vez que ainda acordo morto de fome e só de pensar em ti, a azia passa a me consumir. Não tenho mais como guardar ilusões de um amor que não tive e me sinto mais que patético por isso, afinal, há algumas horas atrás estava eu me divertindo na pista de dança entre alguns copos de vodka e alguns beijos que não resultaram em visita ao apartamento do solteiro aprendiz da boemia. Ah, eu falo besteira para quem não vai ouvir. Pieguice à toa, palavras à toa.

Às vezes eu tenho vontade de voltar à pergunta do início e dizer “eu ainda não pretendo crescer”. Não, não é síndrome de Peter Pan ou algo parecido. Que seja… Só sei que ter uma cadeira vazia na hora de qualquer refeição do dia não é resultado de qualquer planejamento e sim, resultado de que meus planos não saíram do papel. É quando eu torço para que ele cozinhe para você de vez em quando e te sirva da melhor maneira da entrada ao prato principal e não se esqueça de que apesar do discurso light, a princesa gosta de sobremesas que saiam de sua rotina algumas vezes no mês, só para dizer que está gorda e ouvir você dizer que ela fala demais, que é linda de qualquer maneira, porque é sua de modo especial.

Eu penso que eu poderia escolher não ter mais momentos de spleen dos românticos. Ah, eu sei que eu só queria, mas eu nem sei mais como é você. E não sei dizer se o amor venceu, e deveria é parar de me torturar.

Conformismo? Otimismo? Redenção? A fênix ainda não ressurgiu das cinzas.

Lavar os olhos, tomar meu café. As palavras persuasivas ainda brotam para a construção de meu trabalho.

 

“Eu sou o que eu queria ser quando crescer

E eu me enxergo em todo lugar, exceto aonde você está

O mundo ao meu redor é estranho, agora que eu já não te tenho mais

Eu só queria…mas eu nem sei mais” (Lucas Silveira)

 (Continua)

David Felipe

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REVANCHE – 7. Relato de um homem de bom coração

7- Relato de um homem de bom coração

Nem todos os dias eu poderia estar com virose, embora esse seja um mal comum nos famosos dias atuais de modernidades, amenidades e “bom-caratismo”. Então, as minhas baladas ficaram para as noites mais comportadas de sextas-feiras e os sábados tão bem apropriados para o lazer. Até eu rio de mim mesmo, ao pensar assim. Se bem que de caretice a boemia, seria um passo muito largo para pernas não tão longas.

Para quem sempre esperou por saídas criativas e expressões persuasivas de textos por horas estudados antes do ponto final de um projeto, a tia mais velha diria que estou saindo pior que a encomenda, e eu concordaria, com uma gargalhada leve. Talvez eu esteja cansando das repetidas sextas de bar, balada, quarto de hotel e fácil diversão. A bebida eu deixo de lado, porque a ressaca só atrapalha a lembrança do lazer e a lembrança de Tarsila colada à imagem do casal feliz à australiana. Certo de que me contradigo, me jogo na cama e me esqueço um pouco de mim, de nós, do que pensei sonhar e recuo do pagode vespertino do domingo:

– Não, Pedro, sem chances por hoje… Ressaca? Não sei o nome disso, não – e rio – Fica para a próxima sexta. Mas diga que ela não se esqueça de mim.

E realmente, sinto-me lisonjeado pela nova morena que guardou meu nome por mais de quinze dias. Isso pode ser uma vitória, por tempos em que tento evitar o transbordamento de relatos tristes. Eu tento, juro por minhas palavras certeiras das campanhas vitoriosas do último semestre, juro que tentarei novas mais festivas. Não juro pelas minhas poesias, pois essas parecem ter perdido seu valor na bolsa de valores do novo Vicente, que ainda não ressurgiu das cinzas. Pausa dramática, engulo o último mililitro de iogurte da embalagem e tiro a casquinha do canto do olho mal lavado há minutos atrás.

Custo alguns segundos a crer que recusei o pagode por ter me lembrado de vocês por hoje. Sim, lembro dela no plural, pois ela não é mais singular. E não pense que isso é um pleonasmo óbvio. Ainda que eu soubesse de “Tarsila-Andrew”, não acreditei até o dia do fatídico matrimônio.

Eu queria ser maia maduro e passar adiante, mas três meses depois do ocorrido, ainda sinto esse eco pesado em meus ouvidos. Eu queria soar tranqüilo e não ter palavras para dizer, eu queria não sentir, eu queria tanta coisa e a razão me diz que não.

Eu quero ter mais “sim” e talvez mais pecados a pagar. Porque quero aprender a errar sem peso na consciência e ter mazelas simples para consertos diários dum homem comum.

 

“Eu já perdi, eu já sofri demais

Eu parti, joguei tudo pra trás

Eu vou fugir pra bem longe daqui

Vou caminhar, e ninguém vai me seguir” (Lucas Silveira/Rodrigo Tavares)

 

Eu vou limpar os olhos e tentar voltar a ver as coisas como elas simplesmente são.

 (Continua)

David Felipe

 

REVANCHE- 6. Eu sei

6-Eu sei

Se o jogo fosse o contrário, eu ansiaria pelos dias riscados no calendário para poder te ver de novo. E é só mais uma divagação, dum mancebo tentando achar cores bonitas na falta de luz. E isso é tão melancólico e desnecessário, quando penso que os planos já foram concretizados e sem reservas que me bonifiquem.

De certo, tenho buscado o envolvimento em quase todas as etapas dos projetos no estúdio, desde a avaliação da proposição do cliente a finalização da arte de cada peça aprovada na reunião entre gerência e diretoria. Ainda que minha área se concentre apenas no desenvolvimento do conteúdo textual das campanhas.

Se não fosse meu excesso de juízo, teria gastado todo o salário recebido hoje com propostas de diversão fácil e com hora certa para acabar. Ok, todo não. Parte do salário, certamente, pois pelo menos não haveria o risco do envolvimento. Não me disponho em dedicar o que concebi como preciosos sentimentos a outra que venha a partir. E eu percebo novamente o caráter dúbio da situação, entre o melancólico e o desnecessário.

E se eu me permitir lançar-me ao que a noite oferece, sem preocupações e achismos filosóficos? Uma balada numa quinta-feira não faria mal a ninguém, quanto mais a mim. Mudando de valores ou conceitos? Não. Mudando as idéias para a noite. Retornar as chamadas perdidas do celular:

-Pedro?

-Fala, Vicente! Resolveu juntar-se aos bons?

-Mal não fará – e rio-me.

-Começando pelo centro e terminando para onde a noite levar. Tranqüilo?

-Fechado.        

Pedro era tido como o caminho certo para a diversão. Desde a faculdade, acostumei-me a consultá-lo para saber do bar certo para o sábado à noite ou para qualquer outro dia da semana que fosse. Eu só estranhava o porquê de ele mesmo não abrir sua própria casa na noite paulistana, com o dinheiro que já tinha pela herança de pai empresário do setor imobiliário e o alto know-how do negócio do entretenimento. E ele sempre respondia:

-Nada como variar!

E assim ele seguia, com sua própria agência publicitária e na companhia variada das mulheres da noite que cruzamos como moças de alta classe à luz do dia. Não vi até ali melhor opção para deixar o spleen de lado e optar pela diversão.

Quase meia-noite e eu na maior animação numa quinta-feira com reunião cedo no dia seguinte. Todavia, se vive hoje, não se reclama depois. Partindo para uma balada selecionada entre o Centro e os Jardins, pagando três dígitos de entrada e consumindo metade, para conhecer as novas descoladas da classe média junto aos amigos dos tempos de faculdade como o Pedro. O velho amigo, pela alta freqüência na noite da cidade, facilmente me enturmaria ao grupo mais endinheirado e me indicaria as moças de diversão fácil dentre as convivas, para esticar numa house party ou no velho apartamento do solteiro carente. Rindo de louco, ou de nervoso. E nessa noite, eu não me reservaria o direito de não beber.

-Mais uma dose de vodka, por favor.

Música eletrônica invadindo os ouvidos e liberando meus movimentos desordenados que compreendo como dança sem compromisso. Não chego a fazer vergonha, mas não impressiono. A questão, porém, era impressionar de outras maneiras. E se é amigo de Pedro A. (sim, ele nunca dizia seu sobrenome todo), sua noite pode ter suas bonificações.

Dois minutos depois de ter sido apresentado por Pedro, à morena que nunca imaginaria atenta a mim, sem muitas palavras, tenho o primeiro beijo da noite como uma introdução aos acontecimentos, aos quais não serei capaz de descrever em detalhes. Ainda mais para sóbrio, dentro de quase o meu juízo perfeito saio com a morena para a casa de Pedro, num comboio para a diversão. A house party de última hora seria na casa do velho amigo.

Estacionamos os carros nas redondezas do jardim e nos próximos momentos começa a fase do perder: os sapatos logo de cara para o mergulho na piscina junto aos novos já velhos camaradas, os botões da camisa nos instantes seguintes ao abraço empolgado à morena, logo mais a ligeira timidez e o juízo.

(…)

Acordo com os olhos arregalados. Não vejo, mas posso sentir. As embalagens rasgadas pelo chão mostram que ao menos, preocupei-me com prevenção. A morena me puxa de volta para um beijo a mais e eu corro para checar as horas ao celular. Certamente, não chegarei a tempo da reunião no trabalho:

-Quanto eu lhe de…

A morena não me deixa terminar:

-Não me ofenda, garoto.

Wow!

Decido por insistir no rompante juvenil, irresponsável e volto às sensações da noite, como quem chuta o balde sem qualquer arranhão posterior.

Enfim, no caminho de casa, mando um SMS à diretoria e alego uma virose. E de fato, acabo por ressentir-me com dor de cabeça, algum vômito e uma sensação de estômago vazio. Resultado de virose? Bem, resultado do álcool e da noite de diversão. Talvez três doses já tenham prejudicado este que nunca bebe.

-Fala, Vicente! Divertiu-se? – telefona Pedro para saber do saldo da noite.

Não posso dizer que não. Recuso o convite para a balada do dia, porém peço que não me esqueça nas próximas. Devo passar às próximas sem álcool, decido.

E quando fecho a chamada, o ícone de novas mensagens pisca na tela do aparelho. Uma foto do matrimônio de Andrew e Tarsila, diretamente da terra dos cangurus.

 

“Às vezes fico com saudades de momentos que eu ainda não vivi

Às vezes peco na vontade de sentimentos que eu ainda não senti” (Lucas Silveira)

 

Eu sei.

(Continua)

David Felipe

REVANCHE – 5. Nesse lugar

5-Nesse lugar

“E o que fazer?

Se o plano não funcionar?

Se a caminhada é em vão

Quem é que vai me guiar, andando na escuridão?

Não posso mais esperar…” (Lucas Silveira/Rodrigo Tavares)

 

Sabe qual a melhor parte de morar sozinho? Não ter medo de tentar pôr algum plano em prática. A pior? Pagar as contas. Sim, pagar as contas e não ter com quem dividir seus planos. Na verdade, nessa estupenda noite de sábado zapeando na TV e esquentando um lanche pronto no microondas, pensei que por algum tempo, indevidamente, meus planos sempre me levaram à você. Você que tem nome de artista famosa e está a quilômetros de distância. Tarsila, você até sabe que habitou meus sonhos e nem demonstrou, por eu já saber.

Eu, com certeza, deveria ter aceitado sair com o pessoal do estúdio, sem pestanejar. Contudo, preferi não ver nada que me remetesse a eles, o casal feliz, neste fim de semana. Para que?  Não adiantou. Porque eu deixei que os torpes e maus pensamentos tomassem o meu refúgio, por agora.

Eu tenho é que me esquecer em meu próprio mundo, onde você não se esquiva de meus beijos e a lua brilha no momento certo em que tilintamos nossas taças num brinde. Nesse lugar, eu tomo pró-seco sem a busca de abrandar as marcas de expressão pesadas duma carranca indesejável, mas em nome daquilo que chamo de amor. E sei que neste instante, uso a expressão do refrão de alguma música popular brasileira, e sem medo de ser feliz.

Por momentos que eu queria que fossem eternos, eu sei dançar todos os ritmos que você comenta gostar e te conduzo com tal leveza que parece voar entre meus braços. Embriagado, fazendo poesia com os pés no chão e sem frio. E é só abrir os olhos e deparar-me com meus olhos vis de alguma inveja e cobiça. “Atentando para o descumprimento de um dos principais mandamentos”, diria a tia mais carola ou encorajar-me-ia o amigo mais fiel e sem noção: “Corra atrás da guria”. E eu, sem ter planos de sucesso, fico sem um norte outra vez.

Eu acordo de minha divagação com o apito do microondas, o cheiro do queijo derretendo e uma pisada num dos cacos de vidro que ainda sobraram do peso de mesa. Coisas de morar sozinho e não ter tanta organização. Coisas de se querer o mundo e não poder se prender ao ideal de mundo em que construiu, acho que mal, um modelo de felicidade.

Se ela estivesse aqui, talvez qualquer constelação à vista fosse traduzida como as mais belas estrelas no céu.

(Continua)

David Felipe