REVANCHE – 3. Esteja aqui

REVANCHE

3-Esteja aqui

O dia seguinte poderia ser de ressaca, porém não ingeri nada de álcool que me mantivesse embriagado o suficiente para esquecer de que o que houve por enquanto, não tem volta. E me repreendo, no mesmo segundo, pelo “por enquanto” que nem deveria ser cogitado por mim. Encarar como fato, sem volta e sem outras interpretações.

Sorte a minha ter baixado a temperatura durante a madrugada e o edredom não ter sido excesso para o meu sono confortável da noite, nem desculpa para me esconder e ficar até mais tarde na cama. O frio, o frio deixou-me preguiçoso, sem vontade de fazer nada. É do que tento me convencer, alongando os dedos dos pés em lugar de esticar os braços para fora da cama, num movimento que fosse mais disposto e comum.

Não, minha cabeça não está doendo e não tenho olheiras, pois não bebi, como já percebi pelo rosto refletido no celular – apenas uma olhada para conferir as horas, 11h30min, nada mal. O estômago do tamanho de um elefante talvez me faça levantar da cama para um café. Sim, por incrível que pareça, café disfarça azia, em meu organismo ao menos. Ah, o café. A única maneira de tê-la em minha companhia, no intervalo de um projeto de arte e outro. Almoçar? “Um outro dia, um outro lugar”. Era a frase que eu sempre ouvia, ainda que em tempos de crise e outra do casal. Eu sabia, no fundo, que elas não durariam para sempre. E dizia “O importante é que seja feliz”. E ela assentindo, sorvendo o último gole de café e depositando a xícara sobre o mármore, olhando-me de soslaio. E eu firme, num meio sorriso.

Agora os cangurus pulando serão sua nova inspiração de alegria, júbilo. Ainda não digo felicidade, pois não consigo vê-la a essa maneira. E eu sei que solto algumas palavras sem sentido deste corpo pesado não só pelo sono. Já adianto o ajuste do alarme do celular para a segunda-feira e obrigo-me a pular da cama.

– Bom dia! – eu praticamente esbravejo para o espelho em frente à cama.

(…)

-Bom dia, Vicente!

Na segunda-feira, após umas cinco resenhas criativas sobre o matrimônio dos competentíssimos profissionais da comunicação, Tarsila e Andrew, pauso sozinho para um café e não tenho para quem dizer alguma frase vazia só para levar melhor o dia, o seu dia.

Não posso parar para o tempo. Não posso saltar como um canguru atrás de você. Não fui eu no assento ao lado para distrair-lhe durante uma ligeira turbulência. Mas sim, na primeira afirmativa do período, fui eu que fiquei. E tento lidar com minhas divagações, com as promessas que não pode cumprir por ser minha vontade unilateral.

 

“Esteja aqui, esteja aqui

Mesmo se o mundo te pedir pra não ficar (você vai ficar)

Esteja aqui, esteja aqui

E nunca diga que existe outro lugar (é o meu lugar)

Esteja aqui, esteja aqui, esteja aqui” (Lucas Silveira)

 

Vontade não se concretiza sempre. Bem sei.

(Continua)

David Felipe

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