REVANCHE – 2. Deixa o tempo

REVANCHE

2-Deixa o tempo

Ninguém poderá dizer que é mentira que eu tentei, venho tentando e continuarei nessa batalha de maneira branda ao mundo e em sobressaltos em minha mente. Eu não farei algo que possa lhe machucar, lhes machucar, pois ainda acredito na felicidade. Entrei numa batalha perdida, eu sei. E por bem, todos a desconhecem. Minha mente vira de ponta-cabeça em verborragia e ainda consigo fazer mesuras naturais.

Contudo, hoje não conseguirei descer do carro. Eu sei que me enviaste o convite, assim como aos colegas, por cumprimento de formalidade. É a despedida de vocês para a nova vida e eu seria o mais mentiroso do mundo se fizesse minha cara de que está tudo bem. Nesse momento seria impossível, pois não sou forte o bastante. Estou na porta do que para mim são bodas inclassificáveis, não por considerá-la uma festividade baixa em caráter, e sim por nunca ter ficado à vontade com o que o “sim” de cada qual os elevará em patamar de sociedade.

Transferência para a Austrália. Eu nunca pensei nisso como uma libertação, e talvez o seja. Assim longe, serei mais forte para superar a falta do que nunca foi meu. E é tão contraditório, porque soube dizer os parabéns quando da promoção do casal e não sei dizer boa sorte para a nova fase de vida. Sim, eu também falo nas entrelinhas. Nem penses em me repreender por em pouco espaço de tempo me contradizer.

Nem uma dúzia de taças de pró-seco abrandaria o peso de meu cenho esta noite:

-Vai parar, senhor? Ainda temos vaga no estacionamento em frente ao salão, mais próximo e…

-Como?

-O carro, senhor?

-Desculpe. Mudança de planos. Boa noite. – subo o vidro do carro e sigo, ainda a tempo de vê-la surgir da clássica limusine preta com seu vestido branco, de ombros à mostra e uma emoção contida. Ela olha para trás, apenas para checar a calda do vestido e não me vê. Eu olho para frente para não errar a saída para a via expressa. Dirijo por alguns minutos até achar um bar mais tranqüilo, tarefa nada fácil para uma São Paulo num sábado à noite.

O celular indica umas cinco chamadas dos colegas do escritório. Mentes criativas podem ser um tanto insistentes:

“Vicente, a festa já começou”

“Vem pra festa, Vicente”

 “Tomarei a taça de pró-seco em seu lugar”

“Venha para o brainstorming festivo”

 “Tarsila e Andrew sentirão sua falta”

Eu não sentiria minha falta, concluo. E tenho inveja por um breve momento. Andrew é um nome mais do que adequado para um país falante de língua inglesa. Tranqüilo para uma vida à australiana. E rio sozinho, por um breve instante, antes de mais um gole de suco de limão. Nada mais torpe e mesquinho para a noite. Então, peço um hambúrguer com bacon para poder gerar o percentual do serviço numa comanda maior. Desisti do bar, passei ao junk food e ainda tento um pouco de senso de humor, um de meus fracos.

Barriga cheia, cabeça cheia. Pagar a conta, pegar o carro e rumo casa. O celular já está desligado há uns minutos e sinto ainda pela grana gasta com a lavanderia no trato do traje especial da noite. Dinheiro gasto sabendo que eu não conseguiria fazer.

Chegando em casa, eu só quero me jogar na cama e ouvir algo que não me bote para cima, pois essa definitivamente, não seria a melhor estratégia para digerir mais do que o hambúrguer e o suco de limão. Eu sei que segunda-feira, todos comentarão sobre a partida, a festa, a dúzia de caipirinhas que o estagiário novo do estúdio bebeu e se soltou para se aproximar da secretária da diretora de marketing, eu sei de tudo em que eu queria apenas não pensar. Queria eu ter seu olhar blasé para as próximas segundas-feiras. Queria eu não ter de pensar em você. Esperando as horas passarem, formarem dias e eu saber estar sem rimas e sem a sua companhia. Por mais que nunca tenha havido “nós”, ainda ressinto-me:

 

“Então deixa que o tempo vai cicatrizar

Ele te trouxe até aqui, mas pode te fazer mudar

Então deixa que o tempo vai

Gravar a tua voz em mim

Pra que eu possa te ouvir toda vez que eu precisar” (Lucas Silveira/Rodrigo Tavares)

(Continua)

David Felipe

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