Amor Debaixo D’Água – Capítulo 12

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 12

É incrível a sensação de não precisar dizer mais nada e desprender-se. Assim como quem se sente extasiado por usar a droga da vez, é como eu me sinto perto de ti, ainda que eu nunca tenha tido o paladar do psicotrópico da vez. Comparação sem espelhos completos. Eu sempre me extasiei de minhas próprias emoções.

Agora é viver sem olhar tanto para trás. O que me importa é estar do seu lado, sem temores, sem pensar que amanhã eu vou ter que insistir em tentar. Não, eu não insisto mais, eu simplesmente tento. Feliz pelo momento, e não pelas horas do talvez.

O burocrata aqui, não tem mais orgulho de dizer palavras bonitas e só. E tenho prazer em dizer palavras bonitas para a menina dos olhos que me olham de perto e me sorriem sem medo, não por serem meus, e sim por me preencherem de vida. Nesse instante, renasce uma face do poeta, sem que morra o aprendiz de boêmio.

Assumindo, agora, o risco por mim mesmo porque eu já senti doer. Minha filosofia um pouco torta me leva a crer que aprendemos mais quando deixamos nossos passos seguirem, sem receios, sem tantos porquês. A trilha de meus pensamentos pode voar alto a qualquer tempo, e pode me trazer de volta ao chão, em segundos. É quando sinto meus pés descalços chamando-me à realidade e mostrando que um instante frio pode ser pelo frescor de uma paixão renascida pelo tempo. É poético, assumo. Vou arriscar.

As notas doces de Helena agora grudam em minha pele e tê-la nos braços é mais que qualquer coisa boa que eu poderia desejar. Apaixonar-se meia hora de cada vez? E de meia em meia hora se perder? Que esteja aqui. Minha Helena. A artista plástica que traz novas cores para um quadro já iniciado, e em constante acabamento. Consigo até pensar em trilha sonora, por agora. Beeshop na vitrola e ela em minhas mãos. Love Underwater – Amor debaixo d’água:

 

Love Underwater
My head is a projection room
And all I have to do is close my eyes
It keeps me safe from all these other guys
Who just don’t know what’s it like to be me

Well, you’re just like the other girls
Except the fact that I know that you’re not
And I realized what’s like to be in love
For 30 minutes at a time

It feels like making love underwater
Feels like knowing that everything has changed

My house has got no living room
‘Cause it feels like dying every single night
Everytime you take the elevator down
And take away with you the good in me you’ve found

My heart is like an empty room
But that’s just all the furniture we need
That’s everything, it’s written on these walls
And i go on and on and on wondering what’s like

To be making love underwater
Feels like knowing that everything has changed

The only thing that’s changed is a single letter
That time took from your name
Another thing that’s changed is that this time
I’m the only one to blame
The only thing that’s changed in my whole life
Is the one I’m with tonight
It’s the color of her eyes
The only thing that’s changed in my whole life
It’s you

Feels like making love underwater
Feels like knowing that everything will change
Feels like diving on the coldest water
Since I have known you, girl, everything has changed
My life is rearranged

 

FIM

 

Abraço,

David Felipe

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 11

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 11

 

Ela não me diz nada. Helena se lança em meus braços como se continuássemos de onde nunca deveríamos ter parado, com mais sede um do outro. Consigo dizer seu nome após tanto tempo, sem ter os olhos marejando, pesados. E nem por um momento o compromisso com Catarina parece ser fator impeditivo. Não falamos. Agimos e nos confundimos, até quase perder a capacidade de respirarmos sozinhos.

Não, o sangue não volta a minhas mãos e tudo parece fazer sentido. Não há quase, há amor. Eu só acredito porque é inconfundível a sensação de sentir-te de novo, como se fossemos a mesma coisa. Desde o toque em seus cabelos ao cheiro de sua pele, tudo me faz bem e me revigora como quem volta de um exílio impositivo de guerra e se esquece de que um até breve poderia ter sido um último adeus. Você não se esqueceu de como me faz bem, eu me comunico contigo em meus pensamentos, enquanto sufoco a saudade que me deixaste há tempos. Eu vivo, sem quaisquer artifícios.

(…)

Deitados entre o hall e a sala de estar. Extasiado por ter você de novo descansando entre meus braços, como se fora estar em meus braços o melhor refúgio que qualquer bunker. E eu insisto nos termos bélicos, depois de ter parado de lutar e ter resolvido viver, assim simplesmente. Eu devo tudo isso a viver?

– Eu te amo.

Minhas conjecturas interrompidas com a frase tão batida por aí, mas que eu sinto sincera. Respiro fundo e replico:

– Eu te amo, Helena.

Confesso que nesse momento meus olhos estão úmidos, todavia é por júbilo genuíno. E eu te beijo e isso não é pouco. Os crescentes afagos voltam a nos tornar um só. Não devo mais temer por temer, pois você está aqui e é isso o que importa, ainda que eu tenha medo.

– Serei capaz de ficar te olhando e te olhando – e externo meus pensamentos.

– Eu só quero viver de novo – e seu discurso ganha o tom dramático que pensei ser exclusividade minha.

– Nando. Consegui chegar mais cedo… – uma terceira voz ao longe.

A porta destrancada e o começo do fim:

– …Ok, eu não vou pedir qualquer explicação. E eu entendo, por mais estranho que possa parecer. E repito a frase dos folhetins: “Não precisa dizer nada”. Essa deve ser àquela de quem não se fala o nome e é mais do que um quase amor.

Helena procura se esconder no meu abraço, piorando ainda mais a cena:

– Eu… – e nem sei exatamente o que dizer. Eu não… Eu gosto tanto de você, Catarina. Eu não quero…

– Você não me ama, assim como eu não te amo. E a vida segue… Ah! – Catarina agacha-se perto da mesa do telefone – Minhas sapatilhas, esqueci aqui. Hum, boa sorte… Melhor, boa volta.

E sem estrondos, choros ou troca de ofensas, ela fecha a porta calmamente e se vai:

– Helena, eu te amo – repito, em tom de desculpas.

– Mas você esteve vivo esse tempo todo. Não me importo e não me interesso em saber.

Ela me beija, e me beija. E eu não questiono. Seguindo, vivendo, tentando de novo, como nunca pensei ser possível.

(Continua)

Abraço,

David Felipe