Amor Debaixo D’Água – Capítulo 8

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 8

 

Eu venho deixando a metáfora um pouco de lado e ficando com o fisiologismo em detrimento da identificação de novos propósitos. Se o corpo, ao menos, funciona em perfeito estado, é hora de continuar a procurar.

Já não acordo no meio da noite para verificar se há alguma ligação sua perdida no celular ou se deixou alguma mensagem por email. Se eu quero acelerar, tenho de baixar os vidros e deixar o vento entrar:

– E aí, hoje a noite é nossa? – lancei o trecho do pagode mais animado que me passou na cabeça, em frente a uma balada de música eletrônica.

Um sorriso tímido, a garota olhou para amiga sentada no banco do carona e me ultrapassou na fila do estacionamento. Eu ri, foi o que restou fazer até tentar localizá-la no meio da balada.

– Deixou a garota passar, Nando?

E é a primeira vez que sabem de meu nome, ou apelido ao menos.

– Ainda não. A noite não acabou.

Rogério riu e deu mais um trago no cigarro:

– Último trago, Nando. Não fumo mais aqui, não.

E o que eu poderia fazer? Desanimar na porta da balada? Não. Relevando até o fato quase inconcebível do cheiro da nicotina com menta no meu carro. Fazer o que? Certas manias de alguns baladeiros não vão embora com o avanço dos vinte e poucos anos.

– Você devia provar, Nando. Sucesso na balada!

– Eu fico com o enxaguante bucal extra forte mesmo.

– Nerd na balada – e riu-se.

– Nando na balada, mané.

E como no clímax de qualquer filme de sessão da tarde, após umas duas horas de curtição eletrônica, dei de cara com a garota da entrada, a mesma que ouviu meu trecho de refrão de pagode. Mas me faltaram as palavras, literalmente, e o corpo agiu. De ambos, por assim dizer. Senti-me um adolescente novamente, porém consciente de que um after party me faria mais feliz.

Indo do profundo ao raso ou do sublime ao físico, depois de alguns beijos e abraços mais animados, deixamos o DJ com os demais pagantes e fomos acertar nossas comandas no caixa. A garota entregou a chave do carro à amiga, o cartão do estacionamento e rumamos a nossa aventura inicial. Eu dei um toque para o Rogério que pegasse um táxi e ele me brindou, ainda que eu tivesse sem um copo à mão. Partes práticas em ordem, lá fomos nós.

Deixando de sonhar? Talvez não. Apenas reaprendendo a viver com o ímpeto juvenil e a responsabilidade que coube a evitar qualquer filho ou extras de uma aparente uma noite e nada mais.

Eu me sentindo com sorte grande, com um trevo de quatro folhas… Sim, sem metáforas baratas. E dessa vez não projetei o rosto daquela que permiti que partisse, nem saquei moedas ao vento. Feliz pela primeira vez, por ter trocado a fechadura do apartamento e estar vivendo as alegrias de um fisiologismo mais consciente. A parte mais rasa do hedonismo em compreensão profunda.

Voando alto, pensando um pouco e poetizando ainda menos. Feliz pelo momento inaugural de vários outros que espero estarem por vir.

(Continua)

Abraço,

David Felipe

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