Amor Debaixo D’Água – Capítulo 2

Amor Debaixo D’Água Capítulo 2

Eu pensei que uma moça paga poderia fazer-me te esquecer por um momento que fosse. E sem querer parecer o mais pudico clérigo, digo que o corpo ficou em brasa enquanto a alma voou longe, talvez sem nem temperatura distinguir. Foi uma hora de fisiologismo e prazer, sem qualquer demonstração de naturalidade ou carinho que fosse. A vontade de viver voltou por minhas vísceras, por meu sangue pulsando, mas só.

Moeda não paga o cuidado do preparo do café da manhã nem sequer a ternura do bom dia com voz de sono, tão piegas e tão doce ao mesmo tempo. Só me restando pagar para o meu corpo sentir-se vivo de novo. E é triste por saber que se foi da minha vida e eu, incapaz de reconquistar.

Eu quero dar um passo de cada vez como quem segue as orientações de terapia em grupo e é ligado a um vício qualquer. Não, eu jamais a julgaria como um vício, uma maldição a qual rouba os bons princípios. Até porque com ela não me importavam os princípios, ou talvez importassem, mas nada a não me deixar desfazer a cara emburrada após um fio de cabelo puxado na nuca como repreensão. E eu sem nem reclamar, devolvendo um sorriso largo e um beijo longo. Dessa combinação eu gostava, não da hora marcada e do dinheiro entregue na seqüência do instante seguinte ao gozo.

Talvez eu ligue hoje menos ao vocabulário e tenha perdido o esforço de buscar palavras bonitas, menos diretas e com prosódia adequada. Prosódia fica para trás depois de um corpo satisfeito jogado na cama e uma alma rasa rondando sem saber exatamente para onde ir. O suor ainda escorrendo pelo pescoço e a alma queimando, porém de frio, da falta de você. E me contradigo quanto ao tempo, à temperatura, às coisas que assim sinto e sobre as quais não deveria filosofar.

A apatia se encaixaria perfeitamente ao momento, todavia se ainda faço algum tipo de julgamento e conexão sináptica é porque me resta alguma esperança, algum tempo a me levar a uma nova tentativa de fazer o certo, de ser feliz de novo e te deixar ir duma vez, num átimo.

Eu digo alto, repito encarando o espelho para que me encoraje, mas não. As notas doces de ti ainda são trazidas na mesma inspiração concomitante a construção da frase não dita, do beijo perdido no ar e das mãos tocando o chão e apoiando o corpo que desce da cama num movimento repentino. Subindo numa flexão de braço, disparando para a água morna do chuveiro, providencial para a inquietude dos sentidos.

Ah, a falta de uma respiração ritmada em compasso único e os olhos vivos em comunicação muda e paralela. Não ousei chamá-la por teu nome, pois nunca seria a mesma coisa. Assim, como ela nem se preocupou em gravar o meu.

Almofadas no chão da sala de estar, lasanha descongelada no colo e breve conclusão: fisiologismo da sobrevivência comum.

(Continua)

 

Abraço,

David Felipe.

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