Amor Debaixo D’Água – Capítulo 4

 

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 4

 

É certo que eu tenho saudades daquilo que eu conheci e sabendo que era bom, quis mais. E não é justo, é o que eu digo a mim mesmo, num rompante infantil. Eu sei que você também queria estar aqui, pois há coisas que nunca são demais, por serem carregadas de bons fluidos capazes de colocar-te para cima a qualquer momento. Eu martelo as palavras na digitação do teclado do computador como se um dia tudo isso que eu cuspo da minha mente pudesse chegar a seus ouvidos de algum modo, e assim eu serei mais feliz. Acredite, eu tentei voltar a fazer poesia por ti e nem sei se podes me ouvir.

Pode parecer abstrato em demasia, ou até orgulhoso ao extremo, contudo é difícil acreditar que eu a tirei daqui para que ficasse esse vazio tantas vezes descrito por tantos poetas e que só agora eu sei o quão ruim pode ser.

Eu só quero ter esperanças, sem parecer fraco. Porque é estranho não saber de você quando me perguntam e sentir as notas doces de seu perfume só de imaginar teu olhar junto ao meu. Estou vendendo a sorte em lugar do que nem sei se ainda existe, se é real. Atiro as pedras ao mar como pedidos dum milagre e pulo as sete ondas recitando seu nome ao firmar-me na areia. Eu queria ter menos receitas de simpatia e mais brilho no olhar. Eu queria saber te amar de novo e ser correspondido e não mais verter estas lágrimas as quais insistem em embaçar este olhar que já foi tão vivo e soube te conduzir ao sétimo céu – como eu costumava gabar-me em noites terminando de manhã contigo ao meu lado.

Fato é chorar e perder a razão. Eu não soluço para não ouvirem os haustos dum louco, dum mancebo, tal como nomeariam os escritores clássicos, entre a razão e as doses de um vinho barato.

Não queria mais sentir as dores do inverno e sim a leveza dum amor de verão que nunca acaba enquanto as férias perdurarem. Eu insisto no verbo querer no passado quando sei, é consciente, te quero no presente. Talvez faltem linhas e eu esteja me repetindo com tantos “tantos” e “talvez”. Mas é o que põem para fora esses olhos embaçados, o nariz de coriza e as mãos insistentes em se tornar limpas.

Sei agora o que é estar entre mocinho e vilão dos próprios atos.

(Continua)

 

Abraço,

David Felipe

Anúncios

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 3

Amor Debaixo D’Água Capítulo 3

Que fascínio projetar sua imagem na foto da moça que sorve o refrigerante na propaganda da contracapa da revista! E imaginar como seria cada um de seus gestos: tirando o cabelo dos olhos ou esticando os dedos magros para retirar o cartão da carteira, para em seguida guardá-lo novamente, pois eu nunca deixaria um café que fosse por sua conta. Eu chego a ter um sorriso nos lábios, assim como quando você já em gargalhadas, fitava-me em tom inquisidor para que eu ao menos virasse o cantinho da boca por ouvir suas histórias. Nem que fosse por mero deboche.

Poupo-me agora em pesar tanto na descrição das lágrimas, visto que minhas pausas ou a ausência delas já deixem subentendidos tais momentos de meu fértil descontrole emocional. Sim, houvera de ser sabido que não se pode estar são em tal condição.

Num sábado como hoje, eu a teria despertado por volta do meio dia com o rosto quente pela corrida do fim de semana e ela me atirado da cama no instante seguinte num susto programado para evitar que eu deitasse na cama com a roupa da rua. Nada que não recompensasse a companhia debaixo d’água alguns minutos depois.

Eu não sei dizer ao certo o momento em que me perdi. Talvez um instante de cada vez em que mais te amei, e te perdi. Agora, é como se fizéssemos de novo amor debaixo d’água e o mundo parasse lá fora, bem clichê e bem lembrado. Somente os dois enamorados sem quaisquer preocupações que não fosse o som da água sobre nossos corpos desvendando os méritos do que o etéreo poderia traduzir ao carnal. Mas como é tedioso ficar com as lembranças, enquanto a razão lhe diz que se fizesse diferente, ainda teria essa sensação, a qualquer instante.

Eu só consigo pensar até certo limite, pois não me é certo se morreu dentro de mim, se morreu, ou se foi embora e só. Ou se fui eu… E isso não é pouco, eu sei. E não é pouco sentir-me submerso sem poder respirar, rebatendo as paredes de meu corpo como essa dor que não passa e essas mãos pesadas de sangue e leves de amor, do seu amor. Em tom de súplica, dramático como não consigo deixar de ser, projeto seu nome no tom mais forte e alto de minha voz e aguardo uma resolução do universo que me deixe, por um átimo que seja em condição de paz. Minha foto preferida com você de olhos vivos, um sorriso quase aberto e eu, aqui, de novo, com os pés no chão. Minhas mãos esfregam cada maçã do rosto e as lágrimas surgem como se não fossem ainda suficientes. Repetindo-me, repetindo-me.

(Continua)

Abraço,

David Felipe.

Amor Debaixo D’Água – Capítulo 2

Amor Debaixo D’Água Capítulo 2

Eu pensei que uma moça paga poderia fazer-me te esquecer por um momento que fosse. E sem querer parecer o mais pudico clérigo, digo que o corpo ficou em brasa enquanto a alma voou longe, talvez sem nem temperatura distinguir. Foi uma hora de fisiologismo e prazer, sem qualquer demonstração de naturalidade ou carinho que fosse. A vontade de viver voltou por minhas vísceras, por meu sangue pulsando, mas só.

Moeda não paga o cuidado do preparo do café da manhã nem sequer a ternura do bom dia com voz de sono, tão piegas e tão doce ao mesmo tempo. Só me restando pagar para o meu corpo sentir-se vivo de novo. E é triste por saber que se foi da minha vida e eu, incapaz de reconquistar.

Eu quero dar um passo de cada vez como quem segue as orientações de terapia em grupo e é ligado a um vício qualquer. Não, eu jamais a julgaria como um vício, uma maldição a qual rouba os bons princípios. Até porque com ela não me importavam os princípios, ou talvez importassem, mas nada a não me deixar desfazer a cara emburrada após um fio de cabelo puxado na nuca como repreensão. E eu sem nem reclamar, devolvendo um sorriso largo e um beijo longo. Dessa combinação eu gostava, não da hora marcada e do dinheiro entregue na seqüência do instante seguinte ao gozo.

Talvez eu ligue hoje menos ao vocabulário e tenha perdido o esforço de buscar palavras bonitas, menos diretas e com prosódia adequada. Prosódia fica para trás depois de um corpo satisfeito jogado na cama e uma alma rasa rondando sem saber exatamente para onde ir. O suor ainda escorrendo pelo pescoço e a alma queimando, porém de frio, da falta de você. E me contradigo quanto ao tempo, à temperatura, às coisas que assim sinto e sobre as quais não deveria filosofar.

A apatia se encaixaria perfeitamente ao momento, todavia se ainda faço algum tipo de julgamento e conexão sináptica é porque me resta alguma esperança, algum tempo a me levar a uma nova tentativa de fazer o certo, de ser feliz de novo e te deixar ir duma vez, num átimo.

Eu digo alto, repito encarando o espelho para que me encoraje, mas não. As notas doces de ti ainda são trazidas na mesma inspiração concomitante a construção da frase não dita, do beijo perdido no ar e das mãos tocando o chão e apoiando o corpo que desce da cama num movimento repentino. Subindo numa flexão de braço, disparando para a água morna do chuveiro, providencial para a inquietude dos sentidos.

Ah, a falta de uma respiração ritmada em compasso único e os olhos vivos em comunicação muda e paralela. Não ousei chamá-la por teu nome, pois nunca seria a mesma coisa. Assim, como ela nem se preocupou em gravar o meu.

Almofadas no chão da sala de estar, lasanha descongelada no colo e breve conclusão: fisiologismo da sobrevivência comum.

(Continua)

 

Abraço,

David Felipe.

Amor Debaixo D’Água

Qual a sensação de se apaixonar meia hora de cada vez?

E de meia em meia hora se perder?

Será isso Amor Debaixo D’Água?

Tente descobrir. Nova história a seguir.

 

Amor Debaixo D’Água

Quaisquer palavras mal colocadas que não resultaram a meu favor são do princípio negligência por uma filosofia particular sem propósitos. Curioso como criamos nossas próprias verdades e assumimos o risco por nós mesmos por coisas sem factível conexão com a realidade e não ligamos em quebrar a cara. Só quando sentimos doer. O fato é que se cheguei até aqui foi por uma trilha formada por meus próprios pensamentos, vitórias, verdades, ficções ou mentiras bonitas de ouvir.

Eu tenho um pouco de sangue em minhas mãos e por mais que eu esfregue uma mão na outra embaixo da água, seu cheiro ainda vai estar aqui. Vai estar cada nota doce que eu costumava inspirar entre as palavras inteiras de júbilo que repetia em seu ouvido enquanto julgava te amar. E você se regozijava e se derretia em demonstrações de nobre carinho. E eu me sentia feliz em fazer do teu, meu próprio ar e assim, ver o sol nascer a cada manhã parecia-me sempre mais poético. Agora, você está em meus braços e nem palavras pode me proferir dentre meus arroubos do silêncio na madrugada e de meus afagos frios de quem não é correspondido.

Sigo descalço até a sala de estar e sento-me em frente à porta de entrada, esperando que vá voltar num dos próximos quartos de hora que insisto em contar. Minhas mãos esfregam cada maçã do rosto e as lágrimas surgem como se não fossem ainda suficientes. Não sei mais se meus pés acostumaram-se ao chão frio ou se simplesmente, não estou mais aqui. É como se o poeta desse lugar ao ser humano falho, sem propósitos e se esquecesse de si mesmo por breves momentos. As pernas dobradas junto ao corpo são abraçadas por braços não tão firmes que levam o bloco todo de carne e osso ao chão. O sangue persiste, é o que posso enxergar. É como se cada gota de minha alma fosse levada embora junto ao seu sorriso, e eu tenho medo do que ainda posso sentir. Nunca pensei que pudesse fingir que é dor, como disse o poeta, o que deveras sinto. Porque dói até a ponta de meus dedos não mais limpos e carregados da pouca ternura dedicada à moça dos olhos que um dia foram meus. Eu não posso mais te olhar sem razão e passar uma hora inteira admirando o seu sorriso mudo que faz a mim, tão orgulhoso de meu vocabulário, não ter as palavras certas para te dizer, pois parece pouco um “eu te amo” seguido de um beijo. Só que não está mais aqui para que os crescentes afagos nos tornem um só.

Eu pranteio demais, reclamo demais, falo sozinho, balbucio teu nome e adormeço.

A vida parece não seguir mais as regras naturais entre comer, dormir, e acordar. Claro, água para matar a sede, literalmente, e reidratar este que insiste em verter água suja de lamento. Lamentar-se talvez seja pior que ter pena de si mesmo e isso eu não quero presente em mim. Eu já gritei seu nome, entrecortando as cordas que persistem em soar seu nome dentro de mim e me levar à insanidade das olheiras que brotam nos meus olhos. E a culpa é só minha por não saber te sentir. A sua imagem é o reflexo fugidio atrás da minha sombra refletida no espelho. O desespero é o que me toma nos minutos os quais compõem as horas pensando em seu rosto, imaginando como faria cada gesto, assim como retocar o batom enquanto eu apoiava a testa no batente da porta do quarto num meneio de cabeça negativo pelo seu ligeiro atraso. E a tua voz é a única que eu queria ressoando aqui, ao pé do meu ouvido, dizendo não quando eu te pedia para voltar atrás.

Ah, as horas tolas em que eu simplesmente deixei de somente viver para fazer promessas e considerações num tempo em que cada segundo é precioso presente. Eu disse em lugar de fazer. O lamento de novo, não. Subindo a adrenalina, querendo voar alto e esquecer. Esquecer do que me faça pensar demais em como evitar o erro ou poetizar. Querendo viver, com direito a sol fazendo apertar os olhos sem medo de estar sem proteção e correr na chuva simplesmente por estar feliz, de momento, como deveria ser.

 

(Continua)

Abraço,

David Felipe