Toco virtual

Toco virtual

As relações humanas há tempos passam por reconfigurações num mundo onde há tempos também, sendo bem redundante, imprime-se a marca da modernidade. Tornou-se moderno dizer “eu te amo” sem sentir, “adoro” como quem diz “ok, estou cada vez mais na sua, mas talvez seja só um frisson adolescente”. E a vida segue com as novas modalidades de dizer e de sentir.

Deixamos as palavras mais bonitas para preencher os depoimentos das redes sociais da esfera virtual e não conseguimos exprimi-las num contato frente a frente. Contamos os segundos das conversas ao celular e nos deparamos com alguns silêncios do outro lado da linha. Não, não se trata de uso do bônus da operadora: é um não saber dizer, uma carência de vocabulário para demonstrar-se o que sente ou tem certeza não sentir.

Estamos na era onde se responde um “eu te amo” com obrigado ou simplesmente se deixa sem resposta. Talvez a covardia tome conta de nossa falta de habilidade em lidar com as emoções tão bem resumidas na métrica dos poetas românticos, clássicos, entre quartetos e tercetos. Não se faz mais poesia simplesmente por desconhecimento de seus porquês. Fazemos arte sem saber quando por aquele segundo quando a lágrima simplesmente insiste em brotar e até mesmo quando faltam as palavras. E não pense num autor contraditório ou num ator disperso entre duas intenções diferentes para um mesmo monólogo.

A verdade é que esquecemos cada vez mais as rubricas dos roteiros e ficamos avessos às intenções daquilo que proferimos. É daí, que por vezes, surge a manifestação fria de sentimentos entre janelas de conversas num programa de bate-papo da web e descobrimos não ter habilidade para as modernas modalidades de relações humanas, tais como tomar um toco virtual, assim mesmo em escrita coloquial.

A esperar que ainda se goste mais do beijo, do abraço, das palavras e das pausas dramáticas em que só de olhar nos olhos nos regozijamos, num mundo onde o calor das mãos é real.

-Novas palavras, enquanto história nova não vem.

 

Abraço,

David Felipe.

O abraço

O abraço

Já pensou em desaprender a amar? Pode parecer um conceito complicado, mas de fato, talvez o intuito imediato seja o de descomplicar. E não tomem por um vocabulário pobre acrescentar prefixo à palavra igual numa mesma frase. É só uma maneira de reforçar o óbvio e conseguir de alguma maneira diminuir o tom piegas que se aloja em todos nós quando sentimos demais, enfeitamos demais e agimos de menos.

O ser humano insiste em caçar problemas. Longe de profetizar a auto-ajuda que lota as livrarias da cidade, do país até, apenas relato a conseqüência de um agir acelerado de quem nunca quis cometer o mesmo erro, fácil de saber e desnecessário em exprimir. Desaprender a amar pode ser uma saída.

Caixas de bombons, lembranças da viagem do fim-de-semana, a pérola a enfeitar seus cabelos na imaginação fértil de quem pensou como poeta e sem juízo. E cantou junto cada palavra cortando sua garganta e a do cantor, sentindo que aquilo que não entendia era bonito e poderia inspirar. Não, não é um abaixo aos romances. Não poderia fazê-lo: esses traduzem histórias e histórias nunca são passíveis de desprezo.

Um desabafo frio, duma noite de cabeça quente, mente pesada e alguma consciência, não se trata de um ponto final. Há tantas vírgulas para respirar ainda e tomar fôlego novo que as lágrimas vertendo dos olhos se represam em segundos para uma nova história escrita daqui para qualquer momento.

E os sonhos voltam a ser sonhados, aprendendo que não se espera o beijo quando ainda não se recebeu o abraço.

-Novas palavras, enquanto história nova não começa por aqui.

Abraço,

David Felipe.

Romeu e Julieta

Eu soltaria a minha voz pelas verdades que eu acredito, mas nem todos estão preparados para certas doses de sinceridade, e é o que eu tenho tentado dizer a mim mesmo todos os dias quando acordo. Não defenderei jamais a pregação de mentiras, ou um mundo todo de ilusões. Contudo, ir pela vida somente com palavras não levará a um futuro tão sólido, palavras estas que gosto tanto de usar e que são capazes de libertar sonhos, mas que se não bem dosadas podem privar de realizações. Percebo cada vez mais que atitudes devem caminhar juntas a discursos bonitos.

A beleza nunca conseguiu ser ímpar nesse cenário desigual. E ainda assim, é ela que nos faz cometer os maiores erros em decisões sem clara reflexão. É por ela que nos inebriamos e por isso, dizemos um “sim” sem pensar ou nem respondemos a razão e acabamos em decisões precipitadas. Insisto em não pregar mentiras, contudo deveras importante é saber calar e deixar que as coisas tomem seu rumo. E assim, talvez não seja a maior das preocuações Romeu torcer para o alvi-negro e Julieta empolgar-se pelo verde e branco tão torpe aos olhos do mancebo. Numa versão reloaded em que os mocinhos não morram no final, torna-se totalmente factível que se sintam vivos por pensar diferente e conviver com seus momentos de silêncio, os incômodos gritos de gol para a tristeza da mocinha ou do galã e a confortável hora de afagos e carinhos.

E então atitude e discuros bonitos terão espaço para uma parceria onde o belo e o construtivo possam ser coerentes em tese, conceito e livre opinião. Doses de sinceridade serão comuns, benvindas e Petruchios e Catarinas possivelmente invejem Romeu e Julieta, aos beijos e abraços num fim de campeonato com buzinaços e gritos alucinados da torcida vencedora, verde e branca ou FIEL.

-Mais palavras, enquanto história nova não vem.

Abraço,

David Felipe.