Com gelo e limão – 15. Beijo do vegan

COM GELO E LIMÃO

15. Beijo do vegan

 

            “Eu acho que eu te amo toda vez que me honra com um beijo” – a primeira frase traduzida da música de Jamie Cullum. Mas de pronto, resolvo adaptar, em minha declaração de amor via email, meio atropelada e com saudades. Faz duas semanas que não vejo Marina por conta do congresso de Economia em que eu e Mathias participamos no sul do país para apresentar os resultados de nosso portal de investimentos. Depois de quase um ano, o sucesso do projeto que de início não quis depositar tanta confiança, é inegável, e é muito bom fazer parte de tudo isso. Bem, voltando à frase traduzida do jazz moderno que me despertou o que ficara por um tempo calado, reaviva a minha mente todo o trajeto da vodka à cabine de taxi, beijo apressado no rosto, beijo roubado e os próximos vindos como presente e grande excitação. Continuo o meu email, ou melhor, recomeço:

            Eu tenho certeza que te amo toda vez que me honra com um beijo seu (ajeito a frase). Estar longe só me faz pensar no tempo desperdiçado em que não posso estar ao seu lado, assim sem pensar em nada. Aposto que o tapete macio do chão da sala de estar lá de casa está morrendo de saudades de seus habituais visitantes das noites de pizza e filme na TV ou dos cafés da manhã light recém dispostos na mesa de centro (e me acho o cara mais fanfarrão neste instante).

            As palestras são boas e até me sinto tão empreendedor quanto Mathias quando falamos de nosso portal. E não precisa mais bronquear porque já agradeci ao Mathias algumas vezes mais do que me recomendou antes de virmos para cá. Estar representando a equipe toda realmente enche-nos de orgulho. A verdade é que algumas ligações e SMS’s depois, eu sei que já deve estar um pouco cansada de mim (aproveito para a checagem usual dos que se deixam ainda arrebatar pelos “males” da paixão, que já compreendo ser controles do orgulho próprio).

            Mantendo a coesão e não decepcionando minha estudante de Letras preferida, fecho minha mensagem num terceiro parágrafo conclusivo (acrescento alguns símbolos felizes com os recursos do ponto e vírgula e parênteses). O congresso daqui a dois dias termina e prometo acordar a Cinderela nas primeiras horas da manhã.

Beijo do vegan,

Victor.

[Mensagem Enviada]

 

            – Desse jeito, a guria sufoca.

            – Hei! Leu toda a mensagem?

            – Não. Quer dizer, mais o final, com o “beijo do vegan” – Mathias ri, sem reservas.

            – Valeu, hein? Mas e tu, ligaste para algumas da tua lista?

            – Nova estratégia. Agora, deixo que elas sintam a minha falta e façam contato… Opa!

            Celular tocando.

            – Já está dando resultado… Alô. Oi, linda…

            Recoloco os fones de ouvido e volto a minha pieguice, brindado pelo meu copo de refrigerante, gelo e limão.

Com gelo e limão – 14. Mais

COM GELO E LIMÃO

14. Mais

 

            Primeira vez que saio do condomínio com meu hatch, já habilitado, contudo não totalmente seguro. O que me anima é saber que daqui a pouco verei minha guria pronta para começar a balada sem se preocupar em ligar para o rádio-táxi para garantir a volta para casa. E aquele lance de independência? Então, não é isso que me inspira mais, e sim a breve sensação de poder até o carro morrer na porta da casa de sua amada, assim do nada, e perceber que o ser atrás do volante ainda necessita de muito prática:

            – Tudo bem?

            – Oi, linda. Fora…

            – Já disse que não iria reparar. Nem dirijo ainda, não é mesmo? Não tenho nível de equiparação.

            – E o incrível…? – eu precisava lembrar do infeliz agora?

            – Que incrível?

            A velha e providencial dissimulação feminina.

            – O incrível Mathias com seus conselhos todos. Você me viu tomando aulas com ele lá em casa. – eu, tentando disfarçar sem muito êxito.

            – Verdade. Prefiro quando ele leva alguns açaís de cortesia – ri-se Marina, e me beija a bochecha, pronto que eu lhe roubo um beijo, de verdade.

            – Sem mais delongas, vamos. Viu, pegando na primeira?

            – Nenhum carro novo iria falhar logo na partida. – ela me afaga com carinho e solto um riso leve.

            Marina ao meu lado, carro indo bem, balada, som na graduação perfeita para uma noite de muita curtição, e refrigerante…Com gelo e limão, para confirmar que tudo continua andando bem.

            – Vegan, sabe que eu gosto de você assim mesmo. – diz-me ela ao pé do ouvido.

            – Sério. E eu de você, com uma vodka mais, a menos, de qualquer jeito.

            Ela me belisca como quem retruca um malfeito e em seguida já estamos no ritmo dos casais apaixonados. Não poderia pensar assim se fossem noutros tempos. Adolescer aos vinte no campo do amor só tem me feito bem. Juntando um tanto de responsabilidade pelas horas sérias do trabalho e me deixando levar pelo resto do itinerário entre minhas outras responsabilidades diárias.

            Saldo da primeira saída ao volante. Duas vezes o carro falhou por uma ou outra pisada errada na embreagem, balada sem reservas com Marina ao lado e sem preocupação nenhuma com exibicionismo, ostentação.

            – Conquista mia, te amo. Pode soar bobo, mas te amo.

            – Para meu amigo, andas muito romântico.

            – Eu sou mais que um amigo já faz algum tempo.

            – Essa conversa não vai te levar a um café da manhã em minha companhia.

            – Não? – questiono, tentando adquirir uma dissimulação que não consigo.

            – Estudar pelo resto do fim de semana. Deveria fazer o mesmo.

            – Vamos falar mais de nós e menos dos outros para fechar bem a noite. Os economistas de renome e os melhores literatos não podem desfrutar desse momentos por agora. Aquecem-se entre as páginas e páginas de nossos livros, mas só.

            – Isso não foi uma tentativa de poesia, certo?

            – Jamais. Faço-me de retórico para conseguir mais que poesia de você.

            E depois de tantas vezes utilizar a palavra “mais” em meu texto falado, me calo para uma nova rotina de afagos, carinhos…

            – Boa noite, Victinho.

            – Eu te amo – e fecho o vidro do carro, em partida.

(…)

            Tapete macio da sala de estar, novamente como pouso de minha madrugada, repassando as minhas fotos com Marina nas pastas de arquivo do celular. Mal acostumado a querer “mais”, sempre.

 

“Mal acostumado
Você me deixou
Mal acostumado
Com o seu amor
Então volta
Traz de volta o meu sorriso…”

 

            Do jazz, passando pelo rock, pop e sublinhando trechos de Ara Ketu. Ecletismo musical brindando meus momentos.

(Continua)