Com gelo e limão – 11. Remember me

COM GELO E LIMÃO

11. Remember me

 

            Acordar cedo para ir à faculdade com um sorriso de orelha a orelha, como diria minha mãe. Assim começa o meu dia, empolgado para mais quatro horas, pelo menos, de economês. Certo que estudando por livre opção, mas lembrar-me do fim de semana entre sobriedade e embriaguez é o que faz o horizonte parecer mais bonito. Eu, com filosofia rasa e uma empolgação dos que têm momentos de grandes emoções, ainda que… Ainda que leve algum tempo para a fase seguinte dos enamorados. Um beijo longo de despedida foi o bastante para pensar no próximo break-point. Não, eu não vejo isso como uma simples disputa, até porque o pior concorrente anda fora de jogo.

            Economês talvez não seja a informação substancial do início de semana ou para o interesse geral. Dando um salto breve no tempo de aulas, passo a hora do almoço. Hoje, um almoço entre a discussão de um seminário sobre a política econômica brasileira do fim dos anos 80. Assunto não muito agradável sobre a inflação e os seus efeitos. Só que minha atenção logo se desvia com a mensagem no celular:

            Remember me

            Eu voltando aos tempos dos telefonemas, praticamente. Não me importo, por agora. Dessa vez, eu mesmo sou o assunto principal. E já que não discursaria sobre mim mesmo ou me colocaria em debate nos fins de tarde, aproveitei o fim de tarde para encontrar minha estudante de letras preferida.

Café do Mathias? Exato!

            – Poderia ter escolhido um lugar diferente – diz Marina, um tanto contrafeita.

            – Não, eu gosto daqui.

            – Sente-se um vencedor, não é mesmo?

            – Não por isso. Depois, o prejuízo já foi resolvido.

            – Não vou me ater a este assunto, até porque…

            – Até porque…

            – Até porque passou e hoje…

            – E hoje…

            Eu mesmo me sentindo um tolo, tentando completar suas frases e a olhando com um sorriso insistente em meus lábios.

            – Posso? – interrompe-me Marina.

            – Foi mal. Quer dizer, desculpe.

            – Continuando, hoje eu estou muito mais confortável. Sem sobressaltos.

            – Então só ganhei do incrível por conta da gentileza?

            – Você não ganhou nada. A vida ensina, vegan.

            – Estava bom demais pra ser verdade. Esse vocabulário não te cai bem.

            – Por que não? Só tentando levar tudo menos a sério.

            – A questão é que você pode qualquer coisa, hoje. Porque…

            – Porque eu sou demais – completa ela, minha frase.

            – Engraçada, você.

            – Trocando de frases, agora?

            – Acho que isso talvez seja um sinal de intimidade.

            E em meio ao momento mágico:

            – Saindo dois sucos de morango com pouco açúcar, por minha conta – Mathias nos serve, com um sorriso no mínimo irônico, com um soco de leve em meu ombro, em sinal de apoio.

            – Isso que é intimidade. Até do pouco açúcar já se sabe?

            – Bom lanche pra vocês.

            Abandonado pelo melhor amigo, numa hora dessas.

            – Bom o suco?

            – Ficou desconcertado?

            – Não, quer dizer, quase.

            – Não disse por mal. Acho que uma coisa ou outra sempre escapa para os amigos ou amigas.

            – Nem me lembro de ter dito algo.

            – Na verdade, isso não me preocupa por agora.

            – Talvez eu já tenha dito isso, hoje. Ou pensei, não me lembro. “Não me preocupa, por agora.”

            – Como eu disse mais cedo: Remember me.

            – Always – e eu caio na brincadeira de adolescente apaixonado.

 

“We’re hand in hand
Chest to chest
And now we’re face to face

I wanna take you away
Lets escape into the music
DJ let it play
I just can’t refuse it
Like the way you do this
Keep on rockin to it
Please don’t stop the
Please don’t stop the
Please don’t stop the music”

 

            Jamie Cullum voltando a ser background music de meus acontecimentos particulares. Que venham mais dias de bem e de beijos longos, sem medo da platéia.

(Continua)

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