Com gelo e limão – 9. Porque balada é a melhor solução

COM GELO E LIMÃO

9. Porque balada é a melhor solução

 

            Fim de semana chegou e o tom filosófico que me tomou após o “pequeno incidente” na cafeteria de Mathias parece ter deixado para trás meu habitat. É sempre assim, quando eu tento me tornar um tanto responsável. Vem a voz boa ou má, ainda não sei ao certo, que me tira do marasmo e esbraveja: “Acorda!”. E eu como um bom ouvinte, levo a sério e me resigno.

            Banho de uma hora para relaxar bem, isso depois de ter utilizado a parte da mesada que me cabia à compra do mercado da semana para uma camisa nova que comprei no shopping logo depois do almoço com Mathias. Ele veio com aquele tom professoral todo dele e me passou um novo sermão. Sim, eu concordo em parte com suas palavras, mas ele não consegue ser mais forte que o esbravejo ao meu ouvido: “Acorda!”. E o mercado? Eu sobrevivo a uma semana sem uma besteira ou outra. “Poderia crescer um pouco mais” – o eco me adverte, mas por hoje deixarei isso de lado, de vez.

            – Oi, Mathias.

            – O que você está fazendo? Molhando as plantas da entrada da casa?

            – Já ouviu falar em banho. Pois é, atrapalhou meu momento de relax – respondo eu.

            – Foi mal, guri. E o celular no viva-voz, certo?

            – Adivinhão.

            – Bem, desculpe atrapalhar o relax. Ligando só pra avisar que tem sessão de truco lá em casa hoje. Tudo bem que você merecia um castigo, mas não sou seu pai pra fazer isso. Que tal?

            – Então, sabe que nem jogo lá aquelas coisas e depois…

            – Depois?

            – Depois, já programei balada pra hoje.

            – Vai sozinho?

            – Sim.

            – Por que não vem para o jogo? Vem um pessoal legal.

            – Porque balada é a melhor solução.

            – Então, vou nessa. Repassar mais umas instruções com o pessoal daqui da cafeteria. Logo mais estou em casa. Qualquer coisa, só ligar.

             – Valeu, obrigado.

             – Até!

            Perfume na medida, um pouco de pomada no cabelo… Um minuto e quinze depois: pizza de microondas quentinha e um copo de suco de laranja pronto direto da geladeira. Pulando o esquenta da balada já que não bebo e mais uns minutos, radio táxi à porta.

(…)

        Porta da balada, sozinho, com energia suficiente para aproveitar a noite sóbrio e de quebra arranjar boa companhia. Será tão difícil? Pelo saldo da última experiência de alguns meses atrás, não. Acabei a noite, ou melhor, o dia, com alguma diversão. Certo que “a vizinha” estava no mesmo lugar, todavia não podemos deixar de encarar as boas coincidências da vida. O bode com o ocorrido com o… Aquele cara mala… Então, já é uma brisa bem distante. E hoje espero passar do M na minha lista de conquistas. M de… Melhor não arriscar lembrar.

         Os compassos ou descompassos da música eletrônica já são suficientes para tornar minha noite festiva. Mais um copo de refrigerante, com gelo e limão e flertar com as meninas perto do balcão do bar. Flertar, sim, flertar. Ficar próximo do balcão do bar é sempre uma boa saída para quem está sozinho na balada, área certa para conversas ao pé do ouvido.

         – Boa noite.

         – Olá – esperando a luz chegar para o controle de qualidade. Um pouco machista talvez, contudo, real.

         – Opa, desculpe.

          A noite ainda por começar e a guria já se apoiando para ficar em pé. Acho melhor não passar da dança por enquanto.

           Luz acesa repentinamente, sirene tocando. Sinal de alteração do som e:

           – Vegan?

           – Prazer, Ma… Marina?

            – Sem ressentimentos – a fala mole.

            – Nenhum.

            – Está sozinho?

            – Sim. Curtindo a noite.

             – Muito bem. Só está faltando um copo de algo mais interessante na sua mão.

             – Você sabe que…

             – Eu sei, vegan. Conheço você.

              – E eu você. Talvez esteja um pouco além da conta já.

              – Nada.

              – E está sozinha.

               – Não, estou com você – risos repentinos.

               – Ok, então vamos curtir.

               – Curtir a noite. Não se repita tanto. Fica chato.

               Quer saída mais hollywoodiana? Beijo roubado e dessa vez correspondido. Ponto pra mim.

               – O que foi isso? – pergunta ela.

               – Um beijo, só um beijo.

               – Ok, pista de dança, por favor.

               Tomo-a nos braços, o cara mais feliz do mundo.

               – Desculpe. Fiquei tonta de repente. Melhor dar mais um tempo no bar.

               – Tudo bem.

               Só um beijo, nem duas da manhã e eu já pressentindo o fim da minha noite.

               – Melhor eu chamar um táxi.

               – Desculpe, mesmo. Eu, de novo, acabando com sua noite.

                Ela é capaz de falar assim de si mesma? – penso eu.

                – Eu sei reconhecer meus erros. Olha, aqui está minha comanda e o dinheiro pra pagar.

                Depois de “Eu sei reconhecer meus erros”?

                – Tranqüilo. E essa hora não tem fila. Segure no meu braço e vamos.

                Uma respirada mais profunda de Marina. Ela põe-se em pé e vamos para o caixa. Pagar comandas, ligar para o táxi. Destino?

                – Vamos pra minha casa, Marina. Depois você liga para sua mãe quando estiver melhor.

               Ela assente com a cabeça e vamos. Dessa vez sem despesas extras com o taxista. Marina um pouco embriagada, porém sob controle.

              – Lar, doce lar. – digo eu.

              – Amarga dor de cabeça. – contrapõe Marina.

              Um desmaio não programado. Aproveitando a média força física para levá-la até meu quarto e ficar ansioso até que ela acorde. Remédio para dor de cabeça, café forte, um telefonema breve de Marina para a mãe. Estaria na casa de uma amiga, foi o que disse. Desculpa comum, ainda que aceitável. Marina a minha frente, bem assistida por mim. Uma noite sem diversão fácil, sonhando acordado.

              Porque balada é a melhor solução.

(Continua)

David Felipe

 

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