Com gelo e limão – 13. Chasing cars?

COM GELO E LIMÃO

13. Chasing cars?

 

            Nunca pensei que salada de frutas seria a melhor pedida do café da manhã, claro, acompanhado de minha conquista, é assim que Marina odeia me ouvir dizer, e eu provoco, só para poder ter motivo para fazer as pazes. E eu confesso que parecer mais adolescente que quase adulto, é a armadilha certa do amor. Vitaminas para as tardes depois de atualizar meus tópicos no portal de investimentos. Pelas manhãs com Marina, salada de frutas:

            – Não canso de sua especialidade light – provoco, em tom de deboche.

            – Vida saudável, vegan. Só estou colaborando, Victinho – retruca Marina, e me toma a tigela da mão.

            – Não. Preciso de um café da manhã para me recompor, ainda que…

            – Ainda que…

            – Ainda que… light. Sem problemas.

(…)

            Assim, entre as aulas da faculdade, o trabalho com o portal e “uma conquista” perfeita, eu vou vivendo sem pestanejar, sem deixar uma série por fazer na academia ou uma aula prática de volante em aberto.

            – Talvez não seja tão seguro.

            – Você não vai me ajudar, Mathias? E depois, é só aqui dentro do condomínio, sem alta velocidade e sem regra de trânsito a cumprir.

            – De boa vizinhança, pelo menos. Não acha que deva respeitar?

            Apesar do tom professoral, Mathias convenceu-se a liberar sua pick-up para minhas informais aulas extras de volante. E após algumas voltas pelo condomínio, o semblante de desaprovação de meu melhor amigo e uma puxada rápida de freio de mão.

            – Sabe aquela sua idéia de aulas extras comigo duas vezes por semana?

            – Então, aprovado?

            – Penso que não. Definitivamente, não.

            – Por quê?

            – Eu paro o carro pra você não atropelar o cachorro da dona Lídia, no freio de mão… E você ainda pergunta por quê.

             Pausa quase dramática de Mathias.

            – Como eu sou bacana e tu sabes que eu sou, de repente eu até te ajudo. Mas, não no meu carro.

            – E como eu fico?

            Buzinas invadindo o meu ouvido, de supetão.

            – Surpresa!

            E um belo hatch aparecendo em minha frente.

            A tarde de sábado acabando com “o presente” de meus pais. Minha pouca habilidade supervisionada por Mathias como condicionante para minhas aventuras ao volante. Coisa de pais de filho único, o presente vindo antes da habilitação, definitivamente bem-vindo e bem recebido. Contudo, com a supervisão do amigo “mais responsável”. Minha especialidade, ligando para o disque-pizza para o jantar com meus pais e minha guria. Dispensados a boa recepção repleta de alguns exageros de meus pais que já conheciam Marina da época do colégio e de cinco em cinco minutos me fazendo ruborizar com um ou outro comentário, tal qual: “Já não era sem tempo de se entenderem, crianças”, saldo positivo para fechar o dia.

            Alguns dias a mais de táxi, até sair pelas ruas de Sampa com o símbolo da independência de qualquer jovem-adulto, como diriam meus pais. Próximo passo rumo à maturidade? Muitos outros passos – penso eu.

            Por enquanto, vou tomando da fonte de romantismo e inspiração que tomam meus dias nos últimos tempos. Deitado no tapete da sala, Marina ao meu lado e Snow Patrol como trilha sonora, para completar o ambiente de conforto:

 

“Let’s waste time

Chasing cars

Around our heads.

I need your grace

To remind me

To find my own.

If I lay here

If I just lay here,

Would you lay with me and just forget the world?”

(Continua)

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Com gelo e limão – 12. Enquanto o dia não chega

COM GELO E LIMÃO

12. Enquanto o dia não chega

 

            O “ainda que…” vem me fazendo pensar de suas semanas para cá. Por mais que eu achasse um tanto difícil, já dura mais de duas semanas o que eu chamaria de meu caminhar nas nuvens se estivesse fazendo poesia. Contudo, não sou detentor dos melhores arranjos de rimas e encontros perfeitos de palavras. Marina é a afeita às letras da vez, a mim cabe-me a economia.

            – Tem certeza de que não quer ficar? – insisto logo depois do jantar.

            – Na verdade, não. Mas… Não, preciso ir. Alguns textos ainda a analisar para a aula de amanhã.

            – Nada que eu possa fazer. Quem sabe se eu arrumar uma lâmpada e de certo,um gênio mágico que me conceda três pedidos. Aí, então, primeiro iria te querer aqui todos os dias, substituiria o chá das cinco pela hora do suco de morango e …

            – Não tem jeito, vegan. Hoje não vai acontecer mais que meu último beijo de boa noite sabor pepperoni.

            – Não insisto porque sei que minha guria é muito estudiosa e que “ ainda que” não seja hoje, agora – e a olho firme nos olhos – nós temos todo tempo pela frente – e encerro meu discurso com um beijo longo.

            – O táxi chegou.

            – Boa noite.

            Um beijo final, um beijo soprado por detrás do retrovisor e eu fecho minha noite entre o pé direito alto da entrada e a mesa de telefone. O tapete da sala pareceu-me mais confortável que subir as escadas até o quarto. Um bocejo profundo e adormeço.

(…)

            – Bom dia!

            A inconfundível voz da intimidade de anos de amizade, morando na casa logo ali, no mesmo condomínio residencial.

            – E esqueceu a porta destrancada de novo? Nova modalidade para crescimento da massa muscular? Dormir no chão da sala está virando sua especialidade.

            – Bom dia – respondo eu, quase soletrando cada palavra – Sim, esqueci a porta. Não, não é uma nova modalidade. E se perguntou alguma outra coisa, já me esqueci.

            Mathias sempre solta sua gargalhada e não deixa que meu humor interfira em sua paz natural.

            – Não vai para a faculdade hoje?

            – Não estou grandinho pra você me oferecer uma merenda para o intervalo,não?

            – Engraçado, vegan.

            – Vegan é exclusivo da Marina. Só pra constar.

            – Foi mal, Victinho. Quebrando o gelo antes da pauta do dia.

            – Pauta do dia… Aceita? – estendo-lhe um copo de minha vitamina.

            Três minutos de conversa foram suficientes para bater meu leite e duas ou três frutas no liquidificador.

            – Vamos lá. Meu desjejum, em grande estilo.

            – Pauta do dia, desjejum… Qual a próxima?

            – Será que eu te arranjei um emprego?

            Começando o dia com uma adrenalina diferente no ar.

            – Tudo começou com um trabalho acadêmico e talvez possa virar realidade.

            – Que bonitinho. Acadêmicos sonhando…

            – A idéia é boa e você nem vai precisar mudar tanto a sua rotina. Já pensou num portal de investimentos?

(…)

            Passados alguns dias de reflexão, reuniões com mais dois colaboradores do futuro portal destinado a orientação de investidores jovens, o escopo do projeto ficou pronto. Com o empreendedorismo de Mathias, o suporte de boas idéias de Renan e Júlio, colegas de faculdade de meu melhor amigo, e o meu entusiasmo em começar um projeto de trabalho que corresponde a minha vida acadêmica, as coisas saem do papel.

            Comecei a acreditar que jovens acadêmicos podem sonhar de fato e realizar quando se tem bons patrocinadores. Mathias cuidou disso como o idealizador principal e daqui a poucos dias, o portal está no ar.

            – E hoje, você tem tempo pra mim?

            – Trabalho, Marina. Mas…

            – Pode ser que insistência seja a palavra do dia.

            – Pizza, refri, gelo e limão?

            – Beijos longos, morangos talvez.

            – Enquanto o dia não chega? – questiono com os olhos fixos nos seus.

            Beijos longos… “Ainda que” chegando ao seu fim.

            E eu acreditando no amor, enfim.

            Enquanto o dia não chega, há espaço para o amor, em sua forma mais tangível ou etérea. A noite em festa por nós.

(Continua)

Com gelo e limão – 11. Remember me

COM GELO E LIMÃO

11. Remember me

 

            Acordar cedo para ir à faculdade com um sorriso de orelha a orelha, como diria minha mãe. Assim começa o meu dia, empolgado para mais quatro horas, pelo menos, de economês. Certo que estudando por livre opção, mas lembrar-me do fim de semana entre sobriedade e embriaguez é o que faz o horizonte parecer mais bonito. Eu, com filosofia rasa e uma empolgação dos que têm momentos de grandes emoções, ainda que… Ainda que leve algum tempo para a fase seguinte dos enamorados. Um beijo longo de despedida foi o bastante para pensar no próximo break-point. Não, eu não vejo isso como uma simples disputa, até porque o pior concorrente anda fora de jogo.

            Economês talvez não seja a informação substancial do início de semana ou para o interesse geral. Dando um salto breve no tempo de aulas, passo a hora do almoço. Hoje, um almoço entre a discussão de um seminário sobre a política econômica brasileira do fim dos anos 80. Assunto não muito agradável sobre a inflação e os seus efeitos. Só que minha atenção logo se desvia com a mensagem no celular:

            Remember me

            Eu voltando aos tempos dos telefonemas, praticamente. Não me importo, por agora. Dessa vez, eu mesmo sou o assunto principal. E já que não discursaria sobre mim mesmo ou me colocaria em debate nos fins de tarde, aproveitei o fim de tarde para encontrar minha estudante de letras preferida.

Café do Mathias? Exato!

            – Poderia ter escolhido um lugar diferente – diz Marina, um tanto contrafeita.

            – Não, eu gosto daqui.

            – Sente-se um vencedor, não é mesmo?

            – Não por isso. Depois, o prejuízo já foi resolvido.

            – Não vou me ater a este assunto, até porque…

            – Até porque…

            – Até porque passou e hoje…

            – E hoje…

            Eu mesmo me sentindo um tolo, tentando completar suas frases e a olhando com um sorriso insistente em meus lábios.

            – Posso? – interrompe-me Marina.

            – Foi mal. Quer dizer, desculpe.

            – Continuando, hoje eu estou muito mais confortável. Sem sobressaltos.

            – Então só ganhei do incrível por conta da gentileza?

            – Você não ganhou nada. A vida ensina, vegan.

            – Estava bom demais pra ser verdade. Esse vocabulário não te cai bem.

            – Por que não? Só tentando levar tudo menos a sério.

            – A questão é que você pode qualquer coisa, hoje. Porque…

            – Porque eu sou demais – completa ela, minha frase.

            – Engraçada, você.

            – Trocando de frases, agora?

            – Acho que isso talvez seja um sinal de intimidade.

            E em meio ao momento mágico:

            – Saindo dois sucos de morango com pouco açúcar, por minha conta – Mathias nos serve, com um sorriso no mínimo irônico, com um soco de leve em meu ombro, em sinal de apoio.

            – Isso que é intimidade. Até do pouco açúcar já se sabe?

            – Bom lanche pra vocês.

            Abandonado pelo melhor amigo, numa hora dessas.

            – Bom o suco?

            – Ficou desconcertado?

            – Não, quer dizer, quase.

            – Não disse por mal. Acho que uma coisa ou outra sempre escapa para os amigos ou amigas.

            – Nem me lembro de ter dito algo.

            – Na verdade, isso não me preocupa por agora.

            – Talvez eu já tenha dito isso, hoje. Ou pensei, não me lembro. “Não me preocupa, por agora.”

            – Como eu disse mais cedo: Remember me.

            – Always – e eu caio na brincadeira de adolescente apaixonado.

 

“We’re hand in hand
Chest to chest
And now we’re face to face

I wanna take you away
Lets escape into the music
DJ let it play
I just can’t refuse it
Like the way you do this
Keep on rockin to it
Please don’t stop the
Please don’t stop the
Please don’t stop the music”

 

            Jamie Cullum voltando a ser background music de meus acontecimentos particulares. Que venham mais dias de bem e de beijos longos, sem medo da platéia.

(Continua)

Com gelo e limão – 10. Bom dia, Cinderela

COM GELO E LIMÃO

10. Bom dia, Cinderela

 

           – Bom dia, Cinderela!

            -Bom dia, vegan. Mas ainda prefiro Marina, ok?

            – Sem problemas, princesa Marina – rio leve, irônico.

            – É um gentleman mesmo. De qualquer forma, muito obrigada. Desculpe ter atrapalhado o seu sono.

            – Não foi um problema ficar te olhando.

            O rosto dela ruborizado e eu retomando a palavra para o fim da pausa dramática.

            – Passou a dor de cabeça?

            – Não foi para tanto. Estou bem, sério. Não se preocupe.

            – Não se preocupar? Você me agarrou no meio da balada.

            – Não foi bem assim, vegan. Seu…

             – Não fica bem para uma princesa falar desse jeito, ok?

             – Engraçado você.

              – Só um minuto.

               Minha surpresa para o início da manhã:

               – Um super café da manhã! – apóio a bandeja sobre a beira da cama.

               Certo, totalmente previsível, contudo cabendo bem na minha tentativa de romantismo.

                – Cereais, frutas, suco de morango, pouco açúcar.

                – Se inspirou bem nos comerciais de margarina.

                – Você não curte margarinas, acertei?

                – Acertou – assente Marina – E adoro suco de morango. Memória incrível.

                – Memória de elefante quando se fala em você – mais um galanteio. Galanteio, isso mesmo, antigo e de vez em quando, eficaz.

                 – Bobo – e me beija no rosto.

                 Sessão piquenique no quarto do Victor. Uma dose de imaturidade caindo perfeitamente à atmosfera ambiente. Marina sorrindo e eu olhando, de fato, como um bobo, assim como disse ela. Um domingo de céu e caminhos abertos. Feliz por estar sóbrio e poder cuidar de:

                – Obrigada, de novo. Você foi…

                – Incrível? – questiono retoricamente, sem qualquer modéstia.

                – Incrível, foi incrível e nada abominável – ela me abraça forte já à porta de casa.

                – Certeza de que não quer que eu te leve?

                – Não, já dei trabalho demais.

                – Nada.

                – Eu sei que dei. Depois, você tem que ter tempo para contar para o super Mathias sua noite inesquecível de… Bem, ainda que…

                – Eu nunca mentiria ou inventaria algo sobre você. E ainda que… Foi inesquecível.

                – Estamos evoluindo, Victor. Não que eu te dê esperanças, mas também não as tiro.

                “Não que eu te dê esperanças, mas também não as tiro.” – Poderia ter algo mais leve para concluir o assunto? Esperanças?

                 Baixo os olhos, pensativo…

                 Beijo longo, roubado e… Eu, sem palavras.

                 – Aprendendo com você, vegan. Nós nos falamos.

                  – Hummm, ok.

                   Para o almoço, vitamina de novo. Sem muita criatividade ou disposição para sair de casa para o almoço.

                   Celular interrompendo meu silêncio incomum:

                    – Almoçou, Victor?

                    – Uma vitamina.

                    – Vi quando a Marina partiu. Feliz?

                    – …

                    – Nem precisa responder.

                    – Mas não…

                    – Claro, ela não é…

                    – Ela é a Marina, simplesmente.

                    – Que bonitinho.

                     -Ah, vá Mathias… Curtir comigo, agora?

                    – Só brincando contigo. Muito feliz por você.

                    – Valeu. Agora me deixe com meus bons pensamentos.

                     – Filosofando? Bom sinal, ou não – riso leve.

                     – E o açaí master da cafeteria, trouxe algum pra casa?

                     – Deu sorte, Victinho. Pode vir pra filar a sobremesa.

                     Domingo de sol, vê-la dormindo, ter um beijo roubado… E açaí para recompor as energias. Nada mal.

 (Continua)

Com gelo e limão – 9. Porque balada é a melhor solução

COM GELO E LIMÃO

9. Porque balada é a melhor solução

 

            Fim de semana chegou e o tom filosófico que me tomou após o “pequeno incidente” na cafeteria de Mathias parece ter deixado para trás meu habitat. É sempre assim, quando eu tento me tornar um tanto responsável. Vem a voz boa ou má, ainda não sei ao certo, que me tira do marasmo e esbraveja: “Acorda!”. E eu como um bom ouvinte, levo a sério e me resigno.

            Banho de uma hora para relaxar bem, isso depois de ter utilizado a parte da mesada que me cabia à compra do mercado da semana para uma camisa nova que comprei no shopping logo depois do almoço com Mathias. Ele veio com aquele tom professoral todo dele e me passou um novo sermão. Sim, eu concordo em parte com suas palavras, mas ele não consegue ser mais forte que o esbravejo ao meu ouvido: “Acorda!”. E o mercado? Eu sobrevivo a uma semana sem uma besteira ou outra. “Poderia crescer um pouco mais” – o eco me adverte, mas por hoje deixarei isso de lado, de vez.

            – Oi, Mathias.

            – O que você está fazendo? Molhando as plantas da entrada da casa?

            – Já ouviu falar em banho. Pois é, atrapalhou meu momento de relax – respondo eu.

            – Foi mal, guri. E o celular no viva-voz, certo?

            – Adivinhão.

            – Bem, desculpe atrapalhar o relax. Ligando só pra avisar que tem sessão de truco lá em casa hoje. Tudo bem que você merecia um castigo, mas não sou seu pai pra fazer isso. Que tal?

            – Então, sabe que nem jogo lá aquelas coisas e depois…

            – Depois?

            – Depois, já programei balada pra hoje.

            – Vai sozinho?

            – Sim.

            – Por que não vem para o jogo? Vem um pessoal legal.

            – Porque balada é a melhor solução.

            – Então, vou nessa. Repassar mais umas instruções com o pessoal daqui da cafeteria. Logo mais estou em casa. Qualquer coisa, só ligar.

             – Valeu, obrigado.

             – Até!

            Perfume na medida, um pouco de pomada no cabelo… Um minuto e quinze depois: pizza de microondas quentinha e um copo de suco de laranja pronto direto da geladeira. Pulando o esquenta da balada já que não bebo e mais uns minutos, radio táxi à porta.

(…)

        Porta da balada, sozinho, com energia suficiente para aproveitar a noite sóbrio e de quebra arranjar boa companhia. Será tão difícil? Pelo saldo da última experiência de alguns meses atrás, não. Acabei a noite, ou melhor, o dia, com alguma diversão. Certo que “a vizinha” estava no mesmo lugar, todavia não podemos deixar de encarar as boas coincidências da vida. O bode com o ocorrido com o… Aquele cara mala… Então, já é uma brisa bem distante. E hoje espero passar do M na minha lista de conquistas. M de… Melhor não arriscar lembrar.

         Os compassos ou descompassos da música eletrônica já são suficientes para tornar minha noite festiva. Mais um copo de refrigerante, com gelo e limão e flertar com as meninas perto do balcão do bar. Flertar, sim, flertar. Ficar próximo do balcão do bar é sempre uma boa saída para quem está sozinho na balada, área certa para conversas ao pé do ouvido.

         – Boa noite.

         – Olá – esperando a luz chegar para o controle de qualidade. Um pouco machista talvez, contudo, real.

         – Opa, desculpe.

          A noite ainda por começar e a guria já se apoiando para ficar em pé. Acho melhor não passar da dança por enquanto.

           Luz acesa repentinamente, sirene tocando. Sinal de alteração do som e:

           – Vegan?

           – Prazer, Ma… Marina?

            – Sem ressentimentos – a fala mole.

            – Nenhum.

            – Está sozinho?

            – Sim. Curtindo a noite.

             – Muito bem. Só está faltando um copo de algo mais interessante na sua mão.

             – Você sabe que…

             – Eu sei, vegan. Conheço você.

              – E eu você. Talvez esteja um pouco além da conta já.

              – Nada.

              – E está sozinha.

               – Não, estou com você – risos repentinos.

               – Ok, então vamos curtir.

               – Curtir a noite. Não se repita tanto. Fica chato.

               Quer saída mais hollywoodiana? Beijo roubado e dessa vez correspondido. Ponto pra mim.

               – O que foi isso? – pergunta ela.

               – Um beijo, só um beijo.

               – Ok, pista de dança, por favor.

               Tomo-a nos braços, o cara mais feliz do mundo.

               – Desculpe. Fiquei tonta de repente. Melhor dar mais um tempo no bar.

               – Tudo bem.

               Só um beijo, nem duas da manhã e eu já pressentindo o fim da minha noite.

               – Melhor eu chamar um táxi.

               – Desculpe, mesmo. Eu, de novo, acabando com sua noite.

                Ela é capaz de falar assim de si mesma? – penso eu.

                – Eu sei reconhecer meus erros. Olha, aqui está minha comanda e o dinheiro pra pagar.

                Depois de “Eu sei reconhecer meus erros”?

                – Tranqüilo. E essa hora não tem fila. Segure no meu braço e vamos.

                Uma respirada mais profunda de Marina. Ela põe-se em pé e vamos para o caixa. Pagar comandas, ligar para o táxi. Destino?

                – Vamos pra minha casa, Marina. Depois você liga para sua mãe quando estiver melhor.

               Ela assente com a cabeça e vamos. Dessa vez sem despesas extras com o taxista. Marina um pouco embriagada, porém sob controle.

              – Lar, doce lar. – digo eu.

              – Amarga dor de cabeça. – contrapõe Marina.

              Um desmaio não programado. Aproveitando a média força física para levá-la até meu quarto e ficar ansioso até que ela acorde. Remédio para dor de cabeça, café forte, um telefonema breve de Marina para a mãe. Estaria na casa de uma amiga, foi o que disse. Desculpa comum, ainda que aceitável. Marina a minha frente, bem assistida por mim. Uma noite sem diversão fácil, sonhando acordado.

              Porque balada é a melhor solução.

(Continua)

David Felipe