Com gelo e limão – 8. Vazio

COM GELO E LIMÃO

8. Vazio

 

            Entre um período e outro de sono, peguei-me com pensamentos rápidos e caí na mesmice da qual muitos falam sobre o turbilhão de informações que nos tomam de súbito e pude perceber que erudição e texto coloquial podem disputar um único espaço dentro da minha cabeça. Não é proferir a frase mais inteligente, mas foi uma das partes da reflexão a martelar entre meus períodos insones. Num deles, abri a barra de chocolate sobre o criado-mudo e tentei ver alguma coisa da programação da TV paga, contudo nada trouxe de volta a animação dos vinte anos.

            Quase que como um parágrafo inteiro sem pontuações, repasso as duas semanas da tentativa de estágio e ainda não sei definir uma análise clara dos fatos. Talvez consiga e não queira ter o retrato fiel da situação. Nem sempre é bom olhar-se no espelho e sinto estar filosofando demais.

            Salvaram-se todos, ainda que eu torça para que o rosto do incrível ainda esteja saudoso de não ter conhecido minha força. Não, não sou dos melhores lutadores, é certo. A questão é que tive orgulho de mim mesmo ao acertar o obstáculo a obstruir minha trilha até o coração da princesa. Princesa? Poderia ser, ainda que soasse a uma gíria antiga. A guria é real e nos últimos tempos enredou-se pelo turbilhão de meus pensamentos. É essa a hora que me faz falta tomar suco de morango com pouco açúcar, excelente companhia.

            Levantar da cama, escovar os dentes, uma vitamina das frutas que estiverem na geladeira e:

            – Marina?

            – Precisava de tudo aquilo, vegan? Só conseguiu acabar com um relacionamento que talvez desse certo.

            Palavras mágicas: “acabar com um relacionamento”, “talvez” – comemorando sozinho e tendo bom ânimo de volta.

            – Você está aí?

            – Oi, desculpe.

            – Agora não adianta mais.

            Que pena – para o incrível. Que sorte – para mim.

            – E o prejuízo da loja com os livros? Pensou nisso antes de fazer aquela cena.

            – Resolvido o prejuízo. Fiquei de acertar por intermédio do Mathias. Ele vai verificar com a gerência da loja e eu mando o dinheiro.

            – Viu como é simples pra você. “Eu mando o dinheiro… Resolvido” – imitando meu tom de voz.

            – E eu deveria me lastimar mais?

            – Poderia crescer um pouco mais.

            – Essa doeu.

            – Que bom. Acho que isso ajuda a pensar menos no seu repertório de respostas prontas e amadurecer um pouco.

            – Assim como o Fê?

            – Ele demonstrou ser muito parecido com você.

            – Hei, longe disso. Somos completamente diferentes.

            – Não tenho certeza.

            – E você me liga para falar isso?

            – Eu liguei por que… Eu nem sei o porquê disso.

            – Eu te ligaria.

            – Por quê?

            – Não está difícil de você saber.

            – Eu não entendo.

            – Vai me dizer que é tão difícil?

            -…

            – E agora é assim? Vazio?

            Ela desliga o telefone, sem “beijo” ou “tchau”. Eu bato minha vitamina, tomo em dois goles e me jogo no sofá. Olhar no teto, pés apoiados sobre as almofadas e sem nenhuma vontade de sair do lugar.

(Continua)

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