Com gelo e limão – 7. Bate com banana

COM GELO E LIMÃO

7. Bate com banana

                      

          Eu nunca pensei que uma cafeteria dentro de uma livraria de shopping pudesse ter tanto movimento. Não, na verdade, eu sabia disso, mas não queria bem acreditar. Depois de duas semanas de meu estágio, a falta de costume em organizar os horários de faculdade, trabalho e academia, tornava a rotina cansativa, ainda mais com Mathias no comando. Para ele, meu aprendizado partiria do seguinte princípio: “Só pode comandar, quem sabe como executar”. E a partir daí, cheguei a uma simples conclusão, meu nome passaria a ser Jack e minha apresentação mudaria: “Olá, meu nome é Victor, mas pode me chamar de Jack. Jack Bauer? Não. Jack, do vocabulário da língua inglesa jack-of-all-trades, ou num bom português: o famoso faz-tudo. De uma primeira semana de observação para o “Ação!”.  E não se tratava de um set de filmagem.

          Outra descoberta marcante: adolescentes podem se concentrar como o melhor nicho de mercado para as peças mercadológicas, porém não figuram como a melhor relação empresa-cliente, ao menos num café. Por que não ir a um fast food, correr atrás dos deliciosos wraps? Não, a moda tinha que ser o famoso café do Mathias, embora o cardápio vespertino desse espaço para as famosas taças de açaí: ótimas de comer, terríveis de fazer. Um prêmio para quem acertar a dose certa de xarope de guaraná.

          “Café para as mães, cardápio especial para a gurizada” – palavras de meu amigo empreendedor.

          – Tio, bate com banana?

          Tio? Filho único, com vinte anos. Nada que um garoto de oito anos acompanhando o irmão mais velho, insistindo em brincar com o açucareiro em cima do balcão, não pudesse proferir, assim naturalmente.

          – Bate. Bate com banana para o jovem, Cecília?

         Cecília estava sendo meu braço direito. Eu quase tirava um café sem muito esforço quando seus olhos me encorajavam. Era só esperar que eu fechasse o pedido e só se reservava a mim a tarefa de entregar a xícara nas mãos do cliente. Isso até Mathias postular suas ordens e me classificar como aprendiz, solteiro, apaixonado e deixar de lado as intenções de Cecília para as folgas ou caronas de fim de turno em que eventualmente, poderíamos estender nosso carinhoso relacionamento. O quesito apaixonado pesou. E meus olhos castanhos não foram páreo para o palavreado macio do verdadeiro patrão e seu meio sotaque sulino:

          – Tu sabes que o guri precisa aprender – disse Mathias.

           Meus olhos castanhos murcharam e me restou tentar me comportar como um bom aprendiz.

          Cecília apenas me encarou por dez, quinze segundos… Minha resposta:

           – Ok, entendi. Já fica pronto, guri. Agora leve seu irmão até a mesa.

           Crianças de oito anos sabem flexibilizar atos de adultos e daqueles que ainda esperam ser. Fim da sessão açucareiro batendo no balcão, começo da cola com banana. Tive dó da quantidade de mastigações que o garoto teve de realizar para degustar minha deliciosa taça de açaí, não muito bem balanceada.

            As coisas seguiram bem, descartados meus tropeços culinários. Numa visão menos específica, eu até que desempenhava bem meu papel de aprendiz. Contudo, não me despertava o espírito empreendedor, apenas minhas dores nas costas e o desejo por mãos macias em meus ombros.

(…)

          Fim de turno, prostrado a uma das poltronas do espaço de leitura da livraria.

          – Aproveitando o fim do turno para relaxar entre os livros.

          – Só tomando fôlego antes de partir pra academia. Sessão livros fica para os estudos de mais tarde. Agora faça um favor, continue de onde parou. Mãos macias, afinal…

          – Engraçado, você. Aqui mesmo no shopping encontrará maravilhosos massagistas no andar de serviços.

          – Ok, você venceu. Mas como soube que…

          -… Shopping. Não ficaria muito difícil te encontrar por aqui. Ainda mais na livraria. E aqui há ótimas opções de literatura estrangeira.

            – Pensei que não gostasse da cafeteria, minha estudante de Letras preferida.

            – Nunca disse isso. Nada contra o café.

           Eu tentando alongar o assunto. Talvez ela também. Quando que vira Marina tantas vezes no mesmo ano? Ao menos, nos anos após a formatura no instituto.

           – Ficou me observando enquanto eu me esforçava no trabalho?

            – Você não se esforçou – disse ela, já ruborizada.

            – Então me observava?

            – Não exatamente. Passei, te vi aqui…

             Eu, já com meio sorriso e os olhos brilhando de orgulho. Ego inflado, por mim mesmo.

             – Ah, você sempre dimensiona as coisas, vegan.

             Sinal vermelho. Vegan? Hora de tentar consertar as coisas.

            – Desculpe. Aceita um café.

            – Na verdade…

            – Na verdade estamos indo pra academia. Vamos, Marina – vinha o incrível abominável à cena, pegando Marina pelo braço, de um jeito que não resisti.

            – Hei! Você está louco, animal?

            – Eu falo como quiser com a minha mulher.

            – Minha mulher?! Marina…? Como assim?

             Marina não disse nada, apenas baixou os olhos, visivelmente envergonhada.

             Nada mais de calmantes.

             Uma pirâmide de livros lançados ao chão. Minhas energias concentraram-se em meu punho direito e descobri-me um bom lutador. O incrível abominável levantou-se do chão e quis continuar a briga, impedido pelos seguranças da loja, assim como eu.

           Uma hora na sala de segurança, alguns argumentos de cada uma das partes. Sem envolvimento policial, partimos cada qual para sua casa. O incrível em seu carro, Marina num táxi, eu em outro.

          Sem mais palavras minhas. Chegar ao condomínio e na falta de meus pais, aguardar pelo sermão de Mathias. Findos quinze dias da primeira tentativa de estágio. Aquilo não começara envolvendo Economia diretamente, mas não dei chances de…

          – Você não se deu a chance, Victor – desse modo, Mathias iniciou sua fala.

          Duas horas de conversa. Oito horas de reflexão entre algumas fases de sono.

 (Continua)

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