Com gelo e limão – 6. Morangos com açúcar

COM GELO E LIMÃO

6. Morangos com açúcar

           Madrugada de sábado para domingo, sem conseguir parar de pensar em suco de morango com hortelã e pouco açúcar. Alie a isso bolo de chocolate, gosto de infância e um beijo que não aconteceu. Resultado: sem conseguir dormir num fim de semana longo pela falta de sono. Vinte anos nem sempre nos levam a momentos de curtição. Menos mal, nunca pensei que seria assim, mas passar a maior parte do tempo tentando administrar os períodos sem alegrias fáceis nem sempre é possível. É como a devolução de um voleio que para você parecia perfeito na execução, quando num milésimo de segundo o adversário ainda consegue colocar a bola do seu lado da quadra. Mais um break point perdido.

          Hoje é um dia que o “Olá, vizinho” me deixaria mais relaxado, mas ela já tem companhia para a noite. Foi o que constatei, quando vi da sacada do quarto o sedan preto que a buscou por volta das nove, enquanto eu terminava mais uma barra de chocolate e cantarolava uma letra fácil que se propagava do som de meu quarto. Música sempre me faz relaxar, só que não pode controlar meus pensamentos.

          A rotina pizza, refrigerante, uma sessão de abdominais e a maratona especial de documentários de surfe do canal de esportes não bastaram para esvaziar minha cabeça e me deixar dormir, como em qualquer fim de semana sem qualquer programação. Tento ligar para Mathias, em vão. Fui eu quem ficou sem compromissos com a diversão para o restante do sábado. Madrugada em claro, sem bons motivos e com abstrações demais para alguém acostumado com pouca ou nenhuma preocupação.

           Não cogitei ligar para meus pais, pois isso só me faria perder pontos ainda na fase de teste da suposta independência. O que diriam de meu pequeno drama particular? Se bem que dramas exigem traços demasiadamente densos e no cenário atual ainda sou capaz de me divertir. Olho ao redor e  novamente a casa parece grande demais. Já passei por todos os canais abertos, da TV paga e nada prende minha atenção. Poderosos olhos verdes, azuis, morango, pouco açúcar… Quase adormeço… Todavia há memórias doces que me fazem despertar.

          – Já é a segunda vez que comete o mesmo erro de cálculo. Por que não passa para a calculadora logo de uma vez? – questionava-me Marina.

          – Esqueceu que na hora da prova não podemos usar mais nenhum recurso que não seja nossa própria massa cinzenta – dizia eu em contraponto.

            – Ah, claro! Mas aqui não é prova e você pode fazer suas conferências, certo?

             – Sim, sim. Não que eu sempre vá concordar com você.

              – Não por isso. Não espero muito de você.

              – Tudo bem. Valeu, hein? – estendia o polegar contrafeito.

              – Chato – e beijou-me num movimento errado que pretendia acertar meu rosto.

              Ruborizei. Último ano de colégio e uma última lembrança boa antes das provas finais. Não houve pedido de desculpas, até porque não haveria razão para mal estar, pelo menos por mim. Talvez por ela, só que ela não pareceu se importar. Errou o alvo e deixou-me animado para refazer quaisquer outros exercícios mais a seu lado. Recordando-me da situação, rio de mim mesmo. Poderia ter insistido em algo mais profundo, contudo deixei passar como um lapso de uma amiga. Voltamos aos cálculos de Física, imersos em conhecimentos dentro do quarto da linda garota do instituto.

          E o que consigo agora? Um beijo no rosto, sendo que o alvo foi certeiro, determinado, insistido e todo e qualquer outro adjetivo mais que qualificasse meu ímpeto. “Menos, Victor”. Menos? Tapete macio da sala de estar, nenhum barulho. Pesam meus olhos. Boa noite.

(…)

          – Bom dia!

          – Hei! – levanto-me num impulso e acerto o pé bem no canto da mesa de telefone.

           – Doeu?

           – E ainda pergunta, Mathias? Mais uma dessas e é direto para o hospital! Que jeito de acordar alguém.

           – E que jeito de se proteger. Porta aberta todo dia, agora?

           – Esqueci, de novo.

           – Pena não ser “a vizinha” – gargalhadas no ar.

            – “A vizinha” já tinha programação para o fim de semana.

            – Perdendo terreno, guri?

            – Esperto.

            – Está certo, fim do momento descontração. Vim falar sério.

             – Olha que o empresário aqui é você. Estou na mesada…

             – Negócios indo bem. Sem pedidos “pecuniários”, se é que me entende.

             – Master o seu vocabulário.

             – Eu sei.

             – Modesto também.

             – Sem mais considerações, enfim. Lembra de que falei que estava pensando em algo, que fiquei de falar aquele dia na academia? Tenho uma proposta.

            – Posso tomar uma água, puxar uma cadeira? Sem notícias fortes.

            – Escute, é sério.

            – Já pensou em mudar sua rotina? Rotinas cansam.

           – Rotinas cansam. Bem falado. Vamos lá…

           – Eu chamaria de estágio. Que tal trabalhar comigo na cafeteria?

          Surpreendendo-me numa manhã de domingo com uma proposta de emprego? Hora de deixar de lado os morangos com açúcar, pouco açúcar e falar sério.

           – Pensou?        

           Quer saber? – penso eu.

           – Quando começo? Hoje?

           – Lembrando que vai passar por uma adaptação num trabalho, digamos pesado da rotina de atendimento. E então, pensamos numa assessoria.

           – Eu acho que posso estar com sono ainda, mas não volto atrás. Proposta aceita.

            Fim de semana em meios a alguma reflexão, primeiro emprego, frutas vermelhas e um tanto confuso na tentativa de amadurecer. Rumo aos próximos passos.

(Continua)

David Felipe.

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