Com gelo e limão – 5. Perdoados

COM GELO E LIMÃO

5. Perdoados

          Marina sempre conseguia o que queria de um modo ou de outro. Não liguei no mesmo dia. O fato que esperar para ligar no fim de semana, possivelmente, surtiria algum resultado mais positivo ou menos negativo. Tudo dependeria do ponto de vista.

          Sábado começando com muito sol, os olhos ainda inchados pelas dez horas de sono e disposição para algumas ironias ao telefone:

           – Oi, linda. Demorei pra ver sua mensagem. Como estás?

           – Bom dia, vegan. Estou bem e você?

           – Muito bem disposto. Já dispensou o incrível?

           – Por que o faria?

           – Não sei. Talvez o estoque de calmantes já tenha terminado com a chegada do fim de semana.

            – Dimensionando de novo.

            – Você adora “dimensionar” não?

            – Não foi nada engraçado, vegan. Bem…

            – Bem…?

             – …

            – Muito bem. Sem palavras pra mim?

            – Não. Não venha com essas.

            – Você me mandou uma mensagem, esqueceu?

            – Não.

            – Então vamos simplificar. Café no Mathias daqui a uma hora?

            – Quem toma café às onze?

           – Se eu ainda te conheço, seus sábados também são só para horas de sono assim como os meus?

           – Talvez a única coisa que tenhamos em comum.

           – Pode ser.

           – Poderia ter escolhido um território mais neutro? Cafeteria do Mathias?

           – O Mathias não deve estar lá a essa hora. Prova na faculdade. Só que isso não é uma guerra, pelo menos por enquanto.

           – Ok, me convenceu. Daqui a uma hora nos vemos.

           Ela desligou, assim simplesmente. Sem nem “um beijo” ou ao menos, “tchau”. Confesso que fiquei com o fonema do “beijo” no ar, quase pronunciado. Nada que tirasse meu bom humor de dez horas de sono. Falar com Marina mais de duas vezes no ano já era um sucesso, e ainda nem chegara o seu aniversário. Alguma evolução da separação escolar de quase três anos, já ocorria. E eu encarando isso quase como um litígio. O incrível podia ter a experiência de quase trinta anos, contudo vinte anos e algumas frases bem ditas poderiam ser uma boa combinação para o sucesso.

          – Café mesmo ou bebe outra coisa?

          – Hum…

          – Dois sucos de morango, por favor. Pouco açúcar…

          – E…- olhou-me ela reticente, testando minha memória.

          – …Se puder, um pouco de hortelã.

          – Ainda se lembra? – riu baixinho e me apertou a bochecha como quem brinca com uma criança.

          – Hei!

          – Nem doeu, vá?

           – Assim você complica tudo – dei um meio sorriso.

          – Eu não gostei mesmo do jeito que falou na academia.

          – Não posso pedir desculpas por isso.

          – Tudo bem, eu entendo.

          Entende? Será mesmo? Pensei.

         – Invadimos seu terreno sem pedir permissão.

         – Estamos num país livre, não é mesmo?

         – Engraçado você. Mas eu te perdôo.

         Eu engraçado? As mulheres têm mesmo essa capacidade de inverter qualquer situação.

         – Eu te perdôo – disse em tom desafiador.

         – Ok. Então estamos perdoados – abriu um sorriso incrível – Não queria era que as coisas ficassem mal resolvidas.

         Mal resolvidas? Isso ainda iria ficar mal resolvido se eu ouvisse qualquer coisa que remetesse ao Fê, o incrível.

        – Eu e o F…

        – Deixa isso pra lá. Estava indo tão bem até agora. Por favor – encarnei o mais piedoso semblante pueril.

         – Está certo.

         O suco chegou, depois fomos ao salgado e à sobremesa: bolo de chocolate e uma boa dose do gosto de infância. Ainda no processo de maturação e curtindo os momentos de alguma juventude inconseqüente.

          Marina tinha o canto da boca manchado pela calda de chocolate.

          – Aqui? – apontava ela com o indicador.

          – Não exatamente. Deixe que eu te ajude – aproximando meu rosto ao dela, à medida que limpava o chocolate com o guardanapo. Parei por alguns segundos admirando o verde, azul de seus olhos e não resisti.

          – Menos, Victor.

          Ela virara o rosto e recebera um terno e apressado beijo meu em seu rosto.

          – Desculpe. Eu…

          – Tudo bem.

         Nenhuma outra conversa mais longa. Pagar a conta, um meio sorriso e um último pedido meu de desculpas. Ainda não havia espaço para alguém menos extraordinário na vida de Marina.

          – See ya! – disse-me, mandando um beijo antes de fechar a porta do carro.

          Tirei o celular do bolso e liguei para o táxi. A hora de começar a dirigir começava a bater à porta. Eu poderia ter boa companhia por mais vinte minutos até a casa dela. Não dessa vez.

          “More than anything I want to see you girl

           Take a glorious bite out of the whole world

          You should be happy no matter what”

           Um pouco de romantismo do rock inglês de Snow Patrol para dar boas vindas à tarde de sábado deitado no sofá. Nada mal depois de um café e um beijo quase roubado.

(Continua)

David Felipe.

 

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