Com gelo e limão – 3. A ver

COM GELO E LIMÃO

3. A ver

 

             Despertei sozinho, assim como nos outros dias após passar a madrugada em claro por bons motivos. Ela sempre ia embora antes de um suposto romântico café da manhã. Mas afinal, nada disso tinha algum quê de romantismo desde um ou outro encontro por volta dos dezoito anos em que tentáramos algo que passasse do cinema às jujubas e chegasse ao café. Do pacote todo, ficamos com as madrugadas casuais.

            Esquentar as sobras de pizza no microondas e para acompanhamento a mistura de iogurte natural e polpa da fruta que ainda sobrasse no congelador. Minha receita particular para dispersar o famigerado domingo e passar por mais um dia de casa grande, CDs diversos no som e alguma revisão do material da faculdade, até ser interrompido por… Toque particular para as ligações que nunca ocorreriam e que eu não fazia mais questão de ouvir desde o fim do ensino médio e as intermináveis conversas vespertinas sobre qualquer coisa que me prendesse àquela voz:

            – Victor? – interrompendo um pop rock antes do refrão.

            – Oi, Marina. Tudo bem? Hã, quer dizer…

            – Já melhor. Nada como uma noite inteira de sono forçado.

            – Como assim?

            – Um digestivo, mais um remédio pra dor de cabeça e o toque final de um calmante natural.

            – E água, espero – como digerir tudo isso? Foi o que pensei.

            – Claro, vegan. E obrigada de novo. O Fernando se excedeu, foi só.

            – Foi só?! – meus dedos estalaram num fechar rápido de mão e um soco na quina da mesa de jantar.

            – Você dimensionou demais a situação. Uma briga de casal, normal.

            – E o jeito como ele te pegou pelo braço? Você bebendo mais do que nunca…

            – O que você tem a ver com isso? Esqueça.

            – Bom domingo, Marina.

            – Espere. Não digo por mal. Estou agradecida de verdade.

            – Ok. Da próxima vez que o incrível se exceder não devo estar por perto. Fique atenta ao seu estoque de calmantes – desliguei.

            Marina não ligou de volta e eu após cinco minutos de silêncio interior, passei ao alongamento prévio à meia hora de corrida pelas imediações do condomínio. Durante o trajeto não pude evitar que algumas idéias e comparações surgissem em meu pensamento. O incrível abominável devia estar perto dos trinta anos, já formado, transmitindo maior segurança aos olhos verdes, azuis, de Marina. Eu com vinte anos, vivendo de mesada, academia, no terceiro ano de Economia e ainda sem foco. Nesse ponto, eu podia assemelhar-me mais à Mathias – vinte anos, terceiro ano de Administração, vivendo de academia, com boas companhias para os fins de semana e ainda sócio de uma cafeteria. Essa última aberta em sociedade com a mãe, a qual quase nunca dava palpites quanto à gestão do negócio. O que seria de seu tino comercial sem dinheiro? Ao menos, ele sabia o que fazer e bem. Empreendedorismo já não fazia parte de minha personalidade, talvez análise. Contudo, o que seria da macro ou da microeconomia se eu ainda não compreendia a mim mesmo? Nunca seria tarde para parar e pensar e parar. Apaguei.

(…)

            – Dezesseis anos, não é o máximo?

            – Talvez – respondi a Mathias, num tom baixo de voz.

            – Talvez? Daqui a dois anos, curtir a noite de verdade.

            – Dois anos. É…

            – Certo, parece que nada vai te deixar animado até que ela chegue. Está quase. Ela acabou de te ligar. Ela vem.

            – Espero.

            – Já estão todos aí, quer dizer, quase todos. Teus amigos já cansaram de minhas piadas e teus pais já parecem arrependidos por terem organizado tudo isso pra você. Melhor sair dessa sacada e descer logo pra festa, certo?

            – Ok, vamos.

            – E quem chega lá?

             – Marina e…Paulo Roberto?!

            – Diretamente da sua televisão – longa gargalhada – Paulo Roberto é realmente um tanto assustador.

            – Oi, Victor – aproximou-se Marina – Parabéns!

            – Obrigado, pensei que…

            – O Beto se atrasou…

            – Sabia que ele tinha outro nome – comentou Mathias, antes de partir para a mesa de frios.

            – Fala, Victor, tudo bem? Parabéns! Festão!

            Festão? Pra quem? – foi o que pensei, terminando o copo de refrigerante ainda cheio na mão.

            – Calor, hein? Obrigado por virem. Divirtam-se – senti-me mecânico, com as frases feitas de mais um diálogo vazio.

            Marina me olhou com estranheza até ser entretida com o passo típico de dança de salão a que Paulo Roberto lhe envolveu, ao som coerente da música eletrônica. Riso fácil.

            Junho nunca fora o mês mais quente do ano, mas ver Marina com Paulo Roberto bem em minha frente fez qualquer cozinha de restaurante ser brisa diante de meu rosto quente e olhos vermelhos. Pelo menos foi o que vi e senti no reflexo do forno quando passei pela cozinha antes de sair pela porta dos fundos, abandonando a realidade por alguns minutos.

            – O que você está fazendo aí fora?

            – Está me perseguindo, Mathias?

            – Tua festa lá e você aqui. Nem é…

            – Nem é…

            – Não está certo, já falei. O que é isso? Mini-refri?

            – Vodka está bom pra você?

            – Ah, comemoração pelos dezesseis? Hoje acho que não é um bom dia pra…

            Tomei a miniatura inteira nuns dois goles. Provavelmente não fosse tão grande dose. Todavia, pra mim. Mathias me segurou pelo braço à minha primeira vacilada causada pela tontura repentina.

            – Meus pais vão me…

            – Não, eles não vão fazer nada. Tenho o remédio certo pra isso.

            – Um bom copo…

            Fomos à cozinha, devagar por conta de meus passos, em vacilo.

            – Refrigerante? – questionei, ainda atento a meus passos.

            – Com gelo e limão. Tudo fica bem assim.

(…)

            – Victor? Está legal?

            – Refrigerante.

            – Está bem, talvez tenha na geladeira. Se bem que vodka é a bebida da vez.

            – Já foi. Refrigerante. Com gelo e limão, por favor. Tudo fica bem assim.

            – Tua testa não.

            -…

            – Já parou o sangramento. Mas podia lembrar que os postes de luz permanecem lá durante o dia, ainda que fora de funcionamento. Quem manda sair pra correr depois de uma noite em claro? Dá nisso.

            – Melhor ir para o hospital.

            – Dessa vez, não, cabeça dura. Um curativo resolve.

            Famigerado domingo, com um corte na testa, gaze e esparadrapo. Caso Marina, ainda a ver.

 

(Continua)

David Felipe.

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