Com gelo e limão – 2. Amigo demais

COM GELO E LIMÃO

2. Amigo demais

 

            A garoa fina não demorou a se tornar a mais pesada chuva dos últimos tempos, caindo logo após eu entrar na pick-up de Mathias. Dirigir até o condomínio com aquela água toda cobrindo a pista não foi tarefa tão fácil, pareceu-me. Não sei o porquê exatamente, mas aos vinte anos ainda não me sentia apto a guiar meu próprio carro, ou talvez fosse mais cômodo ser passageiro. Mathias interrompeu meus pensamentos:

            – E se a guria te convida pra entrar, subir no apartamento?

            – Ela mora com os pais, esqueceu?

            – Eu não me apego a detalhes, esqueceu?

            – Ela não é um detalhe…

            – Não, da guria eu me lembro, como se ainda tivéssemos quatorze anos e você lá pendurado ao telefone toda tarde, depois de voltarmos das aulas de inglês. Marina. Eu não a vejo perguntando se está “zuzo bem”? – e ria-se.

            – Sorte minha não termos estudado no mesmo colégio. E se quer saber, não chegou a tanto. Foi mais o nervosismo pela situação, sabe?

            – “Zei” – já soltava uma de suas gargalhas, nada discretas – Foi mal, Victor. E deu sorte você de eu estar em casa. Não é tão simples me tirar dum cinema em casa com a Paty.

            – Com a Paty, a Ju, a Lindy…

            – Calma, uma de cada vez. Dei uma parada na academia esse mês.

            Última curva à direita, portaria, mais algumas ruas e logo:

            – Chegamos.

            – Valeu mesmo. Mas e a Paty?

            – Você é meu irmão. A Paty fica pra sessão da próxima semana. Amanhã letra W para variar.

            – Wanda? Wanderléa?

            – Aí já está querendo saber demais. Devia se inspirar em mim. Uma casa dessas só pra você a semana toda. Acho que vou aconselhar minha mãe a transferir o consultório para o interior também.

            – Vai nessa. Não te vejo vivendo de mesada.

            – Ainda nessa?

            – Por enquanto – sem saber ao certo até quando isso ia durar – por enquanto – repeti-me.

            – Hora de começar a mudar, seu Victor. Pense nisso. Mas primeiro, vai dormir e sonhar com tua musa das tardes.

            – Valeu, viu? Obrigado de novo.

            A casa realmente excedia minhas necessidades, Mathias tinha razão. Foi meu primeiro pensamento diante do pé direito alto logo à entrada. Talvez fosse melhor um apartamento, contudo, não é minha e viver de mesada não permite tantos palpites. Há pouco mais de seis meses vivendo por mim mesmo. Claro, com o auxílio dos serviços de limpeza doméstica umas duas vezes por semana, o que meus pais haviam feito questão de manter em contrato, antes da mudança para Atibaia. Eu não me enquadro no que seria considerado prendado se falássemos de alguma moça de minha idade.

            Desde os dez anos morando no mesmo condomínio, filho único de um bem-sucedido dermatologista da capital paulista, nunca fora responsável por mais que meus materiais escolares e a organização do próprio armário. Definitivamente, o sucesso profissional de meu pai trouxera conforto para a família e boa estrutura em amplos aspectos. Mudamos para a casa logo após meu décimo aniversário. Mathias já era morador do residencial há dois anos, vindo do sul com a mãe após a separação dos pais. Por coincidência das profissões de meu pai e de sua mãe, as famílias aproximaram-se naturalmente, sendo Mathias e sua mãe nossos primeiros contatos da vizinhança. Também filho único, Mathias tornou-se meu irmão de todos os momentos.

            – E desde quando se conhecem?

            – Desde sempre.

            – O máximo que você pode receber é um “não”.

            Comentário criativo, mas acreditei.

            – Então é só ligar.

            Treze anos de pouca malícia. Liguei para Marina, e pouco disse depois do “tudo bem?”, sua voz segura me prendeu. E lá se foram muitas tardes ouvindo problemas domésticos que diriam banais, discutindo os hits da parada de clipes da TV, reclamando das longas listas de exercícios de Física e ouvindo suas lamúrias por juvenis lances amorosos, até quase a saída do instituto. Um “não” ou se tornar amigo demais. Não consegui sequer fazer a pergunta para receber este “não”.

            – Não acredito que está acordado ainda. – Mathias atendeu o celular, ao primeiro toque.

            -Não consegui dormir.

            – Ah, você bebeu não foi? Deixou essa de vida saudável e…

            – Se chamar um gole de beber?

            – Não, você não bebeu, eu sei. Mas a guria não sai da sua cabeça desde o … Desde o táxi.

            – Mais ou menos. Relembrando umas coisas.

             – Sei. Bem, eu já te dei meu conselho. Melhor, te disse que devia dormir e sonhar, não foi?

            – Foi.

            – Então, escute seu irmão com cuidado. Desliga o computador…

            Baixei a tela do notebook.

            – O que eu falei?

            – Ok – levantei a tela, desliguei o note, de fato, e o coloquei ao lado da cama – Até parece que está aqui…

            – Quase, eu estou te vendo dentre meu pequeno compêndio de dez anos de conhecimento e convivência contigo. Amanhã você telefona pra guria e vê como ficou, ou acha que depois de uns bons copos de vodka ela ainda está acordada?

            – Disse algo sobre vodka? Foi o nervosismo, já falei.

            – Sim, falou. Mas nem precisava. E vodka é a bebida da vez. Qualquer nervosismo combinado com vodka, já viu. Acaba com qualquer banco de táxi – e o riso não foi contido.

            – Está bem. Vou tentar…Campainha a essa hora?

            – Qual a letra da vez?

            – Eu não sou você.

            – Então só pode ser…

            – Estou entrando… – voz feminina totalmente reconhecível àquela hora.

            – O garoto está prevenido para isso, sim?

            – Hei!

            – Vou entender isso como um “sim”. Tio agora, não – riu-se. Fora…

            – Ok, ok. Tudo sob controle. Desligando… Oi, vizinha.

            – Olá, vizinho.

            Um código particular para uma madrugada em claro, por bons motivos.

(Continua)

David Felipe.

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2 pensamentos sobre “Com gelo e limão – 2. Amigo demais

  1. Leticia disse:

    Estou amando David!!!!!

    bjos

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