Com gelo e limão – 1. A festa

COM GELO E LIMÃO

 1. A festa

 

            Não era a primeira vez que alguém vomitava na cabine de um táxi, ao som de um jazz moderno, entre frases como “Eu acho que eu te amo toda vez que me honra com um beijo”. E não havia como ter nojo daquela com quem convivi tantos anos e sempre recebia pontualmente meus sinceros votos de feliz aniversário a cada ano, ao menos por telefone, já que não estudávamos mais juntos e pouco nos víamos.

            – Eu pago o dobro da corrida, mas, por favor, nos leve até o endereço que pedi – disse ao motorista, enquanto ela levava a mão trêmula ao rosto, recompondo-se ao meu lado.

            Com uma cara de quem ainda não se dá por satisfeito, o motorista atenuou o semblante após o pagamento adiantado que lhe fiz, retirando as notas mais altas restando em minha carteira. O caminho já havia quase todo sido percorrido e meus olhos já pesavam após a noite de poucos momentos agradáveis como os que haviam se dado à entrada da festa em casa aconchegante:

            – Eu sabia que você viria – Janaína abriu um sorriso espontâneo e me abraçou de imediato. Quase derrubo a pequena caixa que trazia à mão.

            – Pra você. Será que acertei?

            – É lindo – de pronto, colocou o bracelete no braço e mostrou às amigas que estavam próximas a ela – Viram? Nada como ter um amigo com bom gosto.

            – Fico feliz de ter acertado. E o…

            – O Marcelo está lá fora, já comandando o churrasco, ou tentando – riu levemente e me acompanhou para que cumprimentasse os demais.

            Marcelo e Janaína estavam juntos há pouco tempo, mas de longe se percebia o grau de afinidade e encontro perfeito de temperamentos que se completavam a todo tempo. Não raro, os dois estavam às voltas com gargalhadas naturais e olhares atentos de preocupação natural, não ciúmes, de um para o outro.

            Três anos após a segunda formatura juntos e fechamento de um ciclo, estávamos poucos da turma reunidos para uma festa de aniversário que fora sempre um grandioso evento para os alunos do instituto.

            E depois de um ou outro copo de refrigerante, carne vermelha e pouca salada, aqueles olhos claros que nunca soube dizer se verdes, azuis, ou uma mistura dos dois, encontraram-me no corredor entre  a sala e a varanda.

            – E como está o pessoal?

            – Há algum tempo que não tenho mais notícias de ninguém. Cada um seguiu seu caminho, como costumam dizer.

            – Falo apenas com as meninas de sempre. E com você, claro. Uma, duas vezes no ano…? – questionava-me ela em tom retórico.

            – Acho que duas… – disse, como se não soubesse também o número exato de vezes.

            – Falei que estou…

            – Soube quase agora. O Marcelo me apresentou o… Fábio?

            – Fernando.

            – Isso, Fernando. Algum futuro?

            – Não tenho mais certeza. Ele é uma pessoa incrível, de verdade. Já fizemos tanta coisa juntos…

            – Em seis meses?

            – Oito, para ser exata. Até que sabe quase tudo já, certo?

            – Apenas memória recente do que comentaram há pouco.

            – Sei. Aceita?

            – Prefiro continuar no refrigerante, se não se importa.

            – Só um gole, vegan.

            – Vegan não, só não…

            – É quase isso – e esticou o copo de vodka para mim, enquanto tragava mais uma vez seu cigarro.

            Um gole, só um gole.

            – Viu? Não foi tão mal assim.

            – E o cara incrível?

            – Hoje está um pouco além da conta.

            O incrível abominável interrompeu-a com um beijo e a puxou pelo braço.

            – Atrapalho?

            – Não, eu já ia atrás de mais um copo…de refrigerante.

            Pude ouvir o riso do incrível, após alguma repreensão ininteligível, que meus ouvidos não alcançaram, já à varanda.

            Mais carne vermelha, refrigerante, conversas informais e logo depois do “parabéns pra você” e do primeiro pedaço de bolo dividido entre as inseparáveis amigas, os olhos azuis ou verdes, não estariam na foto dos vinte anos de Janaína junto às outras garotas.

            Marcelo foi o primeiro a colocar Fernando para fora depois dos gritos que se ouviu da calorosa discussão e eu o responsável pelo traslado, retirando as últimas notas altas da carteira para cobrir a corrida de táxi.

            Aqueles olhos já borrados pelo choro fitaram-me entre vergonha e gratidão:

            – Obrigada.

            Tirei um lenço do bolso e enxuguei o suor frio de seu pescoço, emoldurado por uma corrente levando seu nome.

            – Não se preocupe, Marina. Vai ficar tudo bem.

            A atmosfera não colaborava para mais que um pedido de desculpas e um aceno antes que ela fechasse a porta de casa.

 ####

             – Mathias?

            – Oi, Victor.

            – Seria muito pedir um carona pra casa?

            – Não ia voltar de táxi? – indagou-me, com estranheza.

            – Táxi? Lá se foi o meu táxi – e o dinheiro do fim de semana, pensei.

            – Espero chegar antes da chuva. Até mais.

            Nada como um grande amigo para não ficar a pé. Duma casa aconchegante para a garoa fina à espera da carona. Belo fim de noite, com poucas notas no bolso, cantarolando uma frase do jazz ouvido ao táxi:

             – “I think I love you everytime you honor me with a kiss”.

              Salve Jamie Cullum e abaixo às garoas finas das madrugadas sem carro.

 (Continua)

David Felipe.

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10 pensamentos sobre “Com gelo e limão – 1. A festa

  1. Taty disse:

    Oie

    Ja começando o ano bem hein ! \o

    To por aki acompanhando..

    E esperando novos capítulos…

    Sucesso !

    ; )

  2. Kiki disse:

    ta ficando bom em historias….

  3. Priscila disse:

    Olá Amigooo!!!

    Pode deixar vou acompanhar os próximos capítulos…

    Parabéns e Sucesso!!!!

  4. Isis disse:

    Hum gostei do começo, tem um romance mal resolvido no ar, estou certa?? quero ler os próximos capitulos.

  5. Bruna disse:

    Oi primo….
    nossa gostei do primeiro capitulo irei acompanhar com certeza, ja estou curiosa para saber mais sobre essa história…
    Parabens!!!!!

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