Com gelo e limão – 4. Mala

COM GELO E LIMÃO

4. Mala (Má)

 

          Algumas semanas se passaram desde o táxi caro e o corte na testa, e nenhuma ligação de Marina. Basta, porém, que eu veja qualquer carro branco na esquina ou na propaganda da TV que já me lembro da fatídica data de uma das únicas datas que nos vemos e me parece pouco agora. Talvez seja a falta de foco e eu deva realmente começar a tomar algum rumo que vá além dos livros de economês e dos halteres entre uma série e outra da academia.

          – Victor?

          – Oi – lá se vão minha segurança, meu orgulho – Oi, linda.

          – Obrigada pelo elogio, vegan. Quer dizer que vamos nos ver mais agora?

          – Por quê?

          – Academia. Resolvemos começar. Quer dizer, eu. O Fernando já fazia.

          – Ah, o incrível. Bem, faz bem – mais limitado impossível, a mesma palavra duas vezes na mesma frase.

          – Vou indo, então. Desculpe interromper…

          Interromper-me podia ter sido o ápice do meu dia, se depois da pausa caminhássemos para o suco na cantina e combinássemos que os treinos seriam atrelados às caminhadas, melhor, corridas aos sábados pelas manhãs num parque arborizado, onde surgiriam oportunidades de grandes cenas de romantismo a dar sinais de inveja em qualquer diretor de cinema de filmes adocicados e com pouco diálogo, em longas tomadas de paisagem e closes de nossos olhos se encontrando…

          – Victor?

          Mais uma repetição, soltar a barra. Fechado pulley costas por hoje.

          – Hei, Mathias! A essa hora aqui?

          – Sim, todos temos nossos momentos de folga.

          – Pois não, mas e a cafeteria?

          – Hoje não fico até o fechamento. Dei-me meio dia de Victor.

          – Obrigado pelo elogio, se é que isso é um elogio.

          – Não deveria, eu acho.

          – Nem todos tem um café.

          – Nem todos vivem de mesada.

           -… – sem palavras, situação às vezes comum.

          – Melhor parar por aqui.

          – Você está certo.

          – Estou com umas idéias, mas logo te falo.

          – Ok, não ligo tanto para mistérios… E hoje já foi uma boa dose de…

          – Boa dose de…

           – Novas não tão boas. A Marina estava aqui há uns cinco minutos.

           – E aí? Pra quando ficou o novo encontro com a guria?

            – Ela ainda está com o…

            -… Incrível abominável – risos – Aprendo rápido, viu?

            – A questão é que ela e o incrível vão treinar aqui agora. Mais uma rotina pra eu ver se sobrevivo?

           – Já foi menos dramático, Victor. E o espaço é razoável o bastante pra que não precisem se encontrar a toda hora. Mas quer um conselho, deixe de fazer da academia sua segunda casa.

            – Ah, só porque eu almoço, treino, faço o lanche da tarde e fico para o treino da noite – ri de mim mesmo.

            – Sei que não é assim todos os dias. Mas boa parte deles. Aí que vem minha idéia, se bem que isso fica para depois.

            – Já disse isso.

            – Só que agora fica pra depois mesmo. Lá vem o casal incrível.

            – Oi, de novo. O Fê veio…

           Ele não veio pedir desculpas, ele não veio pedir desculpas – pensando comigo mesmo e cerrando os dedos, preparado para um primeiro golpe.

             – …Veio cumprimentar vocês – continuou Marina – E se precisarem de algum treino especial, o Fê já  foi..

             – Personal trainner? Não preciso de alguém para afrouxar meu calção e perguntar se algo dói ao final do circuito – eu mesmo não acreditei no que terminava de dizer.

             – Que espirituoso. Já deu nossa hora, viu? Até qualquer dia. Hã, até logo, passar bem – Mathias cumprimentou Fernando, que ficara com a mão estendida aguardando meu cumprimento e empurrou-me as costas me encaminhado em menos de cinco minutos até o estacionamento.

              – Você ficou louco? Ou largou o açaí e partiu para o álcool de vez. Certo que os dois são naturais, com efeitos bem contrários eu diria…

                – Não foi engraçado – retruquei.

                – Nem você lá com a guria e o Fê?

                – Fê? – objetando, de olhos hirtos.

               – Acho que deveria prescrever-se do calmante da guria, também. Pelo menos por hoje. Quem saiba não devesse marcar de tomar um café com os dois e desfazer o mal entendido?

             – Não foi um mal entendido.

             – Eu sei, tudo bem. Poderia ser a oportunidade de se mostrar diferente do Fê, incrível, seja lá qual for seu nome principal.

            – Não sei. Tudo o que eu preciso agora é…

             – …Ir pra casa e tomar uma ducha. Devia estar mais apresentável para o café de logo mais.

              – Não disse que seguiria seu conselho e nem que seria hoje o tal dia.

              – Mas talvez essa mensagem diga alguma coisa.

              – Meu celular – tomei-o à mão, de pronto.

               – Você estava entretido demais com tua frase de efeito pra se lembrar dele.

                – “Call me”. Marina e suas frases de efeito?

                – “Liga pra mim” – risos – Só vejo um efeito nisso. Talvez você ainda tenha sua chance. E mandar a mensagem na seqüência? É, tuas frases de efeito ainda provocam alguma coisa.

                – Da última vez ela voltou com o namorado.

                – E quantos anos tinham? Quinze, dezesseis?

                – Penso que sim.

                 – E aí, chamou o táxi?

                 – Não, pensei que…

                 – Brincadeira, vegan – riu-se, com meu recorrente apelido exclusivo de Marina – Vamos, parei logo ali.

                 Trilha sonora me levando longe:

                “Eres inflamable

                 Me quemas y me pones água

                 Incontrolable

                 Este deseo mala, mala

                 Eres indomable

                 Tu boca no hay quien la pare

                 Comes manzanas envenenadas

                 Y no te puedo dejar

                 Y te quiero um poco más…Mala, mala, mala…”

                 Alejandro Sanz, ocasionalmente, pode fechar bem a idéia do que foi o seu dia.

(Continua)

David Felipe.

 

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Com gelo e limão – 3. A ver

COM GELO E LIMÃO

3. A ver

 

             Despertei sozinho, assim como nos outros dias após passar a madrugada em claro por bons motivos. Ela sempre ia embora antes de um suposto romântico café da manhã. Mas afinal, nada disso tinha algum quê de romantismo desde um ou outro encontro por volta dos dezoito anos em que tentáramos algo que passasse do cinema às jujubas e chegasse ao café. Do pacote todo, ficamos com as madrugadas casuais.

            Esquentar as sobras de pizza no microondas e para acompanhamento a mistura de iogurte natural e polpa da fruta que ainda sobrasse no congelador. Minha receita particular para dispersar o famigerado domingo e passar por mais um dia de casa grande, CDs diversos no som e alguma revisão do material da faculdade, até ser interrompido por… Toque particular para as ligações que nunca ocorreriam e que eu não fazia mais questão de ouvir desde o fim do ensino médio e as intermináveis conversas vespertinas sobre qualquer coisa que me prendesse àquela voz:

            – Victor? – interrompendo um pop rock antes do refrão.

            – Oi, Marina. Tudo bem? Hã, quer dizer…

            – Já melhor. Nada como uma noite inteira de sono forçado.

            – Como assim?

            – Um digestivo, mais um remédio pra dor de cabeça e o toque final de um calmante natural.

            – E água, espero – como digerir tudo isso? Foi o que pensei.

            – Claro, vegan. E obrigada de novo. O Fernando se excedeu, foi só.

            – Foi só?! – meus dedos estalaram num fechar rápido de mão e um soco na quina da mesa de jantar.

            – Você dimensionou demais a situação. Uma briga de casal, normal.

            – E o jeito como ele te pegou pelo braço? Você bebendo mais do que nunca…

            – O que você tem a ver com isso? Esqueça.

            – Bom domingo, Marina.

            – Espere. Não digo por mal. Estou agradecida de verdade.

            – Ok. Da próxima vez que o incrível se exceder não devo estar por perto. Fique atenta ao seu estoque de calmantes – desliguei.

            Marina não ligou de volta e eu após cinco minutos de silêncio interior, passei ao alongamento prévio à meia hora de corrida pelas imediações do condomínio. Durante o trajeto não pude evitar que algumas idéias e comparações surgissem em meu pensamento. O incrível abominável devia estar perto dos trinta anos, já formado, transmitindo maior segurança aos olhos verdes, azuis, de Marina. Eu com vinte anos, vivendo de mesada, academia, no terceiro ano de Economia e ainda sem foco. Nesse ponto, eu podia assemelhar-me mais à Mathias – vinte anos, terceiro ano de Administração, vivendo de academia, com boas companhias para os fins de semana e ainda sócio de uma cafeteria. Essa última aberta em sociedade com a mãe, a qual quase nunca dava palpites quanto à gestão do negócio. O que seria de seu tino comercial sem dinheiro? Ao menos, ele sabia o que fazer e bem. Empreendedorismo já não fazia parte de minha personalidade, talvez análise. Contudo, o que seria da macro ou da microeconomia se eu ainda não compreendia a mim mesmo? Nunca seria tarde para parar e pensar e parar. Apaguei.

(…)

            – Dezesseis anos, não é o máximo?

            – Talvez – respondi a Mathias, num tom baixo de voz.

            – Talvez? Daqui a dois anos, curtir a noite de verdade.

            – Dois anos. É…

            – Certo, parece que nada vai te deixar animado até que ela chegue. Está quase. Ela acabou de te ligar. Ela vem.

            – Espero.

            – Já estão todos aí, quer dizer, quase todos. Teus amigos já cansaram de minhas piadas e teus pais já parecem arrependidos por terem organizado tudo isso pra você. Melhor sair dessa sacada e descer logo pra festa, certo?

            – Ok, vamos.

            – E quem chega lá?

             – Marina e…Paulo Roberto?!

            – Diretamente da sua televisão – longa gargalhada – Paulo Roberto é realmente um tanto assustador.

            – Oi, Victor – aproximou-se Marina – Parabéns!

            – Obrigado, pensei que…

            – O Beto se atrasou…

            – Sabia que ele tinha outro nome – comentou Mathias, antes de partir para a mesa de frios.

            – Fala, Victor, tudo bem? Parabéns! Festão!

            Festão? Pra quem? – foi o que pensei, terminando o copo de refrigerante ainda cheio na mão.

            – Calor, hein? Obrigado por virem. Divirtam-se – senti-me mecânico, com as frases feitas de mais um diálogo vazio.

            Marina me olhou com estranheza até ser entretida com o passo típico de dança de salão a que Paulo Roberto lhe envolveu, ao som coerente da música eletrônica. Riso fácil.

            Junho nunca fora o mês mais quente do ano, mas ver Marina com Paulo Roberto bem em minha frente fez qualquer cozinha de restaurante ser brisa diante de meu rosto quente e olhos vermelhos. Pelo menos foi o que vi e senti no reflexo do forno quando passei pela cozinha antes de sair pela porta dos fundos, abandonando a realidade por alguns minutos.

            – O que você está fazendo aí fora?

            – Está me perseguindo, Mathias?

            – Tua festa lá e você aqui. Nem é…

            – Nem é…

            – Não está certo, já falei. O que é isso? Mini-refri?

            – Vodka está bom pra você?

            – Ah, comemoração pelos dezesseis? Hoje acho que não é um bom dia pra…

            Tomei a miniatura inteira nuns dois goles. Provavelmente não fosse tão grande dose. Todavia, pra mim. Mathias me segurou pelo braço à minha primeira vacilada causada pela tontura repentina.

            – Meus pais vão me…

            – Não, eles não vão fazer nada. Tenho o remédio certo pra isso.

            – Um bom copo…

            Fomos à cozinha, devagar por conta de meus passos, em vacilo.

            – Refrigerante? – questionei, ainda atento a meus passos.

            – Com gelo e limão. Tudo fica bem assim.

(…)

            – Victor? Está legal?

            – Refrigerante.

            – Está bem, talvez tenha na geladeira. Se bem que vodka é a bebida da vez.

            – Já foi. Refrigerante. Com gelo e limão, por favor. Tudo fica bem assim.

            – Tua testa não.

            -…

            – Já parou o sangramento. Mas podia lembrar que os postes de luz permanecem lá durante o dia, ainda que fora de funcionamento. Quem manda sair pra correr depois de uma noite em claro? Dá nisso.

            – Melhor ir para o hospital.

            – Dessa vez, não, cabeça dura. Um curativo resolve.

            Famigerado domingo, com um corte na testa, gaze e esparadrapo. Caso Marina, ainda a ver.

 

(Continua)

David Felipe.

Com gelo e limão – 2. Amigo demais

COM GELO E LIMÃO

2. Amigo demais

 

            A garoa fina não demorou a se tornar a mais pesada chuva dos últimos tempos, caindo logo após eu entrar na pick-up de Mathias. Dirigir até o condomínio com aquela água toda cobrindo a pista não foi tarefa tão fácil, pareceu-me. Não sei o porquê exatamente, mas aos vinte anos ainda não me sentia apto a guiar meu próprio carro, ou talvez fosse mais cômodo ser passageiro. Mathias interrompeu meus pensamentos:

            – E se a guria te convida pra entrar, subir no apartamento?

            – Ela mora com os pais, esqueceu?

            – Eu não me apego a detalhes, esqueceu?

            – Ela não é um detalhe…

            – Não, da guria eu me lembro, como se ainda tivéssemos quatorze anos e você lá pendurado ao telefone toda tarde, depois de voltarmos das aulas de inglês. Marina. Eu não a vejo perguntando se está “zuzo bem”? – e ria-se.

            – Sorte minha não termos estudado no mesmo colégio. E se quer saber, não chegou a tanto. Foi mais o nervosismo pela situação, sabe?

            – “Zei” – já soltava uma de suas gargalhas, nada discretas – Foi mal, Victor. E deu sorte você de eu estar em casa. Não é tão simples me tirar dum cinema em casa com a Paty.

            – Com a Paty, a Ju, a Lindy…

            – Calma, uma de cada vez. Dei uma parada na academia esse mês.

            Última curva à direita, portaria, mais algumas ruas e logo:

            – Chegamos.

            – Valeu mesmo. Mas e a Paty?

            – Você é meu irmão. A Paty fica pra sessão da próxima semana. Amanhã letra W para variar.

            – Wanda? Wanderléa?

            – Aí já está querendo saber demais. Devia se inspirar em mim. Uma casa dessas só pra você a semana toda. Acho que vou aconselhar minha mãe a transferir o consultório para o interior também.

            – Vai nessa. Não te vejo vivendo de mesada.

            – Ainda nessa?

            – Por enquanto – sem saber ao certo até quando isso ia durar – por enquanto – repeti-me.

            – Hora de começar a mudar, seu Victor. Pense nisso. Mas primeiro, vai dormir e sonhar com tua musa das tardes.

            – Valeu, viu? Obrigado de novo.

            A casa realmente excedia minhas necessidades, Mathias tinha razão. Foi meu primeiro pensamento diante do pé direito alto logo à entrada. Talvez fosse melhor um apartamento, contudo, não é minha e viver de mesada não permite tantos palpites. Há pouco mais de seis meses vivendo por mim mesmo. Claro, com o auxílio dos serviços de limpeza doméstica umas duas vezes por semana, o que meus pais haviam feito questão de manter em contrato, antes da mudança para Atibaia. Eu não me enquadro no que seria considerado prendado se falássemos de alguma moça de minha idade.

            Desde os dez anos morando no mesmo condomínio, filho único de um bem-sucedido dermatologista da capital paulista, nunca fora responsável por mais que meus materiais escolares e a organização do próprio armário. Definitivamente, o sucesso profissional de meu pai trouxera conforto para a família e boa estrutura em amplos aspectos. Mudamos para a casa logo após meu décimo aniversário. Mathias já era morador do residencial há dois anos, vindo do sul com a mãe após a separação dos pais. Por coincidência das profissões de meu pai e de sua mãe, as famílias aproximaram-se naturalmente, sendo Mathias e sua mãe nossos primeiros contatos da vizinhança. Também filho único, Mathias tornou-se meu irmão de todos os momentos.

            – E desde quando se conhecem?

            – Desde sempre.

            – O máximo que você pode receber é um “não”.

            Comentário criativo, mas acreditei.

            – Então é só ligar.

            Treze anos de pouca malícia. Liguei para Marina, e pouco disse depois do “tudo bem?”, sua voz segura me prendeu. E lá se foram muitas tardes ouvindo problemas domésticos que diriam banais, discutindo os hits da parada de clipes da TV, reclamando das longas listas de exercícios de Física e ouvindo suas lamúrias por juvenis lances amorosos, até quase a saída do instituto. Um “não” ou se tornar amigo demais. Não consegui sequer fazer a pergunta para receber este “não”.

            – Não acredito que está acordado ainda. – Mathias atendeu o celular, ao primeiro toque.

            -Não consegui dormir.

            – Ah, você bebeu não foi? Deixou essa de vida saudável e…

            – Se chamar um gole de beber?

            – Não, você não bebeu, eu sei. Mas a guria não sai da sua cabeça desde o … Desde o táxi.

            – Mais ou menos. Relembrando umas coisas.

             – Sei. Bem, eu já te dei meu conselho. Melhor, te disse que devia dormir e sonhar, não foi?

            – Foi.

            – Então, escute seu irmão com cuidado. Desliga o computador…

            Baixei a tela do notebook.

            – O que eu falei?

            – Ok – levantei a tela, desliguei o note, de fato, e o coloquei ao lado da cama – Até parece que está aqui…

            – Quase, eu estou te vendo dentre meu pequeno compêndio de dez anos de conhecimento e convivência contigo. Amanhã você telefona pra guria e vê como ficou, ou acha que depois de uns bons copos de vodka ela ainda está acordada?

            – Disse algo sobre vodka? Foi o nervosismo, já falei.

            – Sim, falou. Mas nem precisava. E vodka é a bebida da vez. Qualquer nervosismo combinado com vodka, já viu. Acaba com qualquer banco de táxi – e o riso não foi contido.

            – Está bem. Vou tentar…Campainha a essa hora?

            – Qual a letra da vez?

            – Eu não sou você.

            – Então só pode ser…

            – Estou entrando… – voz feminina totalmente reconhecível àquela hora.

            – O garoto está prevenido para isso, sim?

            – Hei!

            – Vou entender isso como um “sim”. Tio agora, não – riu-se. Fora…

            – Ok, ok. Tudo sob controle. Desligando… Oi, vizinha.

            – Olá, vizinho.

            Um código particular para uma madrugada em claro, por bons motivos.

(Continua)

David Felipe.

Com gelo e limão – 1. A festa

COM GELO E LIMÃO

 1. A festa

 

            Não era a primeira vez que alguém vomitava na cabine de um táxi, ao som de um jazz moderno, entre frases como “Eu acho que eu te amo toda vez que me honra com um beijo”. E não havia como ter nojo daquela com quem convivi tantos anos e sempre recebia pontualmente meus sinceros votos de feliz aniversário a cada ano, ao menos por telefone, já que não estudávamos mais juntos e pouco nos víamos.

            – Eu pago o dobro da corrida, mas, por favor, nos leve até o endereço que pedi – disse ao motorista, enquanto ela levava a mão trêmula ao rosto, recompondo-se ao meu lado.

            Com uma cara de quem ainda não se dá por satisfeito, o motorista atenuou o semblante após o pagamento adiantado que lhe fiz, retirando as notas mais altas restando em minha carteira. O caminho já havia quase todo sido percorrido e meus olhos já pesavam após a noite de poucos momentos agradáveis como os que haviam se dado à entrada da festa em casa aconchegante:

            – Eu sabia que você viria – Janaína abriu um sorriso espontâneo e me abraçou de imediato. Quase derrubo a pequena caixa que trazia à mão.

            – Pra você. Será que acertei?

            – É lindo – de pronto, colocou o bracelete no braço e mostrou às amigas que estavam próximas a ela – Viram? Nada como ter um amigo com bom gosto.

            – Fico feliz de ter acertado. E o…

            – O Marcelo está lá fora, já comandando o churrasco, ou tentando – riu levemente e me acompanhou para que cumprimentasse os demais.

            Marcelo e Janaína estavam juntos há pouco tempo, mas de longe se percebia o grau de afinidade e encontro perfeito de temperamentos que se completavam a todo tempo. Não raro, os dois estavam às voltas com gargalhadas naturais e olhares atentos de preocupação natural, não ciúmes, de um para o outro.

            Três anos após a segunda formatura juntos e fechamento de um ciclo, estávamos poucos da turma reunidos para uma festa de aniversário que fora sempre um grandioso evento para os alunos do instituto.

            E depois de um ou outro copo de refrigerante, carne vermelha e pouca salada, aqueles olhos claros que nunca soube dizer se verdes, azuis, ou uma mistura dos dois, encontraram-me no corredor entre  a sala e a varanda.

            – E como está o pessoal?

            – Há algum tempo que não tenho mais notícias de ninguém. Cada um seguiu seu caminho, como costumam dizer.

            – Falo apenas com as meninas de sempre. E com você, claro. Uma, duas vezes no ano…? – questionava-me ela em tom retórico.

            – Acho que duas… – disse, como se não soubesse também o número exato de vezes.

            – Falei que estou…

            – Soube quase agora. O Marcelo me apresentou o… Fábio?

            – Fernando.

            – Isso, Fernando. Algum futuro?

            – Não tenho mais certeza. Ele é uma pessoa incrível, de verdade. Já fizemos tanta coisa juntos…

            – Em seis meses?

            – Oito, para ser exata. Até que sabe quase tudo já, certo?

            – Apenas memória recente do que comentaram há pouco.

            – Sei. Aceita?

            – Prefiro continuar no refrigerante, se não se importa.

            – Só um gole, vegan.

            – Vegan não, só não…

            – É quase isso – e esticou o copo de vodka para mim, enquanto tragava mais uma vez seu cigarro.

            Um gole, só um gole.

            – Viu? Não foi tão mal assim.

            – E o cara incrível?

            – Hoje está um pouco além da conta.

            O incrível abominável interrompeu-a com um beijo e a puxou pelo braço.

            – Atrapalho?

            – Não, eu já ia atrás de mais um copo…de refrigerante.

            Pude ouvir o riso do incrível, após alguma repreensão ininteligível, que meus ouvidos não alcançaram, já à varanda.

            Mais carne vermelha, refrigerante, conversas informais e logo depois do “parabéns pra você” e do primeiro pedaço de bolo dividido entre as inseparáveis amigas, os olhos azuis ou verdes, não estariam na foto dos vinte anos de Janaína junto às outras garotas.

            Marcelo foi o primeiro a colocar Fernando para fora depois dos gritos que se ouviu da calorosa discussão e eu o responsável pelo traslado, retirando as últimas notas altas da carteira para cobrir a corrida de táxi.

            Aqueles olhos já borrados pelo choro fitaram-me entre vergonha e gratidão:

            – Obrigada.

            Tirei um lenço do bolso e enxuguei o suor frio de seu pescoço, emoldurado por uma corrente levando seu nome.

            – Não se preocupe, Marina. Vai ficar tudo bem.

            A atmosfera não colaborava para mais que um pedido de desculpas e um aceno antes que ela fechasse a porta de casa.

 ####

             – Mathias?

            – Oi, Victor.

            – Seria muito pedir um carona pra casa?

            – Não ia voltar de táxi? – indagou-me, com estranheza.

            – Táxi? Lá se foi o meu táxi – e o dinheiro do fim de semana, pensei.

            – Espero chegar antes da chuva. Até mais.

            Nada como um grande amigo para não ficar a pé. Duma casa aconchegante para a garoa fina à espera da carona. Belo fim de noite, com poucas notas no bolso, cantarolando uma frase do jazz ouvido ao táxi:

             – “I think I love you everytime you honor me with a kiss”.

              Salve Jamie Cullum e abaixo às garoas finas das madrugadas sem carro.

 (Continua)

David Felipe.

Com gelo e limão

Com gelo e limão

A base de um drink? Uma nova história de amor? Um romance urbano?

A partir de amanhã, inicia-se mais uma narrativa em primeira pessoa para compartilhar com vocês. No início, atualizações semanais dos posts.

Cortes rápidos, paisagem urbana, romance (s)  alguma ironia que colabore com o processo. E por que não algum pranto ocasional?

Tudo isso Com gelo e limão.

A partir de amanhã em categoria homônima.

Apertem os cintos, pois  logo começa a decolagem.

Abraço,

David Felipe.