REDENÇÃO – 9. Europa

REDENÇÃO

9 – EUROPA

            A água fria do chuveiro caindo sobre a minha cabeça, meus ombros, escorrendo pelo cabelo, encharcando minha calça jeans e gelando meus pés descalços, sem eu ligar a mínima. A única coisa que fiz de impulso após levantar da cama, depois de mais dois dias sem remédio e alguns outros sem você. Essa sensação de vazio, esse não querer sair e ao mesmo tempo correr de mim mesmo. Não consegui sustentar o corpo em pé e sentei debaixo da água do chuveiro, aberto rapidamente para sentir que ainda há vida por aqui a cada tremor de meus lábios e pelo pranto derramado em silêncio. Como viver sozinho, sem saber o momento em que me permitiu te perder? Eu não sei.

              Algum barulho parece vir da sala de estar, talvez algum objeto da mesa derrubado pelo vento vindo da janela que esqueci aberta na noite anterior.

(…)

            – Por que fazer isso com você? – uma voz parando o meu próprio tempo particular, parando o meu mundo, mas sem segurar meus tremores.

            Levanto os olhos e ali estás, a imagem mais linda eternizada em minha lembrança e materializada a minha frente. Tu soltas o que tens nas mãos e indagas:

            – Por que faz isso comigo? Levante, por favor.

            – Não posso, eu não consigo mais sem você.

            – Deixe disso.

            A água fria cessando, calda de lamento brotando de meus olhos e você me sustentando num abraço, já em pé, num fôlego único.

            – Fique comigo. Só ho-je, por fa-vor – digo entre os tremores de uma palavra e outra.

            É como se o seu beijo me dissesse SIM nesse instante, e seu corpo levasse qualquer tempo ruim para bem longe daqui. Envolvo-te nos braços e não dizemos mais nada. Estão de volta os meus afagos, os seus carinhos, nós dois e nosso tempo particular. É só contigo que me faltam as palavras, ainda que elas não sejam necessárias. Eu desenho cada contorno de seu rosto com as mãos mais cuidadosas que posso para não te ferir e num mesmo instante esses dedos gélidos se fazem suaves. Saudades desses momentos que não me lembrava, de te beijar sem hora para acabar. Sentir-te em mim é a sensação mais bonita que tenho e não posso descrever.

(…)

            Uma pausa em minhas saudades e me bronqueais com cuidado. A despensa já está reabastecida, é o que me avisas e que eu não deixe mais de alimentar por preguiça e que respeite meu recall diário, o modo ameno de me dizer: “Tome o seu remédio”.

            Não era a primeira vez que ela me barbeava com cuidado, enxugando o meu rosto e rindo das minhas caretas sem fundamento. Era como levar para longe o peso que não gostaste de ver em meu semblante. Estás ao meu lado e torço para que chova para que te descreva os desenhos nas sombras do teto do quarto. Fosse em qualquer lugar do mundo, serias meu desenho perfeito de felicidade.

            – Eu te amo. – seguro tua mão e adormeço.

            “Eu vou aonde você for, e a sua mão não vou soltar.”

 

           (Continua)

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