REDENÇÃO – 3. Contas vencidas

REDENÇÃO

3 – CONTAS VENCIDAS

            E você dizendo “Não posso mais”. Foi assim que me pus sentado de súbito à cama, quando o som de sua voz dentro de meus sonhos, ecoando em minha cabeça, me pareceu real. Mas não. Havia adormecido mais por fisiologismo que por vontade real, cedendo às vontades desse corpo que não sei se domino mais e por essa alma que voa longe sem sair do lugar, tachando mais que um clichê.

            O fato é que ficar deitado nessa cama não se manteve como minha opção primordial no intento em me esquecer do que aconteceu. A ducha gelada tirou de vez o meu sono e a fome veio, assim, sem qualquer explicação. No armário, poucas das suas bolachas de cereja e metade do iogurte na porta da geladeira, saciaram-me por algumas horas. Então, notei que deverei aprender a fazer compras e saber se prefiro cereja ou se volto ao chocolate. Meus olhos ainda pesam e insisto em não deixá-los se romper ao medo.

          Pouco depois da camiseta limpa, o jeans tirado do armário, o desjejum frugal, atualizar uns e-mails e saber o que o mundo me reserva lá fora e o que de notícia já se passou. O mundo não mudou muito sem mim e talvez eu também não sem ele. A rinite voltando a incomodar, a vontade de chocolate reavivando-se na mente. Uma leve olhada à bomboniere vazia ao lado do porta-retrato emoldurando o casal à mesa ao lado do telefone da sala…Cartas acumulando-se em cima da mesa e os jornais da semana sem recolher do canto da sala, o que não seria assim sem você. Nada estaria fora de lugar. E não falo só de coisas.

          É certo que nossas notícias passadas reportam ao tempo em que fomos felizes, em que o ápice do dia era voltar para casa e te ver, saber voltar e te ver. Saber que estarias ali me esperando e reforçando o que eu nunca quis que tivesse um fim e que eu não posso aceitar. Poderia divagar em aliterações, repetindo-me em elogios adicionais a ti, mas não. Ainda me falta modéstia e sobram orgulho e melancolia. Fato. Não pude perceber que ia te perdendo e que meus sorrisos esmaeciam pouco a pouco.

          Minhas reverberações são contas vencidas que talvez exijam mais que um “não me deixe só” que adorava ouvir entre teus lábios despedindo-se pelas manhãs. Resistir a “até logos” é humanamente aceitável, mas não dizer adeus. É exigir demais a um mancebo que tenta parafrasear poetas e que deixa seu alter – ego quase prevalecer no mundo real. E isso não se trata de uma hipérbole. Não penses que o que digo não seja real.

          Algum chocolate no criado mudo do quarto? Não. Um meio pacote de bolachas de cereja, entre meias limpas e algo mais.

          “Ter você era o que eu mais queria, mas o que eu mais fazia era tentar fugir de ti.”

(Continua)

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2 pensamentos sobre “REDENÇÃO – 3. Contas vencidas

  1. Letícia disse:

    Tadinhooo como ele está sofrendo!!!!!!
    Estou ansiosa para os próximos capítulos.

    bjos

    • davidfelipe disse:

      Faz parte do processo. Aguarde a continuação, 😉
      E muito obrigado pela audiência. Novo post já no ar.
      Bjs!

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