REDENÇÃO – 2. Uma música

REDENÇÃO

2 – UMA MÚSICA

            A chuva está um pouco mais branda e os trovões nem foram tantos para que houvesse medo. Eu consegui me sentar à cama e secar um pouco os olhos, ainda que os sinta um tanto pesados entre um a piscada e outra. Dessa vez não tive inspiração para recriar quaisquer personagens que fossem nas sombras formadas no teto com a pouca luz que vem da janela. Talvez porque não haja para quem rir ou porque minha cabeça continue a doer.

(…)

            Amanheceu e só agora me dei conta. Meu corpo ficou pesado demais e tive de me recostar à cabeceira da cama. Eu queria ter palavras mais bonitas para criar um refrão que eternizasse meus bons momentos, como o que acabo de me recordar. Férias no litoral como todos os fins de ano em família. Médias fechadas na escola, presente de Natal garantido e claro, a mala abastecida de roupas para pelo menos quinze dias de sol e diversão. Entenda-se: sorvetes em todo pôr do sol, caminhada pelo calçadão depois do almoço e os mergulhos no mar. Um pouco mais que isso e talvez em ordem cronológica inversa, sem se esquecer do videogame velho para as tardes de chuva. Era mais ou menos essa a rotina, tendo como companheiro o único primo da mesma idade e os colegas do prédio ao lado, que sempre nos encontravam antes dos agitados eventos para os catorze, quinze anos de idade. Não mencionei o skate, porque nunca aprendi a andar e doze pontos na testa do Pedro depois de uma manobra que não soube executar já eram o bastante para uma família a fim de algum sossego nas férias de verão. Mas teve algo mais marcante que o tombo do skate que a memória de quinze anos não pôde esquecer. Sim, foi quando a conheci.

            Ela tinha o mesmo sorriso que há pouco lançava para mim e os olhos um pouco mais curiosos que os de hoje. Eu estava à porta da sorveteria esperando os outros terminarem seus pedidos, já saboreando minha casquinha sabor morango, e como o calor não colaborava, já escorria certa calda de gordura hidrogenada entre os dedos. E eu chacoalhando a mão na falta de um guardanapo, a vi sorrir para mim por um breve instante até tomar o rumo do calçadão junto a outras garotas. Poucos minutos depois fiquei sabendo do luau que os garotos mais velhos do prédio ao lado organizariam na praia. E sem tantas outras opções, perto das nove da noite, estávamos lá, eu, Pedro, os outros garotos da turma e a garota do sorriso breve junto a suas amigas ouvindo os hits da época ao som acústico do violão. Não raro, cantávamos as mesmas músicas em coro, todavia quase todas as atenções convergiam para o cara com o violão e a voz mais grave.

            Durante o luau descobri que a garota do sorriso breve estava no prédio vizinho, assim como os garotos da turma e que a poderia ter visto antes. Afinal, ela sempre estava por ali durante as férias. E eu a percebi, só àquele dia e bastou para que me incomodasse seus olhares ao cara do violão e que cantasse mais animada ao seus olhares. Na quinta ou sexta música, levantei e fui me sentar entre a praia e a rua, na mureta que separava a areia e a calçada. Um nó na garganta, um picolé de limão e um “oi”.

            – Oi.

            – Cansou da música?

            – Vim ver se está tudo bem.

            – Só um enjôo – não soube , nem saberia dizer o porquê de uma desculpa tão infundada.

            – Enjôo?

            Um nó na garganta, a respiração perdida, o coração descompassado e…

            – Logo fica tudo bem. Vem.

            E me puxou pela mão e eu acreditei que algumas cenas dos filmes às vezes podem se tornar realidade. Eu fui cômico, mas na hora não me fazia rir. Segurei os chinelos à outra mão e voltei para o luau arenoso, sentado ao lado dela, de mãos dadas e com uma tremenda vontade de aprender a tocar violão e escrever versos, quem sabe um cancioneiro inteiro. Mas não.

            Ficamos juntos o resto do verão. Quer dizer, nos dez dias seguintes que se passaram. Eu ganhei um violão alguns meses depois, mas parei com as aulas antes de saber uma música inteira de cor.

            O violão empoeirado apoiado na estante me lembra de eu não saber mais que dois ou três acordes e nada ter composto.

            Não acreditei quando logo depois do verão, ela partiu para o intercâmbio. Mas meu coração disparou igual quando a busquei no aeroporto depois de uma ligação três anos depois. E agora, de novo, quando não está aqui. E eu sem refrão.

             “Eu só queria uma música pra dizer tudo o que eu quero sem me arrepender depois”.

(Continua)

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4 pensamentos sobre “REDENÇÃO – 2. Uma música

  1. Letícia disse:

    David ameiiiiiiiiiiiiiii, você tem que escrever um livro rs!!!
    Estou ansiosa para os próximos capítulos!!
    Dessa vez eu vou acompanhar hein!!

    bjoss

    • davidfelipe disse:

      Obrigado, Lê. Espero que curta a continuação da história. Td terça e quinta capítulos novos. Vem mais por aí.
      Bjs!

  2. Taty disse:

    Oie David
    Amei o começo da “Redenção”!
    Espero ler a história toda !
    Já estou curiosa para continuar acompanhando…
    Sucesso ! Sempre!
    Bjs

    • davidfelipe disse:

      Oi, Taty
      Obrigadão pela audiência por aqui.
      Hoje a história já continua. Logo mais, post novo.
      Bjs!

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